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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Já volto

Vou ali dar uma volta e já venho.

Vou-me esconder num mundo inexistente, porque este já me cansa.

Relatar loucuras que não cometi, porque o tempo e o temperamento não mo permitem.

Fingir que sou outra, em que as minhas sensibilidades sejam expostas mais que sentidas.

Quero deixar de pensar, de sentir, de ser.

Porque neste momento o peso vai sendo demasiado para mim.

 

Assim, vou ali e já volto.

Quando o vento soprar de sul ou norte e me soprar ao ouvido que a tormenta já acabou,

Estarei de volta.

Não a mesma, porque essa que fui, acho que já se eclipsou.

(des)quotidianos

Como é possível vivermos certos dias como se fossem iguais ao anterior?

Como se faz para logo após algo que tanto nos afecta,

que tanto nos altera, se sair e ir às compras,

ou trabalhar, ou brincar com as crianças.

Olho para mim de fora e penso que nada bate certo.

Estranho os meus movimentos,

a minha voz normal, semitranquila,

penso em tudo, embora na verdade não pense em nada.

Pesam-me os olhos, doi-me a cabeça,

mas sigo como se não se passasse nada.

Apenas este aperto no coração que me consome,

e me faz querer não estar aqui.

Solstício de verão

São. 22:45.

Lá fora ainda é dia. 

O frio não parece saber que o verão está a chegar.

Voltei cedo para o quarto de hotel. 

Baixo a persiana negra numa tentativa de enganar os sentidos. 

 

Amanhã volto para casa. 

Para o dia-a-dia. 

Liberto-me da solidão deste quarto estreito que tentei personalizar. 

A tv ligada,  o filme americano, 

as legendas totalmente imperceptíveis para mim. 

 

O regresso garante companhia. 

Calor,  mesmo que chova. 

O regresso aos sons familiares. 

Aos cheiros. 

 

Gosto desta cidade,  junto ao mar. 

Da sua arquitectura, das suas gentes. 

Mas nada me sabe melhor que aquela curva de estrada

Que marca o reencontro com o Tejo, 

Mesmo que a ausência tenha sido breve. 

Uma rosa

IMG_20180616_180911.jpg

No vão da escada, 

No virar de um patamar,

Uma rosa.

 

Numa escada velha,

Mas cheia de luz;

Um patamar silencioso

E deserto,

Como deserto parecia o prédio.

O silêncio marcava o tempo.

Ninguém vibrava com o jogo.

Não havia risos de criança.

Apenas a rosa, 

A surpreender a minha descida.

 

Submersa nos meus pensamentos,

Estaquei ao curvar o patamar.

A rosa, brilhante,

Plena de cor e de vida,

(imagino que de cheiro também).

Singela,

Sem adereços ou companhia.

Parei, por um instante,

E segui caminho.

Sem a rosa.

Deixei-a lá.

Apenas a levo no meu pensamento

enquanto magico histórias que a expliquem.

E guardo o desejo que lá permaneça,

A animar os nossos regressos a casa.

Apenas eu

Não sou de cópias, nem de certezas ou segredos.

Os meus caminhos, trilho-os, um passo de cada vez.

De vez em quando paro no caminho; 

Os distraídos poderão pensar que terminei ali;

Mas estou apenas a guardar as impressões que me cercam,

a ler os ventos,

a saborear os odores,

a ver o quanto de mim é ainda invisível, ou transformável.

Só depois realinho com o meu norte

E retomo a caminhada.

Frequentemente não sei onde os meus passos me levam.

Mas sei que, enquanto me fizer sentido, é aquele caminho que vou trilhar.

Por vezes sozinha, por vezes ombro a ombro.

Mas sei que, nesta estrada, vou construindo quem sou.

Sem cópias, sem certezas, nem segredos.

Em cada passo, procuro vencer os meus medos.

Procuro libertar-me de competições desnecessárias, ou de contendas inúteis.

Na certeza de que eu sou apenas eu.

Em toda a minha comunalidade de ser humana, em toda a minha magnificência de ser única.

Tão unica, como qualquer outra pessoa.

Sem cópias, sem certezas, nem segredos.

Excepto talvez o de ser eu.

Apenas eu.

Sonhos de adolescente

Há muitos, muitos anos costumava tentar adivinhar como seriam os meus dias de adulto.

