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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Sonho

Gostava de ser poeta, e dedicar-te-ia um poema;

Ser capaz de esgrimir palavras,

cantar sentimentos, contar aventuras,

retirar-te dessa angústia e devolver-te ao tempo.

Também poderia cantar, ou compor,

exprimir emoções que sinto mas não entendo.

Ou ser pintora, algures num misto de impressão e expressão,

brincar a pastel, a óleo ou a aguarela, criar novas paisagens,

onde o tempo se esquecesse.

Nesses espaços reencontrar os amigos,

ganhar as horas em conversa, 

em brindes a vinho tinto,

e planear novos futuros breves.

Mas os talentos fogem-me entre os dedos,

e mais não consigo que juntar umas poucas palavras.

Resta-me apenas a capacidade singela 

de te oferecer o que aqui tenho:

o meu carinho, a minha atenção e a minha amizade.

 

Fazes-me falta

Há dias assim,

em que as emoções transbordam do coração

e os olhos são pequenos demais para conterem as lágrimas,

que teimam em se acumular.

Em que o esforço para me conter,

me tolda a capacidade de raciocínio,

e a ansiedade me incapacita o dia.

São dias dolorosos, que passam devagar,

mas no final, o tempo parece ter sido insuficiente.

Parte dos minutos são torturas de palavras que não vão ser ditas,

de lembranças de diálogos que não aconteceram,

ou da evocação de bons momentos que são, agora, passado.

Nestes dias tudo o que me apetecia era uma boa chuva,

que me levasse as ideias;

uma almofada que acolhesse os meus pensamentos e

recuperasse os meus sonhos;

um abraço regado com um sorriso teu,

e a tua voz a dizer que tudo está bem.

 

Perguntas

Desde há muito tempo que estou habituada às perguntas das crianças.

Talvez porque sempre houve crianças pequenas na família e estávamos por perto uns dos outros.

Mas por vezes, vem uma que me finta as emoções e me deixa sem palavras.

Hoje uma voz doce, vinda de uns olhos atentos disparou a meio de uma conversa:

"Tu foste sempre assim feliz?"

E eu, que há algum tempo não me sinto feliz, pedi que repetisse a pergunta, meio a confirmar meio a ganhar tempo, e senti o meu coração a ficar pequenino.

Numa voz, que quis o mais sincera possível, respondi que sim, e fugi dali.

Como é possivel mentir assim a uma criança?

Mas prefiro que guarde essa imagem. Confesso.

 

Tristeza

Sinto-me triste. 

Numa tristeza que vai contra a cor do verão.

Percebo que não mais nos vamos encontrar.

Apesar das tuas palavras doces e sinceras,

Cada despedida é mais um adeus.

Em silêncio revolto-me, triste, insatisfeita, insana, insensata.

Mas nada digo pois nada a fazer contra um adeus.

Mesmo que temporário. 

Sem respirar

Importas-te de me dizer alguma coisa, só para acalmar esta minha ansiedade? o que pensas? onde estás? como foste? como vais? onde vais? sentes o vento? o que planeias? Esse livro é bom?

Viste o calor da semana passada? Aguentaste? Sabes que me custou imenso? E a ti? Onde vais estar amanhã? E depois? e daqui a um mês? E daqui a um, dez anos? E...?

Responde-me algo.

Diz-me que estás bem. Que não estás. Que não queres dizer nada.

Estou a enlouquecer enquanto penso o que pensas.

Tudo para não pensar em mim e no que sinto.

Heranças

Na minha adolescência, o meu pai tinha um hábito que me irritava solenemente:

Sempre que estava zangado comigo, não falava; olhava para mim e começava a assobiar.

Tirava-me do sério!

Achava que seria muito mais prático e honesto chegar ao pé de mim e dizer abertamente o que pensava.

É que nem sequer assobiava bem!

Gradualmente fui aprendendo a ignorar o seu assobio.

E a não discutir o que me aborrece, com quem me aborrece.

Já a minha mãe funcionava por acúmulo:

Deixava passar, ia enchendo o copo da paciência, até ao dia D.

Nesse dia havia uma explosão dramática. O que estava longe do meu agrado.

E assim aprendi a funcionar. 

Por um lado não assumir emoções; por outro fugir a sete pés de dramatismos.

E vou dando comigo a passar ao lado de uma série de coisas que gostaria de ter vivido,

Explodindo de tempos a tempos em dramáticas assobiadelas para o lado.

Até logo

A última vez que te vi

(já nem sei dizer há quanto tempo realmente foi)

estavas brilhante, embora a fadiga fosse nítida

(há uma eternidade)

bebemos o nosso café,

(porque não me lembro do dia certo?)

trocámos impressões e piadas,

 

(passou um ano?)

sorrisos e cumplicidades

(um mês?)

ideias e histórias

(um dia?)

Lembro-me que na despedida me chamaste

(um minuto)

para um último sorriso partilhado

(e tudo muda)

e terminou ali

(devia haver avisos de)

uma despedida insuspeita,

(que não haverá mais tempo,)

para ambos

(que o até logo poderá demorar demais)

o desencontro dos caminhos.

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