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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Viagens

Existem livros que nos transportam, tranquilamente, para sítios e situações desconhecidos.

Prendem-me de tal maneira que, quando termino um capítulo no comboio, procuro calcular o tempo até ao meu destino, e, se não dá para ler totalmente outro, embrulho-o, carinhosamente, na sua capa, como quem aperta o casaco a um amigo e deixo-o descansar até ao transporte público seguinte - o metro.

Nessas alturas entretenho-me aolhata paisagem, com olhos de fora, a guardar o belo e o feio do caminho. 

Até seguir para o metro.

Quando chego ao cimo da escadaria, lá está a multidão que, como eu, espera.

Já repararam como uma estação de metro, em hora de ponta, pode ser silenciosa? 

Apenas se ouve a cadência regular das escadas e dos tapetes rolantes. Esporadicamente vozes: normalmente alguém ao telefone. Diálogos indicam a presença de jovens estudantes ou turistas.

Olhos no ecrã, olhos no chão, olhos no vazio. 

Já na carruagem o ritmo mantém-se.

Um artista desenha uma obra digital. Duas vozes jovens discutem exercícios de ginásio. O resto é silêncio e solidão. 

Decido manter o livro no saco, em respeito pela nossa solidão, que descubro tão acompanhada, e sigo o resto da viagem alternando entre o olhar no chão, olhar nas paredes do metro e olhar no vazio, procurando esconder o sorriso interior.

Luz

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Apetece-me a luz, a cor.

O Céu vasto e claro por tecto.

Voltar a sorrir, rir, sentir. 

Ter o calor na alma como no corpo.

A leveza de pensamento.

O fim da escuridão.

Reencontrar-me num sorriso honesto.

Deixar de dizer que não.

Vestir o verão por dentro.

cheirar a primavera.

E levantar voo por sobre os grãos dos meus pensamentos,

até aterrar na areia.

Derrotas

Declaro-me perdida. Derrotista. Talvez mesmo, derrotada.

As decisões tardam, por incapacidade, por oscilação entre extremos, sem que o pêndulo da (in)consciência encontre um meio termo entre a razão e a emoção.

Na espera, a tontura, a vertigem da certeza de que, seja qual for o caminho decidido, a perda é irreparável.

E o não decidir também não pode ser decisão.

Quanto aos que, mais ou menos intencionados, mais ou menos intencionais, incitam à decisão dizendo "tens a obrigação de continuar" ou "deves mudar a rota", cheios das certezas nos caminhos alheios, respondo que não percebem.

Não vislumbram que por trás do semblante tranquilo se abre uma brecha dolorosa e me perco numa batalha sem vencedores.

Cansativamente em ebulição. 

Vencedora? Só se for a certeza de que, de uma forma ou de outra, já fui derrotada.

O meio copo cheio sabe a amargo. 

As perdas já ninguém mas tira. 

E os anos, tal como os mortos, não retornam. 

Solidão

Desenganem-se os incautos e os sonhadores, a vida é pura solidão. 

 Vivemos cada dia submersos na nossa pele, frequentemente cobertos por máscaras, mais ou menos coloridas, que disfarçam as escaras que o tempo deixa marcadas no corpo e na alma. 

Nascemos, com alguma sorte, fruto do amor de outrem, que nos concebe e sonha de forma mais ou menos inconsciente. 

É, curiosamente, dessa união de dois que nasce a nossa solidão. 

E arrastamo-la pela vida, intercalando com ilusões de companhia.

Por vezes, algo, ou alguém, oferece-nos tréguas de companheirismo, abafando a noção exacta da nossa solidão. Para que depois continuemos sós. Dizemos que solitário é o caminho de quem se quer uno consigo mesmo. 

No entanto, tememos a solidão com a mesma intensidade com que tememos a morte, sua irmã. Talvez por não sabermos o que fazer com esse animal estranho que habita em nós e que se chama "Eu".

Para fugir ao olhar interior mergulhamos em relações - de amor, amizade ou qualquer outra camaradagem evitável - com uma entrega desesperada, sem, no entanto, nos entregarmos efectivamente aos outros. Ou a nós próprios.

Defendemo-nos assumindo ser condicionados por uma sociedade que na verdade somos nós que condicionamos. Excusando-nos a despir a capa, com medo do outro que vê ou do outro que opina. Ou mais puramente para não nos enfrentarmos despidos de conceitos e nos vermos sem filtros, plenos na nossa solidão.

Até ao dia final, ao temido momento último, que mesmo acompanhado, nos leva ao infinito da nossa solidão. 