Trabalharia, chegaria a casa e tu chegarias um pouco depois de mim.

Já nessa altura não abdicava dos pequenos momentos de solitude,

em que me deixaria vaguear por pensamentos sem fim.

Imaginava tudo o que faríamos juntos.

Jantares, temperados com muitas conversas.

Tal como eu, gostarias de ler, de música, de teatro e de cinema.

Quando ouvíssemos uma música que nos agradasse,

dançaríamos, sem pudor.

Mas acima de tudo teríamos o riso, o carinho;

Ter-nos-íamos a nós.

Hoje, quando chego a casa,

Sento-me na varanda e imagino-te de novo,

Pergunto-me se vocês dançam na cozinha,

ao som de uma das minhas músicas favoritas.

Depois, levanto-me, ligo a televisão e vou aquecer o jantar

 

 

 

 

 

Deixa-me

Quando na outra tarde me seguraste a mão,

li nos teus olhos um agradecimento mudo.

Senti-me arrasada.

Agradecias-me algo que não te dei de livre vontade.

A minha desistência.

E nesse momento odiei-te quase tanto quanto a mim.

Não te dei nada.

Não desisti de quem tu queres.

Apenas tentei manter a minha sanidade

e o meu respeito próprio.

E naquele segurar de mão, sinto que mataste um pouco de ambos.

Sobre os meus ombros caiu toda uma sensação 

de vida desistida.

E neste momento não consigo lidar com isso.

Assim, peço-te,

Cuida da tua felicidade, deixa-me em paz comigo mesma.

E não digas mais nada.

Seu Chico (ao Luis)

IMG-20180610-WA0000.jpg

E aí, Seu Chico?

Por 20 anos esperei por ti.

Que digo? Mais de 20 anos!

Nos últimos minutos de espera surgiu em mim (como na sala) um pequeno frémito ansioso pelas tua palavras, tua voz, tua presença poética.

Depois, durante duas horas tangiste as cordas do meu ser ao som do teu violão.

Relembrei as Genis deste mundo.

Homens e mulheres que amaram para lá das exigências quotidianas. Para lá do que pensei ser capaz.

Cantaste meus desamores, meus sonhos, minha esperança.

Tanto mar de emoções. Tanto amar.

Sorri, deixei fugir uma ou duas lágrimas, dancei.

Senti na tua poesia cantada a compreensão de quem sou.

Dediquei em segredo algumas das tuas canções. 

Perdoei-me minhas paixões.

Um mundo (en)cantado em duas horas, entre a fragilidade da tua presença e a força da tua voz.

Minha história, desde menina, no palco do coliseu.

Obrigado. 

E, quem sabe?, até breve.

Não me olhes

Não me olhes de soslaio quando se fala de amor.

Não percebo como podes pensar que não sei o que isso é.

Colaste-te à minha pele.

Tenho na minha memória o teu cheiro.

A tua voz. O teu quase toque.

E a desgraçada de vez em quando apanha-me desprevenida

e traz-me de volta a recordação de ti.

Não me olhes de frente,

com o teu sorriso que me tolda os pensamentos.

Acredito que na verdade sabes o que se passa aqui 

E isso sabe-te bem.

Zango-me comigo mesma, quando cedo

Aos meus próprios pensamentos.

E castigo-me fugindo desse olhar.

Não me olhes assim.

Sei que na verdade nada queres.

Mas tranquiliza-te ter-me por perto.

Satisfaz-te a solidão dos tempos que passam.

Quem sabe?

Talvez um dia só nos olhemos quando olharmos para trás.

Declaração

Ama-me.

Sem pudores, com mútua entrega.

Quero sentir os teus lábios,

O teu toque na minha pele.

Sentir-te.

Quero ouvir a tua voz forte

A seduzir-me ao ouvido.

Sentir a tua respiração no meu pescoço.

Tomar-te como meu

E tornar-me tua.

Quero deixar de lutar contra o meu desejo.

Deixa que deixe de ser sonho.

Quero fundir-me contigo,

Tornarmo-nos um,

Sem que deixemos de ser dois.

Quero receber-te nos meus braços,

Embalar-me no teu fogo,

E iluminar as tuas noites escuras.

Vem.

 

 

 

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