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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Palavras

Fala comigo.

Diz-me palavras sem sentido, soltas.

Quero deixar-me embalar na melodia da tua voz, qual canoa ao sabor das marés.

Não me apetece pensar.

Procuro apenas sentir o balanço das palavras que trazem a tua voz.

Cheiram a maresia, essas palavras que não ouço.

Trazem o vento sul, quente, e abafado. 

Trazem também a vertigem da ausência do limite.

Preciso perder-me no infinto, para voltar ao quotidiano.

Só então tudo o resto se tornará suportável.

 

Noite

Por vezes, à noite, sinto crescer em mim o medo do escuro.

Como se a noite trouxesse  o cheiro a morte, a tristeza, ao fim.

Nem a luz, que acendo, me ilumina os pensamentos, e procuro fugir.

Mas não há fuga possível, qunado o que nos persegue são os nossos próprios pensamentos.

Não há fuga, quando o que pensamos não se escuda na alegria dos dias.

Não há fuga.

Por vezes, à  noite, procuro num canto da minha mente um pequeno rio de imaginação, que me salve do escuro.

Imagino rios, campos, bosques e cheiros de flores. Ou apenas o luar.

Por vezes, de dia, a noite acolhe-me os pensamentos.

Rotinas

Adoro quando consigo criar uma nova rotina fora das rotinas dos dias cinzentos. Como ver as cores do fim de domingo, a reflectir o azul do mar. Ou a manhã de sábado, de café na mão a olhar os pássaros da minha rua. Ou ao final de um dia da semana, esquecer o metro e percorrer a zona ribeirinha da minha cidade, com cheiro a mar, gente a dançar, ou a exercer o seu direito à arte. São momentos abençoados, oníricos, em que me esqueço de mim e mergulho no momento. Sem rotinas.

Cartas que não vou enviar IV

Cansei-me de esperar por algo que nunca vai acontecer.

Seja um telefonema, seja um sorriso, seja um dar de mãos.

Não espero mais por ti.

E mesmo que espreite o telefone, como acabo de fazer, a ver se tenho novidades tuas, é só para poder dizer que não vou responder.

E se responder, será só para dizer que já não me interessa.

E mesmo que me interesse, não vou fazer perguntas.

E quando eu parar de fazer perguntas, tu vais perceber tudo.

Vais perceber e a mim não me interessa.

Não me interessa que vás perceber na perfeição, que eu estava apenas à espera que ligasses.

Cartas que não vou enviar III

Fazes-me falta todos os dias.

Faz-me falta o teu sorriso. A tua voz. O teu cheiro. O cheiro do teu tabaco. O teu toque.

Fazem-me falta os teus desafios. Os nossos desabafos. As piadas subentendidas. Os silencios.

Faz-me falta sentir a tua presença nos momentos do meu quotidiano. E nos momentos extraordinários.

Fazem-me falta as nossas pequenas querelas, e as palavras trocadas no apaziguar.

A forma como umas vezes cedias tu e outras eu, sem que nenhum o cobrasse.

Faz-me falta o quanto me fazias sentir viva. O brilho dos nossos olhos.

Faz-me falta a coragem para te dizer tudo isto directamente.

Compromisso

Não me comprometo.

Não quero, nem posso. Nem tão pouco o saberia fazer.

Percorro caminhos trocados, sem bussola nem mapa, por isso não posso dar garantias.

Também não sei para onde vou. 

Nem tenho a certeza de querer companhia.

Só sei que há espaço para dois.

Mas que neste momento só segue um.

Escuro

Ás vezes fico assim, sentada na minha cadeira, no escuro do quarto. Olho lá para fora, o céu nublado, a chuva num cai que não cai. Os sons ao longe, a lembrar que existe um mundo fora do quarto. Fecho os olhos,espero que a angústia parta, para poder sair daqui. A chuva cai com mais força, a marcar o compasso ritmado das minhas batidas cardíacas. Fecho os olhos e finjo que me fundo com ela e deixo-me escorrer pelos beirais das memórias. Abro os olhos e leio o escuro. O meu escuro. Inspiro profundamente o cheiro a terra molhada como forma de apaziguar a aridez que me corre nas veias. Espero mais um pouco, a ver se a dormência se instala. E quando verdadeiramente entorpecida, volto para a luz.

Notícias

O coração aperta.

As lágrimas afloram, mas não correm.

Apetece desligar a televisão, o rádio, o computador.

Rasgar os jornais, revistas.

A dor instala-se.

Tentamos racionalizar.

Mas não há racionalização possível.

Apenas uma dor indefenida pelo desperdício de vidas.

E o desejo de que não se repita.

 

 

Teatro

A noite passada fui ao teatro. Uma peça recomendada por um velho amigo há uns meses. Contava-nos uma história de amor ao longo dos tempos. Amores, encontros, desencontros,reencontros. Um texto bom, bem interpretado. E no entanto, um inferno. Ao meu lado, um homem. Levemente parecido contigo. Mas o cheiro... O teu perfume de volta. A noite toda a lembrar outras noites. As sensações olfactivas a despertar outros sentidos, ao ritmo dos encontros e desencontros em palco. No final, mesmo antes do cair do pano, cai a minha ilusão. E percebo que estou velha para continuar a esperar pelo teu amor.

sem título

Dias como os de hoje, em que parece que o coração fica pequeno, pequeno, deixam-me cansada.

Apetece chorar amarguras de anos, acumuladas dentro de mim, ao longo de anos... dias... segundos.

Mas as lágrimas não caem, teimam em escorrer por dentro, mingando o coração a alimentando amarguras.

Se ao menos corressem livremente.

A tranquilidade que não seria libertar tudo isto.

Sentir-lhes o sal a queimar a pele por onde passam.

A pressão a diminuir e a ansiedade a desvanecer-se.

Mas teimam em apenas aflorar, para, timidamente se recolherem.

Tímidas até perante a almofada, que as espera todas as noites.

Como se esperassem alguém que as seque, para se deixarem discorrer por entre as rugas dos meus traços.

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