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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

espaço vazio

Os vidros molhados mostram-me o tempo que faz lá fora.

Tenho saudades do cheiro a terra molhada, mas o submundo que habito não me traz cheiros ou aromas.

A luz que entra pela janela devolve reflexos de parede branca. A decoração é miníma, tal como a mobília, trazendo pouco de mim ou de quem quer que aqui tenha estado antes.

As gotas contra a janela traduzem-se num bater de relógio inventado, como inventadas são, agora, as palavras.

Talvez amanhã o mundo me recupere.

Para já, é apenas o espaço vazio que me acolhe, enquanto, sentado num canto, tu observas e tomas notas.

Vamos ficar todos bem?

(Sinto que devo começar este post com um aviso à navegação: atenção que daqui para baixo vem amargura, irritação e pouca bonomia. Se não estão para isso, engatem já a marcha à ré.) 

Esta manhã não me apetecia sair da cama. 

Tinha trabalho marcado, compromissos assumidos, mas a ideia de passar (mais) um dia fechada no escritório da casa pareceu-me dolorosa. 

Estou de volta ao teletrabalho há uma semana e a falta do contacto humano directo começa a pesar. Até porque já falta há quase um ano. Dos meus amigos, desde Março do ano passado, estive com... duas pessoas. Uma delas, porque trabalhamos no mesmo local, vemo-nos duas vezes por semana e as palavras trocadas são muito breves, pois o trabalho e as condições não dão para mais. A outra vi-a em Agosto. De resto alguns contactos por telefone, outros nem isso, desde há uns meses. É que o contacto com recurso a tecnologia só encurta distâncias quando esporádico ou quando sabemos que é limitado no tempo.

E nem me venham com a conversa das redes sociais para ultrapassar distâncias - se já as achava cheias de tontice e boas apenas como ferramenta (limitada) de trabalho, agora vejo-a como um local de toxicidade elevada! É incrível o que por ali anda! Pelo que voltou a ser deixada de lado.

Mas porquê hoje a menor vontade de sair da cama, se já andamos nisto há quase um ano?

Porque hoje sonhei com um amigo que já cá não anda (o que terias sofrido com estes tempos!!), um sonho tão intenso que acordei de madrugada a falar "obrigada pela tua visita. Tinha muitas saudades tuas. Mas agora preciso de dormir, que daqui a uma hora tenho que me levantar".

De manhã, num intervalo do trabalho recostei-me na cadeira a pensar o que mais me marcou naquele sonho. E percebi claramente. Aquele amigo era dotado de uma paixão fora do comum. Quando se entusiasmava com algo era incrível de se ver, a energia aplicada, o humor, a força. Enfim, a Paixão. Com P grande. 

Tínhamos o mesmo tipo de ritmos: éramos capazes de estar à uma da manhã a trocar mensagens, emails ou mesmo telefonemas a discutir ideias. 

É isso que sinto que esta maldita pandemia me roubou. A minha capacidade de Paixão. 

Ainda houve uma altura, no ano passado, aí entre Maio e Setembro, que a recuperei. Em que acreditei que iria conseguir pôr os meus projectos em marcha. Retomar algumas das actividades que ficaram a meio.

Agora, parece-me que tudo ficará como está. O tempo passa, e as dificuldades que vamos atravessar, enquanto comunidade, levarão tempo a sarar. Pelo que os projectos irão ficar mais um tempo na gaveta. Se de lá saírem alguma vez.

Isso de ser só um ano, que depois tudo volta ao normal, que vamos ficar todos bem... Poupem-me! Um ano nunca é "só um ano", é tempo precioso - tenha-se a idade que se tiver.

E quanto ao vamos ficar todos bem... Talvez seja melhor ficar por aqui, mesmo.

 

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(foto enviada por TQ publicada com autorização da autora. Sempre me sinto menos sozinha na irritação)

 

Recorda

Quando eu partir, recorda-me tal e qual eu sou.

Não pintes de rosa as tuas recordações! 

Revê os meus defeitos com o mesmo espírito meticuloso que a carpideira usa para carpir minhas qualidades.

