Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Doçuras, travessuras, bons humores, irritações. Aqui todo o meu mundo fica guardado. Um pouco do que sou. Ou do que não sou.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Doçuras, travessuras, bons humores, irritações. Aqui todo o meu mundo fica guardado. Um pouco do que sou. Ou do que não sou.

Paladares e aromas

Há dias assim, em que me deleito em tontices, perdida no tempo.

Para ser sincera, adoro vaguear nesses momentos. Esqueço o dia. Ou melhor, esqueço as chatices do dia.

Por exemplo, por vezes olho para as pessoas e penso em animais que lhes associo - existe o pardalito, o periquito (sim, tenho uma queda por aves). Normalmente a escolha do animal não surge do físico da pessoa, mas de pequenos traços que lhes capto e o animal para que me remete. Outra curiosidade é só fazer isto com pessoas a quem estimo.

Mais recentemente, dei comigo entretida num exercício diferente. Foi algo impensado, que me apanhou de surpresa quando pensei que uma amiga era "baunilha".

Logo a seguir veio a lavanda, o cravinho, numa mistura de sabores e aromas.

Diverti-me com este exercício uns bons tempos - nos semáforos, enquanto cozinhava, na hora de dormir...

E foi precisamente numa noite que me chegou a constatação, o choque:

Então e a canela? O sabor doce picante, daquele pedaço de casca rugosa que tanto me agrada?

Sentei-me na cama e percorri toda uma galeria de memórias.

"Não é possível" pensei.

Levantei-me e fui à cozinha, sentei-me à mesa com a caixa da canela na mão.

Abri, cheire, provei, relembrei.

Não, já não há canela aqui dentro.

Desconsolada, deitei-me e preparei-me para sonhar.

Desde então, sob a almofada nocturna, um pedaço de canela guia-me os sonhos.

Quem sabe ainda recupero o tal aroma que me falta. 

No carro

Por vezes chego a casa, estaciono o carro na rua em frente à porta, desligo tudo menos o rádio e deixo-me ficar.

Apenas a olhar.

Vejo as pessoas que vêm e vão; a forma como andam, a sua postura. De vez em quando alguém com um sorriso nos lábios, impresso por um qualquer pensamento.

Observo e penso, imagino, o que as fará rir; o que já as fez chorar.

Interrogo-me sobre o que as moverá. O que as empurra para a frente.

Magico sonhos, esperanças. Amores.

Vejo-me sem me ver. Isto é, imagino-me no outro que não sou.

Até que o rádio se desliga sozinho, saio do carro e retorno à realidade. 

Passagem de nível

Bem sei que é um lugar comum, mas a vida é como um trilho de comboios. 

Não digo que seja a viagem no comboio, mas sim a ferrovia e os seus espaços contíguos. 

Sim, creio que é isso mesmo.

Aquilo que cada um tem, um tempo contado entre a estação inicial e o apeadeiro final, é todo um entrar e sair de carruagens, com mudanças de linha, com variados companheiros de viagem, cafezinho nas estações, cheiro a óleo, a gente, a vida.

Com itinerários feitos a pé. Com tempos de espera, apeados numa qualquer estação a ver passar comboios.

De vez em quando, um momento "passagem de nível". Sabem? como aquelas passagens antigas com o seu aviso "pare, escute e olhe"?

Paramos um pouco: escutamos o coração, os outros, o silêncio. Olhamos a obra. E decidimos o que seguir.

No entanto, às vezes, essas paragens fazem-nos questionar. Quer dizer, não sei se a vocês faz, mas a mim certamente que sim.

Paro e penso em todos aqueles que já partiram e questiono: "o que é que ainda aqui  estou a fazer?"

Não me leiam de forma errada, não é um grito de desistência. Tenho muito em mãos.

Tenho trabalho; amigos; família. 

Amo, desamo e, quando me lembro, volto a amar;

Já mudei tantas vezes o caminho, que um curriculum completo gastaria muito papel;

Rio, choro, sinto, de vez em quando anestesio-me...

Mas não posso deixar de pensar" porque é que continuo aqui? "

 

 

Na ausência de resposta, deixo passar o alarme de proximidade de comboio, e terminado o risco, atravesso para o outro lado da linha, onde tenho outra perspectiva da história.

Até que, sem resposta, regresso à linha do costume e ao trabalho quotidiano.

Pelo menos até à próxima passagem de nível. Até à próxima inquietação. 

Sonhos

Há quem diga que com a idade nos tornamos mais sóbrios, mais ponderados, mais serenos.

Que a juventude é o tempo dos sonhos - e de correr atrás dos mesmos.

Depois é tempo de trabalha-los e, seguidamente, usufruir. Ou esquecer.

Mas quando os sonhos chegam tardiamente (ou regressam) isso quer dizer o quê? Que não crescemos? Que não nos cumprimos? Ou apenas que ainda estamos vivos por dentro?

Pouco sonhadora que sou, inclino-me mais para a ultima possibilidade, curiosamente.

A vida não me deu muito azo a sonhos, na época deles. Suponho que me tenha desabituado de sonhar.

Mas delicio-me com quem me conta sonhos, dos mais ingénuos aos mais ambiciosos, tenha o sonhador a idade que tiver.

Talvez seja uma forma de sonhar também.

É que uma vida sem sonhos é dura, triste, desalentada. Uma espécie de morte antecipada, enterrada em quotidianos sabores.

Talvez nunca seja tarde. 

Talvez um dia aprenda a sonhar sonhos meus também.