Um abraço

Hoje acordei num despertar sem sentido.

Um suposto acordar para hoje, revelou-se um entrar num tempo desencontrado. 

Revi-te onde nunca tínhamos estado e conversámos sobre o que não existiu.

Como se de um mundo paralelo se tratasse, senti a saudade do futuro que já não vem, dos sonhos repetidos, numa espécie de perda de sentidos, de recuperação de sentires e desorientação do espírito.

Com medo de ser um fim de algo, assaltou-me a nostalgia do real, daquele mesmo real que tanto me cansa, e numa pressa de despedida peguei no que estava à mão para enviar um abraço a todos os que não estão. 

Eu

Amo-te todos os dias, menos hoje, porque hoje estou ocupada a amar-me a mim.

Esqueço por 24 horas que é suposto estar cá para outros, e mergulho egoistamente em mim.

Releio as linhas dos meus pensamentos, reforço as cores dos meus sonhos.

Imprimo na memória tudo o que já foi, para construir novos amanheceres.

Suturo as minhas feridas, rehidrato o meu corpo com redobrada atenção.

Entrego-me a mim, preparando o meu regresso a ti, mais tarde.

E talvez um dia, volte a haver um nós.

Única. Nem mais, nem menos

Tu és única. 

Nem mais, nem menos que qualquer outro.

Com todos os teus defeitos e qualidades.

Com o direito inato a errar, a falhar, até a ter as tuas irritações de estimação.

Desde que não te deixes dominar por elas.

São todas essas características que, misturadas, fazem de ti a pessoa única que és.

E é essa unicidade que te torna humana. 

Que te permite caminhar ombro a ombro, com os outros que te rodeiam.

Não à frente, nem atrás. Lado a lado, num passo desigual.

Essa tua colecção de características são fruto do teu passado; é no futuro que elas se vão projectar. Sem certezas, mas com sonhos.

Das experiências de que vais guardando memória, surgiu quem és.

A tua história, que outros podem comentar, mas só tu viveste. Só tu a poderias ter vivido.

Esse é o bem mais valioso que tens: seres tu.

Não te esqueças de te partilhar.

Fantasmas

Detesto dias parados.

Aqueles, em que o ruído quotidiano é insuficiente para calar os pensamentos.

São dias (e noites) em que apetece mergulhar nos vícios privados para apagar memórias, presentes ou sonhos inexistentes.

Ceder o norte ao terceiro copo de gin.

Por vezes, no meio das minhas deambulações pouco quiméricas, recordo os fantasmas com que me cruzo em cada dia.

Fantasmas reais, de carne e osso, que divagam pelas ruas da cidade, vazios. 

Cheios de passado incerto, mas vazios de futuro.

Fantasmas cujas linhas do rosto ignoramos.

Que nos contam histórias em que já não se revêem, nem acreditam.

Fantasmas da vida, vazios de tudo; sem futuro e com um passado semi-inventado.

Por vezes, ao ouvi-los, a ansiedade toma-me de assalto. Imagino-me entre eles, numa irmandade incorpórea. Mãos vazias, bolsos vazios, esquecida dum futuro ausente. Fantasma.

Até que me acalmo com a resignada compreensão de que parte de mim já lá está. 

Sou fantasma de uma vida sonhada, de futuro incerto. Sem garantias. Sem nada. Apenas com um passado para contar.

E ruas para palmear. 

Procuro

Procura-se alguém que me conte uma história feliz.

Não de contos de fadas. Uma bem real.

Os dias estão cheios de histórias tristes, feias. Por vezes verdadeiramente horrendas.

E eu hoje preciso de uma história feliz. 

Nem preciso de ser protagonista. Basta que exista por aí alguma, com gente de carne e osso a vivê-la.

Que me faça esquecer realidades presentes.

Cegueiras

Dizem que o pior cego é o que não quer ver, ou que o pior surdo é o que não quer ouvir.

Ou seja, somos nós.

Tantas foram as ocasiões em que foi mais fácil ignorar, o que estava bem visível. 

Não me parece que o tenhamos feito por facilitismo. N

quando o custo é esta insatisfação, esta dor interna, intensa. Acredito que foi o medo do que vem a seguir. De assumir em pleno o que somos. Ou não somos.

E fomos de cegueira, em cegueira, a desperdiçar momentos, até nos apercebermos que o tal, o especial, aquele momento que tanto desejámos, já passou.

E ficamos então cegos de lágrimas a criar desculpas para o que não se viveu.

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