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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Apetece

Hoje o dia foi tranquilo, sem trabalho. 

Depois do dia louco de ontem, soube bem o tempo de hoje. 

Assuntos colocados em ordem, seguiu-se a praia, em sossego.

Agora, no silêncio da noite, sento-me defronte da televisão desligada. 

Apetece dormir, mas se adormeço cedo, a meio da noite ando a passear pela casa. 

Pego no telefone, enquanto penso a quem posso telefonar para passar o tempo. Desisto. 

O que realmente apetecia era uma esplanada, uma boa companhia e uma boa conversa. Mas não é possível. 

Fico parada a pensar o que me apetece. Ler, no sofá. Um pouco de música. 

Não me sinto triste ou melancólica. Apenas mole. 

Até que surge a real vontade: O que ia bem agora, era mesmo um abraço. Um ombro para pousar a cabeça. Palavras meio ditas, sono adiado. Olho de novo o telefone. Também não é possível. 

Talvez amanhã. Para um abraço nunca é tarde. 

 

 

Obrigado

Obrigado por estares aí, me ouvires, me veres ser como sou. 

Por seres tu, na tua integridade, na tua coerência, mesmo que nem sempre compreensível para mim.

Obrigado pelo que me deste e pelo que te dou,

E nesta sinergia, tão pouco comum, agradeço também quem sou para além de ti. 

Um dia de cada vez, vou trabalhando enquanto espero aquele dia que ninguém sabe se há de vir. 

 

Tempo

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Sentada a ouvir uma reunião, em que pouco se adianta, resolvi ficar em silêncio. 

Microfone desligado, para que ninguém dê pelos suspiros. a mente divaga e vai percorrendo tempos passados, numa espécie de preparação de projectos futuros.

Curioso, como o tempo vai mudando a sua dimensão à medida que os anos correm!

Fecho os olhos, e revejo na minha mente o céu azul da praia da semana passada.

Tempo que passa, como nuvens em céu limpo. Tempo que passa, perdido para sempre.

Penso em mil e um momentos e pergunto-me onde foi que, ao longo do caminho, ficou a minha fé no "tempo que resolve tudo", no tudo passa com o tempo, no tempo do amor.

Há dias em que o tempo parece ter roubado muito do meu sonho.

Noutros penso, mais racionalmente, que fui eu quem roubou o sonho ao tempo.

E nisto se vai passando mais tempo, vai sobrando menos dia, mas eu vou compreendendo.

Compreendo que agora também é tempo.

Que ainda se pode sonhar, planear e fazer.

Que por muito tempo que tenha passado, nunca é tarde para voltar a amar e a entregar o nosso ser ao tempo que ainda está para vir.

Que o tempo não foi perdido, pode ser reencontrado num sorriso que nos entregam, num coração que nos abrem, numa surpresa que nos fazem, num sentir nosso, novo ou renovado, mas verdadeiramente inesperado.

passado

Há dias que cheiram a passado.

É uma sensação meio estranha, que não sei explicar.

Algo no meu corpo se faz sentir, uma espécie de sensação na barriga,

que me traz recordações do que já foi.

Não é a primeira vez que sinto isto, mas talvez seja a primeira em que a sensação me angustia mais do que agrada.

Sentada a ouvir música fui fazendo várias análises a este sentir.

De onde vem, porque se manifesta agora? Não consigo entender.

No dia não houve nada de passado. Foi um domingo tranquilo.

A grande surpresa foi o não querer esta sensação.

Chega de passado.

Não que me arrependa das escolhas vividas. Acredito que faria tudo de novo, não por ter havido fartura de alegrias, e mesmo conhecendo os momentos de sofrimento conheço-me o suficiente para saber que as escolhas foram feitas com respeito pelos meus princípios. 

Mesmo as dolorosas. Talvez principalmente estas. Foram fruto de quem sou e fizeram-me assim.

Como? Não sei, apenas assim. 

Apenas eu.

Só isso.

Pessoas

Gosto de pessoas. 

Gente de todas as idades e gostos. Gente íntegra e fiel aos seus próprios valores. Não aos meus, que esses apenas servem a mim. 

Nalguns casos, quanto mais lhes conheço as zonas de sombra e de luz, quando reconheço os seus defeitos e reconhecem os meus, maior é a minha admiração, o meu carinho, a minha amizade. 

O homem que mais amei até hoje era capaz de ser de uma arrogância brutal mas aprendemos a lidar um com o outro e com os mútuos defeitos. Eu sempre soube que não era perfeito, e isso encantava-me e tirava-me o peso de me fingir perfeita, algo que nunca fui capaz de fazer. Sou plena de imperfeições e aprendi a apreciá-las.

Mas acima de tudo gosto de pessoas. Gosto de ir na rua, num transporte e de repente cruzar um olhar e espelhar um sorriso. 