Lembra na mesma medida o sorriso e o choro, o carinho e a ausência dele. 

Recorda o brilho dos meus olhos, os meus cabelos sedosos e a minha gargalhada, que tanto podia alegrar quanto ferir. 

Encontra o meu cheiro nas flores, assim como nos cardos ou nas ervas daninhas. 

Lembra-me por quem realmente sou, não por quem desejaste, um dia, que eu fosse. 

Só assim será justo.

Só assim, finalmente, encontrarei a paz que tanto me prometeram. 

É o que te peço, antes de ir. A leveza de um não ser. 

 

Domingo à tarde

Domingo é dia de preparar o trabalho da semana, já se sabe.
Nas últimas semanas os domingos também têm sido dias de dar a volta a coisas do passado, próximo ou distante, seja na forma de papéis, assuntos pendentes ou pessoas.
 
Sabem aqueles momentos em que nos perturbamos porque A nos deu uma resposta desagradável, em que B não nos respondeu ou respondeu com um monossilabo, em que C e D nem parecem dar por nós? Pois... É algo que se mantém connosco até ao dia em que nos sentamos e analisamos até que ponto é válido estarmos tão preocupados com A, B, C ou D.
É aí que começamos a deixar cair. Uns com estrondo, outros com alívio; vários com pena; Outros ficam em stand-by até à proxima arrumação.
 
Nesta "redecoração de interiores" que resolvi fazer, deixei entrar a música de forma um pouco aleatória. Ouvia aquilo que primeiramente me chegava à mão. 
 
Até que cheguei aonde não esperava: ao "Dá" de Márcia. Curiosamente a acompanhar a descoberta do que já não dá.
 
E apercebo-me do quanto a última música toca as notas da minha alma de uma forma antiga. A minha pele relembra aquilo que não está (será que esteve?), e impele-me a parar funções.
 
Incrível! Nem a pandemia apaga os sentires e memórias que isto me traz. Com recordações de "borboletas na barriga" e dor na alma.
Coisas que chegam e ficam, resistentes à tolice, ao medo, ao tempo e a tanto mais...
Afinal, a vida é muito mais que apenas esta pandemia com que nos vão apagando os dias, afastando de outros - por medo, intolerância ou indiferença.
Mas, que querem?, continuo a ser uma (quase) romântica que se deixa levar nos braços de uma canção, de uma ideia, de um princípio.
E é assim que me perco em mim.
 
 
 
"Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada"
 

 

 
 

Frio

Lá fora o termómetro marca 7º,  a esta hora da manhã. Não é mau se pensarmos que às 7h30 estavam 2º...

Sento-me defronte do computador, mas sinto-me incapaz de trabalhar. Aqueço as mãos à vez na chávena de chá a ferver, mas que rapidamente arrefece. 

A casa já levou adaptações para sentirmos menos o frio ou o calor, mas parece que, com tantos dias de temperatura baixa, a casa já não aquece o suficiente.

No entanto, dou-me por contente. Esta manhã estou a trabalhar em casa, só vou para o local de trabalho à tarde. É que se a casa está fria, o local de trabalho é terrível. Ontem, a minha colega e eu, últimas sobreviventes às perdas de postos de trabalho, acabámos a tarde com o ar condicionado a chegar aos 29º e continuávamos geladas. Mas aquele espaço é assim mesmo. Já aconteceu chegar lá num dia de calor intenso e sentir vontade de vestir um casaco...

Enfim...

Na verdade, estou aqui a "serrar presunto". Não tinha nada para dizer, mas resolvi escrever. É que ao fazê-lo uso as duas mãos e os dedos desentorpecem e as mãos aquecem um pouco. Quem diz a verdade...

Pode ser que a cabeça também deixe de estar neste limbo lento que o frio lhe traz.

Quanto ao coração, já nem sei se o tenho...

 

Isto é que está a ser um começo de ano!

Nuvens

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Segunda semana de férias. Como resultado, sinto o meu ser mais apaziguado. 

