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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Para quê...

Para quê cada dia, se em cada um deixou de haver surpresa.

Para quê as redes sociais, se já não comunicamos.

Para quê sonhar, se já nada se concretiza.

Para quê lutar, se já sentimos a derrota.

Para quê continuar, se já não dá tempo para tudo.

Para quê acreditar, se não há promessas para nós.

Para quê cada noite, se continuo sem te ter comigo.

Para quê eu, se não existes tu.

Para que sim ou para que não?

Ponto de convergência

Ponto de convergência: ponto onde todas as linhas da nossa vida tendem a desembocar.

Para uns é a carreira; para outros o amor.

Outros, não tão poucos quanto isso, parecem convergir para um beco sem saída.

E quando pensamos que o caminho tem outro fim, descobrimos que a paisagem foi uma ilusão, que a convergência é a mesma.

Reivindicação

Reivindico o direito a contestar, a protestar, a exigir os meus direitos; 

A estar triste, a chorar, a decidir se, e quando te amo;

Reivindico o riso, o trabalho, a fadiga de tanto tentar e pouco resultar;

A amargura e o mel das minhas escolhas, dos caminhos trilhados.

Tudo reivindico, até ao momento de reivindicar o direito a desistir e me resignar.

E aí não mais reivindicarei.

O teu nome

Hesito em dizer o teu nome em voz alta.

Não é pudor, é uma espécie de medo.

Medo de não suportar a saudade. De, ao te nomear, deixar de te ter em mim.

Receio esquecer-te, pois seria perder um pouco de mim.

Quando o teu nome vem à baila, mordo o lábio.

E se acabo por te nomear, parece que me arranco um pedaço, e a voz sai-me sumida. 

Não é pudor, é pura dor. É saudade.

É querer manter dentro de mim o que já não encontro fora de mim.

 

Talvez

Não percebo porquê, mas cá estamos de novo.

No mesmo momento, tantos anos passados.

Recordamos histórias passadas, risos, coisas que não garanto terem realmente acontecido.

Talvez porque nessa altura estava demasiado preocupada em guardar tudo no baú das memórias.

Ou em manter castelos de areia de pé.

De repente, quando pensamos que as recordações são apenas isso, eis que voltamos ao passado.

E pensamos que talvez ainda seja tempo.

Procuro contornar o meu pessimismo natural, e finjo acreditar que é tudo como antes.

Mas, não percebo porquê, sei que isto poderá ser apenas outra miragem, outro sonho irreal.

Como numa daquelas noites em que nada faz sentido.

Mas, como o tempo corre, e o baú foi aberto, vou fingir que o tempo não passou e que ainda acredito que sim.

Que talvez ainda seja possível.

Mas não percebo porque voltaste. Nem o que ainda faço aqui.

Sábado à noite, domingo de manhã

A solidão dos mortos.

Arrastamo-nos ao longo dos dias, de olhos postos no chão ou no ecrã mais próximo.

A alma despida de cor, espera o like da rede social do momento, para ser validada.

Postamos tristezas, alegrias ou jantares, que não existem se não os publicarmos.

Dias perdidos, repetidos num vai-vem de afazeres, que nos mantêm ocupados para não pensarmos.

A solidão dos mortos-vivos, que se afoga na novela/futebol/selfie ou em qualquer outra ilusão de vivermos.

Acreditamos que um dia deixamos de estar e sobreviver, para passarmos a ser e a viver.

A solidão dos mortos-vivos, que nos invade os sonhos e nos faz pensar no desperdício de tempo que é a vida.

O adiar da morte, que tememos quase tanto como a vida, o iludir do tempo, numa selfie ao pequeno almoço, como se estivesse tudo bem.

Ansiedade

O coração acelerado.

As atenções redobradas.

Os instintos apurados. 

À espera do ataque que não se chega a concretizar.

As noites mal dormidas, com o coração descontrolado e o suor a correr pelas costas.

O medo do que não acontece, mas acho que vai acontecer.

Olho por cima do ombro, mas não sei o que procuro.

O que vem aí? Quem vem aí?

E se não vier ninguém? E se nada acontece?

A vertigem da expectativa e o medo do nada.

Porque mais medo do que possa acontecer, tenho de que nada aconteça.

Lágrimas

Empresta-me as tuas lágrimas. Preciso chorar e não consigo.

A dor instala-se na cabeça, a pressão não aliviada das lágrimas que teimam não sair.

Água e sais. A encher os meus espaços, solidificando-se nos espaços livres do meu tempo.

Canso-me. Cansa-me.

A incapacidade de mostrar o que sou e o que sinto.

Não quero o teu ombro para me aconchegar. Apenas umas lágrimas de empréstimo.

Empresta-me um pouco dessa tua segurança que te permite chorar.

Eu já não consigo reagir muito mais.

Quero só sentar-me num canto, e sentir as lágrimas correr, num pranto reparador.

No comboio

Viagens de comboio de fim de dia.

As pessoas metidas consigo, com ar de "nunca mais chega o fim de semana" embora seja sexta-feira.

Umas lêem, a minha vizinha do lado faz o sudoku.

Duas raparigas discutem conversas tidas com outras. 

Como não sou excepção, fujo a interacções e observo a carruagem pelo reflexo do vidro.

Não entendo esta moda dos vidros dos comboios pintados, sem nos deixarem ver as luzes lá fora. No comboio como na vida, sem poder enxergar a luz para lá dos meus curtos limites.

Alguém olha também o reflexo, como eu, e por momentos o nosso olhar cruza-se.

Sem um esgar de reacção refugiamo-nos nos telemoveis. E esperamos que a voz diga "próxima paragem: interacção humana".

Descidas

Sorrio quando ouço que a vida é a subir e a descer.

Não sei se sorrio de não acreditar, se de tanto subir e descer.

Subo escadas, desço rampas.

Subo alegrias, desço a tristezas.

Subo. Desço.

Desço. Subo.

Subitamente descemos por ladeiras, e por vezes essas descidas parecem magníficas.

Voltamos a subir agarrando-nos às raízes, que frequentemente nos fizeram tropeçar e escorregar.

Subimos aos nossos paraísos privados num sorriso, que quando se desfaz, nos desfaz também.

Subidas inesperadas que nos levam aonde nunca imaginámos.

Descidas que parecem partidas pregadas por um deus que não acreditamos existir, porque é impossivel tal sentido de (des)humor.

Subimos e descemos.

Uma vida inteira. Até nos cansarem as pernas, a alma, e as costas de carregarem os pesos das vidas.

E tudo isto mais não é que subirmos o caminho da idade para um dia descermos à terra fria e não mais de lá subirmos.

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