Talvez por isso esta pandemia me esteja a custar tanto. Agora, quando nos cruzamos com alguém não há sorrisos visíveis, há olhares que, frequentemente, mostram medo. 

E eu que gosto de pessoas, que no ano passado recolhi histórias de mais de 1000 pessoas (não é um número exagerado) vejo-me a trabalhar em casa. Eu que gosto de estar cara a cara, que aprendi a batalhar contra a minha introversão, converso com outros por mail, por videoconferência (a quantidade de programas para tal que fiquei a conhecer!), com um pouco de sorte, por telefone. 

Falar com pessoas cujo nome conheço, mas que se nos cruzassemos na rua, não faria ideia. Que nunca irei conhecer. 

Pioraram as insónias, complicaram-se algumas relações familiares, aumentou a necessidade de escrita.

Durante estes meses houve momentos de esperança, de vislumbre de uma vida mais normal, mas foram apenas momentos. Um flirt, um sonho, um projecto novo de trabalho. Tudo à distância de um click. E a sensação de que me roubaram o ano. O que nesta idade parece de uma crueldade imperdoável!

A dúvida de "será que vale a pena" para cada plano, cada sonho. 

O que me trouxe à consciência a pergunta "para quê publicar este texto? para que serve? O que pode trazer aos outros?"

A eles provavelmente nada. É apenas mais um texto. Mas para mim serve, mantém-me ligada a outros. Mesmo que prováveis eternos desconhecidos.

Mas o principal que queria dizer, hoje, é isto: gosto de pessoas. 

Gosto de ti, que me lês. 

Obrigada. 

Desapareceres

02h30 da manhã.

Mais uma vez o sono me atraiçoa. 

Esta noite não há vento, nem vejo a lua.

O quarto submerso em escuridão parecia um convite sereno ao repouso. 

Os olhos fechados, a consciência adormecida, quando do nada surge a tua voz: "não me desapareças". 

E pronto, eis-me de novo acordada. 

Nessa frase deste-me a certeza de que me conhecias. Sou mestre em desaparecer. Basta perceber que já não há lugar para mim num espaço e desapareço. Não sou muito de insistir. Uma vez, duas e acabou. 

Mas também é uma frase que tem alguma ironia. Tu, que me pediste para não o fazer, desapareceste.

E agora, lá começa a luta para dormir. Desaparece o sono, desapareceste tu e eu aqui, a ler o escuro da noite.

Um dia destes desapareço e nem nos sonhos me vais encontrar. Faço justiça à minha mestria e vou com o vento, logo se vê onde me vou pousar.

 

Perspectivas

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Quase a entrar num novo dia.

Este que termina, foi muito longo. Cansativo. 

Trouxe comigo para a varanda o copo de água fresca e sentei-me a rever o dia.

Esta manhã, nesta mesma varanda, fui surpreendida por um som antigo.

Um grupo de crianças que cantava "um, dois, três, macaquinho do chinês" e jogavam entretidas, nas suas discussões e gargalhadas.

Pensava que já ninguém brincava assim.

Agora o único som que se ouve é o vento.

Vento que este ano não nos parece dar tréguas e que nos últimos dias tanto me tem irritado.

Fecho os olhos e deixo-me levar pelos sons e a irritação vai cedendo lugar ao sorriso. 

O vento lembra um alguém travesso que brinca com as minhas sensações / emoções, despenteia-me o cabelo, já de si pouco composto.

"É tudo uma questão de perspectiva", surge-me na memória. 

O vento que me irritava é o mesmo que agora me tranquiliza. 

Perspectivas. 

Como aquela lua enorme e brilhante, embora já não cheia. 

É como algumas paixões. 

Vista pela luz do romantismo aquece-nos a esperança, ilumina os dias. 

Depois vem a realidade e percebemos que se trata apenas de um sonho distante, inacessível. 

Falo da lua, claro. Ou talvez não. 

Perspectivas. 

Fecho os olhos e penso que já vai sendo tarde. 

Para paixões, para mais mudanças de perspectiva? Para estar aqui ao vento. 

O dia foi longo, receio que a noite vá ser mais uma interminável. 

Deixo-me ficar mais um pouco a admirar o sonho inacessível, enquanto o vento brinca com os meus cabelos. 

Afinal pressa para quê? Nada me espera. Ou eu não espero nada. 

Conforme a perspectiva. 

 

 

O céu é o limite

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O céu é o limite, nesta viagem com fim certo.

Esta é a noção que guardo dentro de mim, desde sempre.

O voo, planado umas vezes, picado outras,

Pode ser só ou acompanhado.

De ambas as formas, é possível.

O corpo sujeito às pressões do vento,

A mente ora fixa nas alturas, ora no horizonte,

As nuvens ou o azul de fundo,

Mas a viagem é inevitável.

Não se pode estar em terra para sempre,

Ou perdemos o cerne da nossa existência.

Abre as asas e voa, sem medo,

A cada queda, retoma viagem.

As perdas e desilusões também podem ser progresso.

