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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Recorda

Lembra-te de mim, quando eu partir,

E mares não navegáveis nos separarem.

Recorda-te do som do meu riso,

Da tonalidade da minha voz

Quando te atendo o telefone.

Não me guardes pelo que faço, mas pelo que sou.

Quem sabe se o tempo não é gentil e nos oferece outra oportunidade, 

Embora desconfie que o tempo passa,

Sem nos dar modo de voltar atrás.

Lembra os sitios por onde andamos, 

As histórias que partilhamos,

Os silêncios que não preenchemos.

Quando eu partir e não houver bússola

Que me devolva a ti,

Simplesmente recorda este meu olhar

Que só entrego a ti.

 

 

Felicidade

Hoje estou feliz.

Não aconteceu nada de relevante,

Nem espero que venha a acontecer.

A data não me é especial.

O tempo está bom; quer dizer, pelo menos está sol.

Não estou apaixonada. 

Não me parece que venha a estar em breve.

Não estou, nem vou de férias,

Mas hoje estou feliz.

Porquê?

Porque estamos no tempo da positividade.

"Seja feliz! Por cada pensamento negativo tenha três positivos e tudo melhora!"

"Não há preocupações. As doenças e as tristezas não são reais, são fabricadas por quem ganha dinheiro com elas"

"O mundo é bom. Os animais são bons. As pessoas...". Espera, nem sempre as pessoas entram no slogan.

Assim, como me aconselham as ondas positivistas, e só porque é verão (mais ou menos) hoje estou feliz.

Não me sinto particularmente feliz, mas enfim,

Há que verbalizar essencialmente o positivo.

 

Manhãs

De manhã, ao levantar,

a esperança de um novo dia.

Bebo o café, arranjo-me,

Alimento o corpo e desfio mentalmente a meada do dia que vem.

Arrumo o quarto, a agenda, os óculos para melhor ver a realidade.

Apago a memória dos sonhos nocturnos.

Quentes, vívidos, multiplamente sonhados.

Escolho o livro para a viagem,

o casaco para a frescura do final de dia,

ponho a mala ao ombro.

Passo pelo espelho retoco o cabelo,

que na verdade fica na mesma.

Pego nas chaves,

na coragem, na vontade.

meto-as todas juntas no bolso das calças.

Volto ao espelho, pisco o olho,

visto um sorriso, ensaio um bom dia

e saio.

Deixando no espelho a imagem 

que pretendo ser,

à espera de algum regresso.

Esquecimento

Não esqueço, não consigo.

E mesmo quando penso que não me está no pensamento, ei-lo que espreita entre duas respirações.

Por vezes, até de noite.

Assola-me, isola-me. Consome-me.

Não me libertar. Não saber o que vai acontecer.

Sentir esta sensação de que nada mais será igual.

E não conseguir acreditar que vai ser melhor.

Que é a evolução normal das coisas.

Que a vida é assim.

Não tem que ser assim.

Não quero que seja assim.

Embora, esquecer, agora, já me parece suficiente.

só para descansar um pouco.

Futuros

(Para P.)

 

Por vezes, sentimo-nos aliviados. Ia dizer felizes mas, na verdade, é mais aliviados.

A vida parece finalmente ter-nos dado tréguas e parecemos encaminhados.

Encontrámos o nosso nicho, a nossa familia (de sangue ou não).

Começamos a acreditar no futuro. E a fazer planos.

Estes momentos são, frequentemente, um tempo de preparação.

Para uma nova prova.

Uma nova dor. De crescimento, diria a minha mãe.

E de repente o caminho aparece cheio de entraves.

Nesses momentos, tendemos a fazer uma retrospectiva de vida.

Para alguns é algo tranquilo e pacificador.

Para outros é um momento terrível, o olhar para trás.

A sensação de nada se ter construído, de não haver ligação ao futuro.

Tudo se desmorona. E decidimos desistir. 

Talvez a vida para nós seja mesmo só isto.Talvez não tenhamos nada a esperar.

Nunca deveríamos ter feito planos.

 

Não.

A vida que nos parece vazia, pode ser transformada em algo.

As dores fizeram de nós quem somos. E o caminho ainda pode ser nosso.

Tudo depende da nossa postura.

Luta ou fuga.

Reestruturo caminho? Adapto o que for necessário? Contorno os obstáculos?

Precisamos nesses momentos pensar o que é preciso: ser mais egoísta? Ser mais empático?

