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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Puzzle

Numa espécie de tradição, ou rotina, de férias, surge a resolução de um puzzle.

Peça a peça, a imagem vai sendo construída.

Normalmente, em cada peça / troço de construção iria aliado um sonho, ou uma encenação imaginada para um evento sonhado.

Este ano, os sonhos evadiram-se de mim e, talvez por influência da magna carta em construção, foram substituídos por uma teia de pensamentos realistas quanto ao futuro.

Seria a necessidade de tomar decisões a enraizar os pés em terra firme?

Peça puxa peça, e ligação a ligação foi-se delineando o o mapa e a sua moldura. Daí a passar à construção de um plano futuro, foi uma peça de puzzle encaixada.

Mesa de trabalho de um lado; pc do outro, e eis-me lançada na construção de um plano imenso, desenhado à laia de apresentação pública esquematizada em powerpoint, com cada diapositivo a definir uma área da vida a ser remexida.

Esquemas e fluxogramas a indicar caminhos, possibilidades, alternativas, desistências.

Tudo numa construção ébria de quem se sabe com mais passado que futuro, a centrar objectivos num ponto: Eu.

De repente, surge a tontura.

Não a tonteria de saber que não se muda toda uma vida aos 50, a consciência não chegou a tanto.

Mas uma tontura de ansiedade. A certeza, baseada na experiência de, sempre que planeio algo, a vida se encarrega de tombar-me os planos. Acontecimentos para lá do meu controlo a dizer "não não vais por aí, como pensaste".

Então que dizer de um plano multi-nível, a mexer em quase todas as áreas do meu ser? em quase todas as minhas fibras emocionalmente racionais?

Entre o nervoso e desafiante, comecei a sorrir "Vá vida, mostra lá o que consegues derrubar daqui. Por onde me vais tentar tombar?"

E, reconhecedora da minha própria finitude, pensei que tudo poderia ser arrasado em simultâneo.

Tremi.

Voltei ao puzzle. "Pelo menos que o mapa fique pronto e as peças retornem à caixa antes de mim"

Nunca se sabe o que a vida nos traz, a atrapalhar os puzzles da existência.

Nevoeiro

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Hoje senti a praia como uma extensão da fase que atravesso.

Um nevoeiro imenso cobria o mar e parte do areal, deixando imprecisões quanto à paisagem circundante.

Larguei as coisas na areia e aproximei-me do mar.

Uma imensa extensão defronte de mim, que ao imediatamente perto se revelava límpido, mas que ao longe era um mistério total. Mar e céu, um único só cinzento.

Senti-o como se da vida se tratasse. O mar na frente convidativo, com uma temperatura agradável, mas sem capacidade de ler os sinais das vagas que se aproximavam. Quando as percebia, já não era tempo de recuar. Não reconhecia riscos. Não havia certezas do que se seguia. Do que estava ou do que podia resultar.

Assim, deixo-me ficar com a água a molhar-me as pernas.

À volta ouço vozes, mas a neblina esconde a sua origem. Sabemos que o outro está lá, mas não o reconhecemos. Não o vemos. Não sabemos quem é, quem vem, quem se afasta. Nem sabemos se lá estão efectivamente, ou se fazem parte dos nossos fantasmas. Se vêm por nós ou contra nós.

O senso comum diz que mergulhar está fora de questão. 

Os sentidos alertam-me para a tolice que seria fazê-lo num mar em que não adivinho o que vem, em que não sei o tamanho das vagas.

Mas o calor do mar e a vontade de quebrar barreiras fazem hesitar.

"Se algo correr mal, há possibilidades de não te verem" insiste o racional. 

Num movimento interior atípico, sinto o riso do desafio a crescer. A vontade de desobedecer. Quase infantil.

"Seja como a vida. Um mar de risco, mas não vás longe demais" é a minha resposta interna.

Olho o mar, a tentar perceber o seu movimento. Continua imperscrutável. Como o futuro.

Sinto a ansiedade a crescer no peito, viro costas ao mar e recuo para a areia.

Ganho folego, mudo de direcção e volto a avançar. 

Contrario as indicações, o racional, o medo e mergulho no desconhecido.

Ao regressar à tona de água reconheço o prazer da água levemente fria no corpo, o sal na pele e no gosto.

Sorrio e penso o quanto soube bem. O quanto valeu a pena. 

À medida que volto para a areia, ainda com os pés dentro de água, tenho um último pensamento.

"Estou pronta. Agora só falta encontrar um novo mar onde mergulhar."

chamuscos

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A vida vai-nos pondo à prova, deixando-nos marcas no corpo.

São balas disparadas à queima-roupa, lumes que nos tocam à flor da pele.

Resistimos, debatemo-nos, esfolamo-nos a dar o máximo, a aguentar o que a vida traz.

Um dia apercebemo-nos que foi demais e que os nossos sentimentos ao invés de clarearem num cristal, enegrecem-se carbonizados, sem esperança de voltar a florescer. 

Rodeia-nos a vida, e até participamos dela.

Mas por dentro fica um vazio; a falta de sangue nas veias; a ausência de um todo que nos alimente a esperança.

E esperamos, sem coragem para decisões. Esperamos uma nova primavera.

Marés

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Apanhou-me desatenta, algures entre o ser e o estar, sem expectativas, sem guardas de proteccção.

Num movimento contínuo, estudado, ocupou todo o meu espaço, espraiando-se por entre as sombras da minha imaginação.

Como se de um mar se tratasse, vinha por marés;

ora ruidoso e violento, ora suave e silencioso, foi tornando sua a minha existência, enquanto impregnava a minha pele de cheiros, ventos, sensações, tumultuosas emoções.

A tudo nos entregámos, sem poesia nem pudor. 

Completos, inconscientes, cúmplices, amantes nas maresias.

Até nos estendermos pela praia; fartos, satisfeitos, diluídos um no outro.

Almas siamesas, separadas e reencontradas.

Promessas

Detesto que me peçam promessas.

Criam em mim uma ansiedade, principalmente quando não as cobram. Porque me deixa uma sensação de estar em falta e nem poder fazer a tradicional birra ("estás sempre a falar nisso, por isso não faço").

Mas depois de muito lutar contra algumas promessas, a consciência, esse maldito grilo falante, diz que está na hora e lá me contrario e cumpro o prometido.

Estranhamente, a seguir, em vez de me sentir esfusiante, por ter mostrado a minha "raça", força, integridade, seja lá o qque quiserem chamar, tudo o que sinto é uma espécie de náusea. Como se fosse uma forma do corpo se revoltar contra aquilo que não sou ou não quero.

A cadeira

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Uma cadeira, presa a uma árvore.

Um espaço vazio, guardado por uma árvore (ou será que é a árvore a guardada?).

Inquietações são despertas, numa tentativa de ocupar o espaço vazio deixado no assento de palha, numa tentativa de ocupar outros vazios também.

Onde estará o seu dono? Será que descansa noutro ponto, abandonando à sua sorte a cadeira prisioneira, despida da sua função, exposta, criando a ilusão de não conseguir cumprir o seu destino.

Mas a cadeira está lá. E funciona também como convite a quem passa.

A hesitação de ocupar o espaço de outro, à sombra.

A tentação de encostar a cabeça à árvore e sonhar sonhos alheios.

A cadeira como simbólico de alguma vida, deixada por alguém/deus que a deixa ali com uma intenção desconhecida, em que a cadeira abandonada não percebe que ainda tem a sua função intacta;

quem se senta, não entende que é apenas um utente temporário e não é dono de nada;

quem não se senta, declina a oferta evidente e recusa participar no jogo.

Ou de quem, como eu, observa e se limita a imaginar histórias / vivências, evitando o papel activo na dança da cadeira.

Resposta

Perguntaste-me esta noite quando é que eu o ia dizer. Disseste-me claramente "a mulher que escreve tudo o que lhe passa pela cabeça; quando o vais dizer?" 

Respondo-te agora: nunca.

E não me venhas com a história de que ainda há tempo, que ainda é possível. Não é. 

Não na minha realidade. Portanto, agradeço que não insistas.

Porque há coisas que não dependem só de nós. Que vão magoar outros. Ou que simplesmente já não podem ser. 

E não há nenhum sinal que me envies, seja por voz, seja por sinais de fumo, que me convença do contrário.

E ficamos assim.

Ausências

Quase 2h da manhã.

O corpo cansado pede repouso, mas a cabeça hesita em descansar.

Medo de dormir, de sonhar com os mesmos sonhos recorrentes, os personagens de sempre.

A estranha sensação de desperdiçar tempo ao dormir, mas a razão e o cansaço a desbravar terreno para o sono.

Apetece-me escrever, mas não encontro tema para além da própria ausência de temática.

E no entanto, dentro das palavras soltas, todo um universo de possibilidades se apresenta. Palavras como Tempo. Razão. Ausência.

Mas nada surge. Aliás, surgem memórias soltas, pequenas partes de episódios guardados na mente que eu, apaixonada das memórias, ironicamente não consigo entender a razão da sua evocação. Um espécie de autoironia, que recorda o pouco que se sabe.

Depois a voz interior que agita uma bandeira de alarme, a lembrar que devo estar atenta. Que estes textos se vão tornando cada vez mais pessoais, mais explícitos, desnudando o meu eu. Abrindo brechas no meu muro do resguardo.

Será uma forma de complementar as ausências, tornando-me una com as frestas do muro?.

Hesito em publicar mais esta nota, mas deixá-la perdida no fundo de uma qualquer gaveta só a vai tornar mais vívida dentro de mim. A publicaçãode angústias como moeda de troca pela libertação de angústias.

Salva-me o sorriso de saber que também não vão longe. 

opostos

O céu e o chão;

Este e oeste, norte e sul, frio e quente, escuro e claro.

Todos os opostos do mundo que não vivem em separado.

Assim eramos, assim somos ainda.

No riso e na tristeza, na irritação e no riso.

Dois num ser só, nunca a caminho do trio; um dividido em dois, umbilicalmente ligados.

Intensos nas oposições, complementares nas iniciações, integros, integrados, 

inteirados, inteiros.

Assim eramos, assim somos ainda, assim seremos no futuro.

Opostos mas semelhantes, nas teimosias como nas paixões.

Semelhantes mas opostos, nos minutos que antecedem a hora, o êxtase, ou a morte.

Ratos

Estava hoje a trabalhar, abstraída na vida fora do trabalho, quando pelo reflexo no carro vejo um homem a aproximar-se agachado.

Com as mãos postas em jeito de espingarda imaginada olhou-me, sério: "Tem por aí ratos?"

Também séria respondi que não. Na nossa carrinha não existiam ratos.

"Tem a certeza?" reforçou com olhar atento na minha expressão.

"Garantidamente aqui não há ratos".

"OK. Desculpe lá, mas então vou continuar a caçar ratos". E lá foi meio agachado, com a sua espingarda feita de mãos, em busca de ratos da cidade.

Juro.

Juro que naquele momento me apeteceu largar tudo, pegar na minha espingarda imaginária e ir com ele, agachar-me por esta vida fora a caçar ratos disfarçados.

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