Numa pausa dos afazeres diários, estendo-me no sofá, de frente para a janela. Desta perspectiva pouco mais vejo, além da copa despida das árvores e do céu.

Se as árvores, despidas de folhas, me evocam o frio da realidade dos dias, o céu pontuado por nuvens traz algum calor.

Parecem algodão, espalhado com mais ou menos primor. Umas mais esfarrapadas, outras mais compostas, vogando lentas pelo meu horizonte. Ilusoriamente parecem ao alcance da mão.

Lembram-me sonhos. Lentos, passam por nós, quase alcançáveis, mas que se desmancham, esfarrapam ou seguem o seu caminho independente das nossas vontades. 

Deixo-me por elas embalar, a compensar uma noite muito mal dormida, de sonhos difíceis. 

Quem sabe, talvez uma delas sirva de transporte e desembarque num outro lado, onde dois braços me esperam, a aportar as minhas inquietações.

Muros

Vivo de sonhos,

Alimentada a irrealidades que me rodeiam

feitas muros contra o quotidiano,

que me dói.

Mas os muros com o tempo criam brechas,

e em vez do sol a trespassá-los,

passa um vento miúdinho,

frio,

persistente,

moente,

a desencantar.

A acordar.

Natal 2020

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Chego à conclusão que este ano pretende ser antipático mesmo até ao fim.

Pessoas que não poderei abraçar, por estarem longe e não poderem vir cá; pessoas que estando perto não poderão partilhar os belos momentos da nossa tradicional véspera de Natal.

No entanto, resolvi que vou dar luta a este ano até ao fim.

Assim, amanhã a manhã será passada na cozinha; hoje recolhi os pedidos dos doces de eleição para à tarde ir entregar onde me for possível chegar.

E fica combinado: seja em Janeiro, Fevereiro, primavera ou verão, faremos de novo as azevias, os sonhos de abóbora, as fatias douradas, refrescaremos o espumante e festejaremos de novo o Natal de 2020.

Com tudo o que temos direito - abraços, gargalhadas e jogos de tabuleiro.

 

A todos os que me acompanham aqui e que me deram o prazer de conhecer os seus textos ao longo deste no louco, votos de um muito bom Natal!

Abraço

Manuela A.

Viver

"Todos elogiam o sonho, que é o compensar da vida. Mas é o contrário, Doutor. 

A gente precisa do viver para descansar dos sonhos."

Mia Couto in "Venenos de Deus, Remédios do Diabo"

A frase foi-me oferecida assim, sem comentário, nem esclarecimento.

Estaquei a turbulência dos meus pensamentos esvoaçantes, e, enquanto os versos das Águas de Março acompanhavam as nossas chuvas de Dezembro, apercebi-me que nada me poderia ter feito mais sentido nestes dias que têm corrido.

Estou cansada de sonhar. 

Sob a minha capa de racionalidade, o sonho é permanente.

Cansativamente presente.

Reflectindo-se na luta de cada dia para que passe a ser realidade.

Mas, creio, agora é tempo de viver; de dar descanso ao sonho, enfrentar a sucessão dia / noite e encontrar nos pequenos movimentos que me rodeiam a beleza e a poesia da vida ausente, embora sonhada.

Um dia de cada vez, despedindo-me dos sonhos já não atempados, nem esperados, e viver entre o ser e o estar de cada dia.

 

 

Cozimentos

Final de dia, mais um dia de cansaço.

Fui para a cozinha preparar o jantar, liguei a música, como de costume, mas numa repentina mudança de ideias, deixei ficar tudo calado.

Apenas o som próprio dos movimentos da cozinha. O tilintar dos pratos, o som seco da colher de madeira na panela.

Os pensamentos a deixarem-se levar pelos movimentos quotidianos, desligando das preocupações do dia, aligeirando o cansaço.

Uma espécie de ritual, que me fez crescer o sossego. Ou seria crescer no sossego?

Os movimentos foram-se aligeirando, lentificando, a fazer render o momento, a aproveitar o silêncio.

A preparar a noite.

A cozinhar um bom descanso.

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