Quem sabe um dia me junte a um bando de sonhadores, ou crie um bando de sonhos meus, e saia por aí, a descobrir o mundo através desse sexto sentido que pode ser o sonho. 

Final de dia

IMG_20210519_202312.jpg

Adoro o final de dia.

Aquele momento em que o céu vai perdendo a sua luz, matizado de azuis gradualmente menos claros.

Em dias bons, há em mim uma paz interior nessa hora. Uma espécie de esperança no dia que vem. Ou de esquecimento momentâneo.

É algo que me acompanha desde pequena. Adorava, no verão, ficar na varanda, as mãos na parede a sentir o calor acumulado, o bairro a aquietar-se. E eu com ele. 

Isto enquanto as anda rainhas voavam perto de mim. 

 

Um final de dia, um instante pleno de nada, um espaço aberto para o dia que há de vir. Sem esperanças ou expectativas. 

Um dia de cada vez. 

 

Lua

IMG_20210526_235708.jpg

 

 

 

 

 

 

Lá está ela, de novo sobre os telhados, espreitando vidas alheias, como que a assegurar-se que a vida prossegue o seu rumo. 

Vê-la assim cheia, lembra-me um trecho de um dos meus livros favoritos, "O livro de San Michelle" , em que a lua visita o autor, espreitando pela sua janela, arrancando-o dos seus sonhos.

A mim, que ainda não sonho quando ela me espreita, traz o prazer da companhia, a luz reflectida, emprestada por outrem, encerrando segredos partilhados, confissões mudas e finalmente, alimentando fantasias que me induzem o sono.

Melhor que um qualquer soporífero, embala-me em esquecimentos, trazendo a beleza e serenidade que me falta durante o dia.

 

Distância

Por vezes sinto-me distante de todo o mundo.

A realidade nada me diz, o sonho nada me traz.

Entrego-me ao quotidiano, corpo presente, cabeça ausente.

Insatisfeita com tudo, desiludida com o que fiz.

Deixo-me vogar na vontade dos dias, hora após hora, dia sim, dia sim.

 

Os meus sentires aumentam mais a minha distância; os outros não procuro.

Desculpo-me com a pandemia, o cansaço, a vida.

Este ser que é estar. Que não ama. Que não amo.

Distante do mundo, distante de mim.

 

 

Desvarios

Ah, o prazer de ser, de estar, mas não de ficar.

Correr ao encontro das minhas muralhas, pela fresta espreitar o mundo que não sou.

Sentir o arrepio das oportunidades perdidas, a ansiedades das verdades encobertas e beber mentiras simpáticas como se de licores doces se tratasse.

Fechar os olhos e com esse gesto apagar a alma, o mundo, o tempo e o espaço.

Deixar o passado no caminho trancado.

Fechar os sonhos, desiludindo a promessa de uma nova ilusão.

Partir, de malas vazias, para as encher, no caminho, de memórias de outros que não eu.

Deixar tudo para me encontrar numa qualquer esquina da cidade.

Deixar-me. 

Meio-destino

Hoje acredito que temos sempre um destino em qualquer parte, e que o importante é localizá-lo, ainda que submersos num rio de meios-destinos. E dizer destino é um pouco, antes, é também dizer solução.

(José Bação Leal in Poesias e Cartas)

 

Só na inércia de um sábado à tarde, estendida numa chaise-longue, perdida na penumbra da sala e dos pensamentos vazios, é possível reconhecer uma frase que me complementa os pensamentos.

Quando a vida nos faz de uma teia de escolhas, de respostas - a necessidades umas vezes, a desejos menos frequentemente - a dado passo, dá-se a perda do pé, ou caminho cai de vista.

Como que ficamos parados a pensar no agora, no ontem, porque o futuro parece ter deixado de existir. De ser vislumbrado. De ser desejado.

Nem sempre são momentos de desespero, mas de decrescente esperança. 

 

Tirado da prateleira, as "cartas" de José Bação Leal fizeram-me mergulhar na zanga de um jovem, em plena guerra colonial, adivinhando em cada página o seu destino errado. Bação Leal seguiu para um "meio-destino" pantanoso, rogando pelo seu direito a um outro destino.

 

Fechado o livro sobrou-me a frase, repetindo-se dentro de mim numa espécie de ressonância, ecoada pelas paredes do meu estranhamente ausente pensamento, vibrando-me as entranhas, lembrando-me ainda viva.

 

O importante é localizar o destino, mesmo que submersos em vários meios-destinos. Mas, esse destino-solução, como distingui-lo dos meios-destinos da vida? 

Serei eu apenas um meio-destino?

Sobra a dúvida da utilidade de tais pensamentos.

De um modo ou outro, mesmo que inerte, algum destino me encontrará. Seja como for.

Ou onde for.

A caneta

IMG_20210511_142940.jpg

A caneta, pousada sobre a mesa, chama. 

Brilhante, sedutora, pede que deixe tudo o que faço por um momento de escrita.

Olho-a de soslaio, evito-a, para que não perceba que não posso, nem lhe devo explicações.

Deito a mão ao lápis e escrevo palavras temporárias, fácil de apagar. Despidas de sentidos, de intenções.

Como explicar que não consigo mais que isto?

Que só tenho palavras fugazes, insensíveis, invisíveis.

Que os meus olhos se encontram cansados de tanto se enublarem?

Que algo secou e preciso esperar as chuvas da próxima primavera?

Até lá, as palavras permanecerão indizíveis.

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub