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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Sonho

Fechar os olhos e sonhar. 

Ir para um qualquer lugar que me acolha, me recolha, e me dispa de defesas.

Sentir o vento no rosto, no corpo, no pensamento, a arrastar tristezas, inseguranças, ausências. 

Ser de novo pequena, em corpo de mulher, e encontrar abrigo onde já nada parece ser. 

Sentir. Ser. Respirar. Não me limitar a existir.

E no final, abrir os olhos, esticar os braços e acolher a vida num sorriso, que tanto pode ser teu como meu.

Haverá melhor sonho para ter? 

Borboleta

 

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Entrou-me, assim decidida, pela janela, a meio do almoço. 

Ali andou, feliz, por entre as flores que me trazem a primavera para dentro de casa.

Já ontem havia sido a vez de uma abelha. Mas a abelha tal como entrou, saiu.

A borboleta não. Feliz de início, passeando entre as orquídeas e os brincos de princesa, de repente apercebeu-se presa num interior desconhecido. 

A sua aflição, que a faz atirar-se contra os vidros, numa dança desesperada, aflige-me a ponto de desistir do almoço.

Perturba-me a sua fragilidade, a dificuldade de sair de uma situação em que entrou livre e alegremente. 

Peguei num pequeno guardanapo branco e estendi a mão junto dela.

Primeiro assustou-se, esvoaçou mas acabou por pousar na ponta do guardanapo. Deixei-a sentir-se segura e ela respondeu subindo para o meu dedo. 

Quando a senti bem, devolvi-a à sua liberdade. 

Suspirei entre o feliz e o curiosa, enquanto a vi voar para longe. 

Farias tu o mesmo por mim?

Abano a cabeça dos pensamentos tolos e sigo em frente. Afinal de contas, eu de borboleta tenho pouco. 

Mares de silêncio

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Mais uma noite e o sono hesita. 

Lá fora o vento parou, trazendo sossego à rua. 

Cá dentro, o silêncio também se instalou. 

Em contraponto, o burburinho do meu ser não encontra descanso. 

A vela, acesa, feita esperança no encontro comigo mesma, ilumina o caminho de um qualquer deus em que não acredito. Creio apenas no Ser, na sua entrega e na troca. 

Na liberdade e na responsabilidade que acarreta.

Na companhia do outro que me encontra e me acolhe e reflecte no olhar. 

Mas, para já, a ausência do sonho domina. 

E as lágrimas de cansaço que se soltam a cada esforço para dormir, recordam-me os mares internos que hesito em descobrir. 

Talvez seja hora de os navegar e fazer do silêncio tempestade. 

 

Linhas

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Mais um dia, mais um sopro.

Corpos à distância, delineando a paisagem.

Um arrepio de tempo que nos percorre, 

Um sonho que nos arrebata.

O tempo vai marcando a passagem em linhas do meu rosto,

Numa cópia tosca das linhas da minha mão.

O sonho continua presente, por muito que o tempo passe.

Uma esperança, uma ilusão?

Um doce esperar, mas que não se perde na contemplação.

Linhas paralelas, entre o sonho e o que é.

Encontros no infinito, desencontros na finitude dos dias.

Anoitece, o sol perde-se na linha do horizonte.

E eu perco-me nas linhas do que vejo.

Paralelas, perpendiculares?

Infinitas, até ao fim.

 

 

E se...

E se as aves não voassem e apenas pulassem pelo chão?

E se as ondas do mar rebentassem ao contrário, fechando a espuma dentro de si ou lançando peixes pelo ar? 

Todo um mundo ao contrário, sem física ou química que o compreendesse. 

Serias capaz de seguir? 

E se eu não fosse e tudo se resumisse em ti? 

Se nunca tivéssemos sido. Ainda estarias aqui? 

Do futuro nada sobra, apenas o hoje. A não ser... 

E se o futuro fosse ontem e me dessem só mais cinco minutos, o que te diria, o que te daria? 

E se acabarem os ses, e eu seguir caminho? Lembrar-te-ás de mim?

 

 

Cheiro a Alfazema

Existem cheiros que despertam os nossos sentidos, as nossas memórias, e nos aconchegam.