Apoiar-nos mais em alguém? Apoiar mais alguém?

Mas a luta tem preços. 

E por vezes sentimo-nos sem energia para lutar.

E não acreditamos que se consiga dar a volta a mais um desgosto.

E não temos coragem para lutarmos por nós porque os outros continuam a vir primeiro.

Os entraves são tantos. Uns reais, outros imaginários.

E a fuga... A fuga é atractiva, mas acabamos por nem fugir a sério.

Continuamos assim na mesma.

E acreditamos piamente que a vida não é para nós.

 

Mas eu não posso concordar com isso.

Porque a vida é nossa.

Nós somos a vida. 

E o passado serve para percebermos o quanto somos fortes.

O futuro construímos em cada dia que passa.

O presente, esse é que é.

Nesse é que temos de apostar.

E preenchê-lo, pouco a pouco, com aquilo que somos Nós.

Irmãos

Estamos a envelhecer.

Juntamo-nos nos almoços e jantares; numa tarde de sol; num momento qualquer, em suma,

para conversar, rir, partilhar histórias e memórias,

rodeados dos nossos filhos, sobrinhos, filhos dos sobrinhos.

Geração a geração, acabamos por juntar quatro gerações à volta da mesa.

Olhamo-nos com o olhar jovem de quando eramos miúdos,

até que de repente o olho ganha realismo e percebemos:

Estamos a envelhecer.

Aos poucos vamos passando a ser a geração mais velha.

E já nem estamos todos.

As gargalhadas e cumplicidades perduram,

tanto como as piadas intercruzadas.

Mas sentimos o tempo que nos foge a avaliamos aquele que já fugiu.

Olhamo-nos, desta vez com carinho, e percebemos:

Enquanto nos tivermos como irmãos, o tempo é todo nosso

e continuamos jovens.

Memórias de verão

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Passeio familiar de verão.

Verão, mais ou menos.

Que o vento escurece o calor solar.

Os miúdos (grandes e pequenos) riem, (des)conversam.

Molham os pés em passeios à beira-mar.

Apercebo-me que construímos memórias conjuntas.

Lembranças que nos hão-de socorrer em tempos mais invernosos.

E recordo-me de outros verões, mais quentes do que este

Que tanto me arrefece.

A mente divaga, anos para a frente, anos para trás.

Meses para a frente, meses para trás.

Até que volto a hoje.

Ao momento à beira-mar.

Dou a cara ao vento,

Liberto o coração,

deixo o vento empurrar recordações de volta ao seu lugar no passado.

E vou construir minutos de hoje,

Possíveis memórias de amanhã.

 

Verão

SDC13116.JPG

O corpo ainda quente de uma tarde de praia.

Os cabelos húmidos a desafiar o fresco da noite.

Na mente ainda a sensação de vazio do balouçar nas ondas.

A recordação do corpo a boiar; dos olhos fixos no azul do céu;

dos peixes a nadar junto de nós.

E de repente, parece que deixou de ser inverno por dentro.

Como se os problemas se tivessem resolvido, num passe de mágica.

É o verão a instalar-se em nós,

E o coração aquece-se nas memórias boas.

As férias instalam-se dentro de nós.

Mesmo que por pouco tempo.

Tranquilidade

IMG_20180706_203903.jpg

É aqui que reencontro com frequência a minha tranquilidade.

Numa janela, ao fim do dia, a ouvir a brisa nas árvores e os pássaros a terminar o seu dia.

Os sons espalham-se pelo bairro; sons de louça, de vozes, um ou outro riso.

O calor esbate-se, o dia vai dando lugar à noite;

E eu sinto o desassossego ceder à tranquilidade do anoitecer.

Aquieto-me com o silenciar do bairro.

Numa esperança de amanhã ainda sobrar um pouco desta quietude em mim.

O Medo

O Medo,

que se entranha na pele,

e não nos deixa.

Turva-me o pensamento,

aperta-me o estômago,

os músculos sempre tensos,

prontos para o ataque

que pressinto,

mas não sei quando vem.

A cabeça a repetir

"e depois? e depois?"

e não pensa mais nada.

Temo por ti, mais do que por mim.

Mas a tensão de não saber

o que vai ser.

O que pode deixar de ser.

A incapacidade de acreditar na esperança.

O Medo de esperar em vão.

Tão grande como o medo de não acreditar.

 

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