Acredita.

Fecha os olhos e sonha,

Abre os olhos e concretiza.

E no que for preciso, lembra-te.

Eu voo contigo.

Artes

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Esta semana, passei pela exposição dedicada a Van Gogh.

É um dos meus pintores preferidos, não pela sua história trágica, mas pela beleza das suas telas, pela forma única como via e retratava o mundo. Uma arte que me toca. Profundamente.
Acompanhar a exposição, é acompanhar Van Gogh pela vida. As suas dores, as suas dúvidas, as suas lutas internas. O carinho e apoio do irmão.

Ao longo da história que nos contam, surgiram as inseguranças do pintor. Lembrar que foi por incentivo do irmão que se dedicou à pintura, pois achava que o seu caminho era a igreja, que, se Theo não o convence a tentar a pintura, não teríamos as noites estreladas que ele nos deu. Ou os girassóis.

E é aí que paro.

Sempre admirei, e de certa forma invejei, aqueles que conseguem, através da arte, transmitir o que sentem do mundo – seja a música, a pintura, a escrita, …

Não tenho talentos, nem consigo, frequentemente, dizer de forma clara o que sinto. Daí não poder deixar de admirar quem detém a arte nas suas mãos.

Pensar que a alguém com um talento daqueles, não lhe passa sequer pela cabeça que é por ali o seu caminho, faz-me pensar. Quantas pessoas deixarão cair os seus talentos, os seus amores, a sua felicidade, por acharem que não é ali que devem estar?

Quantas vezes teremos tido a oportunidade de um caminho mais pleno, quantas vezes estivemos já no sítio certo, no momento certo, e não percebemos que era ali? Ninguém nos disse, ou não acreditámos.

E, por vezes, ficamos na vida, à espera da tal circunstância, do talento adequado, do amor verdadeiro. A vida segue, sem percebermos que a nossa arte pessoal está ali, em nós mesmos, com medos, mas sem desalento. Em acreditarmos e arriscarmos.

Em pintar o nosso quadro, em cantar a nossa música, em sermos nós.

Perceber que não é preciso ser um grande artista, para descrever algo tão simples como o amor que despertaste em mim, ou que continuo à tua espera, numa mesa de café, como a de Van Gogh.

Nem, Nem

Aqui há uns tempos tive um amigo, digamos, especial.

Não chegava a ser uma relação íntima, mas também não deixava de ser.

Digamos que era uma relação assim... "nem, nem"

Os tempos corriam bem, eu achava que o "nem, nem" era apenas uma fase nossa.

Até que comecei a sentir "o" frenesim. 

O bom do meu amigo, era sempre delicado, respondia sem falhar às minhas mensagens, aos meus mails, aos meus telefonemas. Sempre paciente com as minhas impaciências, com os meus humores por vezes instáveis.

Aguentava os sarcasmos com a mesma bonomia que recebia os meus elogios sinceros.

Nem se chateava com uns, nem respondia aos outros. Nem, nem.

Um dia numa volta e revolta de troca de mensagens, resolvi mudar a regra do jogo.

Telefonei: "Olha, por mim chega. Não tens de responder sempre, se não te apetece. A sério. Não tens de aturar todas as minhas coisas. Eu não o faço por ti". E a resposta lá veio - politicamente correcta. Não dizia que sim, nem dizia que não.

E fui percebendo que aquilo não era simpatia, ou táctica de conquista. Era apenas nem, nem...

O tempo foi passando, tentei agitar as águas várias vezes, até que um dia lá se levantou um pouco o véu da indefinição.

"O que esperas de mim?" foi o grito que me foi atirado. "Nada de especial. Apenas que sejas sincero, que andes a meu lado, sejas o meu apoio, o meu motor de avanço, o meu travão nos excessos. E eu serei o mesmo para ti. Amantes, amigos, inspiração e conspiração".

A resposta foi, finalmente, sincera: "Isso é bonito, mas muito difícil. Mesmo impossível. Pedes demais". E naquele dia terminou-se o nem, nem.

Desde então, fujo a sete pés de reencontros nem, nem.

Hoje sentei-me na praia, e não sei se foi do vento, se da água fria, juntei no meu pensamento o hoje e o ontem com nem nem.

Fiquei abismada! Não é que fui cair de novo numa situação nem nem?! E que o papel nem nem, agora, parece também ser meu!??

Desconcertada, vim para casa e pus o assunto de lado por umas horas.

Jantei, arrumei a cozinha, e sentei-me frente a um livro. Não li nada.

Respirei fundo, levantei-me e fui beber um pouco de coragem à cozinha, para obnubilar pensamentos.

E foi então que aconteceu: "olha, pela minha parte, acabou-se o nem, nem. É sim, quando sim, e não, quando não.

E se não responder, não é amuo. Apenas nada tenho a dizer."

E pronto.

Pisquei o olho ao espelho e satisfeita fui dormir. 

 

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