Cheiros que nos recordam momentos: o cheiro a mar e a areia dos risos da infância; o perfume de uma amiga da adolescência, companheira de confidências; o cheiro a cachimbo e café, a alimentar conversas.

Depois os cheiros que aconchegam porque sim: a relva acabada de cortar; o picante doce de especiarias, a canela. 

Por entre todos, o doce cheiro a alfazema. Por vezes, embala-me o sono, acalmando os outros sentidos. 

Um cheiro pronto a despertar histórias. 

O cheiro do meu perfume. 

O cheiro do teu corpo. 

A alfazema dos nossos lençóis. 

 

dia

O céu azul, o verde das árvores em contra-luz, todo um espaço envolvente que me acolhe e me contém.

O dia de hoje, mais um na vida, mas que, como diz a canção "é o primeiro dia do resto da tua vida".

O resto da tua vida...

Algo que se constrói, outro tanto que se destrói.

Um sorriso que se ganha; energia para retomar caminho, mesmo que por vias diferentes.

A noção do tudo que já foi, do que hoje é e sem noção do que virá.

Não consigo fazer planos - normalmente saem furados, por isso vou levando um dia de cada vez.

Cada vez com menos expectativas. Um amigo dizia que as expectativas só serviam para nos sentirmos desapontados. Não concordo totalmente. As expectativas alimentam a esperança. A ausência de expectativas também não é agradável.

Mas passo a passo, o futuro vai surgindo em cada momento presente. 

Mesmo que não o quiséssemos, não existe alternativa. Os dias não param, e os abrigos de hoje ficarão algures no caminho, amanhã.

Tempo

É algo que me falta, o tempo. 

Não o tempo quotidiano! 

O tempo alargado, aquele do "tudo tem o seu tempo" para o muito que não chegou. 

Quando olho em frente, descubro o inexistente, o que não encontrou o meu caminho e que não chegou a ser.

Não era o seu tempo... Não estava destinado...

Justificações vazias de significado, para o que não foi, nem virá a ser. 

Resta-me o tempo das memórias, dos sonhos que teimam em surgir, mesmo quando os reconheço como pura imaginação. 

E assim, vou seguindo, por um tempo que não é meu. 

Algo

Hoje acordamos com um belo dia de sol.

Mas, curiosamente, acordei com um tremendo peso no peito.

Uma angústia indescritível, provavelmente fruto dos sonhos com os ausentes.

Normalmente são dias em que a angústia se dilui na chavena de café matinal. Mas hoje não.

Parece que, há medida que as horas passam, a angústia aumenta, e que a tormenta vai rebentar.

Um céu mais negro do que o dos últimos dias.

Dou comigo a pensar que se estivesses aqui, farias o sorriso que tão bem conhecia e me acalmavas como quando eramos pequenas e olhavas por mim, tua irmã mais nova.

Escrever acalma-me um pouco os nervos, mas não me parece que seja por muito tempo.

Algo está suspenso, e não é só a quarentena.

Fico em espera. Atenta.

Serás tu a tentar dizer-me algo?

Memórias.

A memória é algo que me fascina. 

A capacidade humana para guardar um manancial tremendo de informação ao longo da vida. 

Por vezes, coisas aparentemente dispensáveis, a não ser que nos disponhamos a ir a um qualquer concurso de televisão. 

 E pessoas? Já repararam na quantidade de desconhecidos que guardamos na nossa memória?

Pessoas que num dado dia se cruzaram connosco e nos sorriram, sem terem ideia que nos estavam a lançar uma bóia de salvação. 

Pessoas a quem nunca conheceremos. Que não podemos chamar pelo nome. 

Outras conhecemos o nome, mas nunca vimos; trocámos palavras (e por vezes silêncios) ao telefone, passando a viver um pouco dentro de nós.

E depois há aquele grupo extra-secreto, de quem não sabemos o nome, o aspecto ou o que quer que seja, mas que de alguma forma se comunica connosco, deixando todo um universo de possibilidades à nossa imaginação.

Pessoas com quem trocamos mensagens ou mails, mas que adicionaram um "qualquer coisa" que nos toca e alimenta a conversa e a emoção de um novo conhecimento. 

Tudo isso na nossa memória, pronto a agitar os nossos sonhos e as nossas insónias, e a preencher pequenos/grandes momentos dos nossos dias.

Ainda bem que lá estão. 

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