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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Despeço-me

Despeço-me de ti com a noção clara que sou eu quem te afasta.

Afasto-te por saber que nada mais está ali para nós.

Que não há nós.

Despeço-me de ti com o coração apertado.

Por temer que o teu pequeno canto que me pertencia, facilmente possa vir a ser de novo preenchido.

E por saber que eu não consigo encontrar nada nem ninguém que ocupe o teu espaço dentro de mim.

Mas sinto que, mesmo que penses que não, tudo isto nos faz mais mal que bem.

Assim, despeço-me de ti sem verdadeiramente acreditar que o devo fazer.

Sem verdadeiramente o querer fazer.

Chorando por dentro e por fora.

Quebrando-me por dentro.

Mas neste momento, não vejo outra possibilidade.

 

 

quando eu era nova

cravo.jpg

Quando eu era miúda, o mundo era cheio de promessas.

A revolução quase tão jovem quanto eu carregava sobre os seus ombros o peso da esperança.

Quando eu era miúda, um homem de costas marcadas disse-me que não tivesse medo, pois os homens que o marcaram não marcariam mais ninguém.

Quando eu era miúda, a primavera cheirava a flores e o verão a calor.

Os meus sonhos eram do tamanho do mundo e o futuro, que demorava a chegar, não metia medo a ninguém.

Hoje a revolução, de tão adulta, é considerada ultrapassada. Desvalorizada. Como se, na verdade, não saboreássemos os seus frutos em cada dia que passa.

O futuro não nos assusta, porque gastamos o nosso medo com o presente.

Os homens que marcam o corpo de outros homens assumem novos papéis que desvalorizamos. Pelo menos enquanto o nosso corpo estiver intacto.

O cheiro da primavera confunde-se com o cheiro a medo e as flores vão sendo aos poucos arrancadas por homens insanos que nos apertam o coração. E, dentro de nós, vamos cedendo os espaços internos a cravos virtuais e de plástico que, supostamente, simbolizam a revolução.

Quando voltar a ser nova, a primavera voltará a cheirar a cravos, e o verão a sal e sol.

Basta que eu nunca deixe de acreditar.

 

 

 

Sapatinho de cristal

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   De pequenina, imaginava sapatinhos de cristal, brilhos de festa, ensaios de  beijos  em sapos que rapidamente se transformavam em príncipes.

 Viagens pelo mundo, aromas exóticos desconhecidos, paisagens deslumbrantes.

 Um braço sobre os meus ombros a proteger-me nas aventuras.

  De repente o futuro tornou-se presente, e dos sapatinhos de cristal nem sinal.  Veio  a ausência de paciência para os brilhos de festa. Os beijos ensaiados,  viram princípes a transformarem-se em sapos. O mundo percorrido em  páginas  de vida de  outros.

E no entanto...

E no entanto, o futuro-presente transformou-se na viagem mais exótica de todas.

O prazer de uma noite a ouvir outros a contar os seus sonhos-viagens. 

O ensaio de um sorriso num momento de cumplicidade percebido por (muito) poucos.

A mão que me acompanha, por vezes pousada no ombro, outras levando a minha entrelaçada. Acompanhamo-nos mútuamente o passo. Lado a lado. 

Um sapo, que não é princípe, mas que reina no meu pensamento.

Um futuro deslumbrante, que se transforma num presente imaginado.

No meu bairro

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 No meu bairro há um cão, não sei onde ao certo, que passa horas a uivar.

 Uiva de manhã. De tarde. À noite.

 Uiva aflitivamente em tempos recortados de silêncio.

 Quando os dias são escuros, o vento junta-se ao cão e uivam em uníssono um  uivar que parece trazer cheiro de morte.

 Desespera-me.

 Lembra-me de todos aqueles que não quero perder.

Lembra-me de todos aqueles que já perdi.

Lembra-me de ti.

E de tudo o que te não disse.

Palavras que já não me lembro se seriam sinceras ou se são sentimentos inventados para tapar vazios.

Há casas em que, para tapar os buracos nas paredes, penduram quadros, Outros usam argamassa.

Eu invento palavras-sentimentos para tapar os buracos da minha existência e finjo que são para ti.

não dias

Há dias em que me apetece apenas dizer uma série de palavras indizíveis, ou então ficar em determinado silencio.

Tornar-me invisível. Muda. 

Como se isso me quebrasse a sensibilidade.

Apetece-me sair. De mim. Do mundo. Do tempo.

Deixar de ser e quem sabe de estar.

 

Há dias em que me apetece ficar imóvel.

Ficar a olhar de longe o mundo, como se não fizesse parte dele.

Como se isso me mudasse as coordenadas.

Apetece-me ser e não ser.

Deixar de sentir. De ver. De amar.

 

Há dias em que nada muda.

Mas nada me parece igual.

Como se isso alterasse algo em mim.

Não me reconheço no mundo nem no espelho.

E deixa de me apetecer tudo.

 

Há dias em que não sou nem estou.

espirais

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 Entre o ser e o estar, subindo e descendo em espirais constantes e intermináveis.

Por vezes interrogo-me se subo ou se desço. Se quero subir ou descer.

Subir em direcção da luz é trabalhoso. Talvez seja melhor descer à escuridão. Ao silêncio.

E que me garante que na realidade a luz está em cima e não em baixo.

Subo, desço. Desço subindo, e afundo-me mais no silêncio. Subo descendo, e fico ofuscada pela luminosidade.

Vezes há em que desço, em espiral, vertiginosamente, afundando-me num silêncio que quero tranquilizador. 

E quando olho para trás, vejo-te a captar momentos dos meus movimentos. Incapaz de interferir. Deixando-me subir enquanto desço para o sol, ou para a terra. Tanto faz.

Olhando. Fotografando. Captando instantes. "E o que sentes agora?".

Nada. Não sinto nada. Só consigo inspirar e expirar espirais.

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