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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Desejo

Dormir e não sonhar.

Dormir durante horas, semanas, meses.

Meses sem sonhos, sem testa franzida, sem medo do telefone que toca, sem decisões a tomar.

Acordar descansada e alguém sentar-se junto de mim e contar:

"nestes meses resolveu-se A, B; Z.

O alfa juntou-se ao omega e desenvolveram vários pequenos deltas de rio

que poderás navegar sem medos ou sobressaltos."

Sorrir perante as notícias. Ter coragem perante as menos boas.

Mas já estar tudo resolvido.

Ser apenas receptora das notícias, e o descanso da ausência de meses a manter-me tranquila perante os dissabores.

Nunca seria capaz, mas é um desejo que não me deixa.

 

Sonho

Acordei a meio da noite.

Sonhava que lá fora a noite me engolia.

Diluindo-me no escuro,

Tornava-me una com a ausência de luar,

Com a distância das estrelas,

A insensibilidade dos ventos nocturnos,

Que fustigam o inverno que não vem.

Deixei de ser, nesse sonho;

Um preenchimento de nadas que ocupam,

Que consomem e angustiam.

E do nada nasceu algo,

Não sei se num renascimento,

Se numa ilusão;

O regresso a um mundo desconhecido,

 A um sonho perdido,

Mesmo antes de adormecer.

Medo

Esta sensação de estar no sítio errado,

De estar a ocupar algo que não é meu,

Faz-me oscilar entre a tristeza e a ansiedade, a insegurança de estar a fazer tudo errado.

Não quero este papel. Não estou preparada para ele. Não me foi entregue pelos motivos certos.

Mas virar as costas também não é opção.

Tenho que me abalançar, não deixar o medo tomar conta da situação.

Confiar. Mas não sei se em mim.

Forçar-me para não fugir e ficar para aprender.

Tempo de me superar. Mas duvido que a superação seja possível. 

Enquanto pensam que tenho os olhos pregados ao céu, descubro que estou com os pés pregados ao chão.

Capitulação

Capitulo.

A desesperança lança a bandeira branca,

Numa última tentativa de mudar o rumo ao pensamento e de me deixar ir na ilusão de uma mente vazia.

O cansaço ocupa-me os dias de uma ausência de vontade para tudo, até para dormir.

E se num momento surge um pouco de esperança, de fé que seja, logo no seguinte vejo tudo ruir.

Deponho armas, as batalhas já não são para mim. Deixo-as para quem tenha energia.

Deixo de planear defesas ou ataques e sento-me à espera de um destino que decida aquilo que já não sou capaz de escolher.

Capitulo. Capítulo. Fim de um tempo que passou e que foi o meu. 

Não sigo em frente, apenas fico a olhar o movimento dos que vão.

Egoísmos

Deambular por uma cidade desconhecida;

jantar a observar o movimento das gentes que a habitam;

um quarto de hotel despido de mim;

um copo de vinho com vista;

decidir as minhas horas,

e os meus lugares;

Desmarcar compromissos adiáveis;

Sorrir de uma piada privada;

fugir por trás de um livro,

ou os phones nos ouvidos com a minha música;

Não planear o dia de amanhã;

Mas planear as horas que faltam para te ouvir;

Estes são o meu género de egoísmos,

mas que estou disposta a partilhar contigo.

Muda

Veio até mim, sentou-se, e, sem me olhar, disse:

"Temos de falar".

Sem me dar tempo para inspirar, disparou num fôlego a sua vida vivida.

Descreveu, ao pormenor, beijos que não recebi, toques que não conheço, aventuras que não vivi.

Numa hora conheci o cheiro de especiarias não saboreadas, delícias experimentadas, mas não por mim.

Ao fim desse tempo, finalmente, olhou para o fundo dos meus olhos espantados. Em voz solene acrescentou:

"Vai, e não te esqueças: não desperdices a vida como eu".

E foi como veio, deixando-me petrificada e muda.

E, juro, não mais me apeteceu falar.

Ex-sítios

Existem locais que se confundem em nós, em que perdemos a noção se nos pertence, ou se somos nós que lhes pertencemos.

São,  normalmente, sítios que estão repletos de memórias. Em que cada esquina desperta o calor de uma emoção.

Por vezes esta pertença mútua prolonga-se ao longo dos anos, até que num dia, de forma completamente desprevenida, percebemos que o cordão que nos unia perdeu um pouco da sua força.

Nesse dia percorremos cantos, reencontramos memórias, mas sentimos que algo mudou.

Podemos até perceber o encanto, mas o tempo ou, provavelmente, a nossa própria mudança torna tudo mais distante.

São dias difíceis, em que combatemos a sensação de perda com maior aplicação nos trabalhos diários.

Depois, no final do dia, recontados e recuperados os destroços da nossa quebra interior, sentimos o cansaço e o corpo pede o esquecimento, enquanto a mente procura  reencontrar-se no encanto/recanto das memórias dessa ex-casa emocional.

 

Senta-te

Anda, senta-te ao pé de mim.

Conta-me os teus sonhos, tuas angústias, amores e desamores.

Partilha comigo as memórias dos teus projectos futuros.

Diz o que te apetecer.

Estarei pronta a ouvir.

Prometo não avaliar, não aconselhar, não julgar.

Comprometo-me a ficar em mudo silêncio, se quiseres.

Mas, se mesmo assim, te faltarem as palavras para partilhar, não te preocupes.

Vem na mesma, e sentados neste banco, observaremos simplesmente os pombos do jardim.

Adormeceres

Muitas noites a vida parece-me tão estranha, que a julgo irreal.

São noites em que me deito, e fico no escuro a pensar: no dia que passou;  na vida; no futuro.

Faço nesses momentos uma apressada análise de quem sou, quem fui e quem ainda julgo possível vir a ser.

Por vezes, o peso que disto resulta é tão grande que necessito de reacender a luz.

Penso como tudo é estranho; como a vida por vezes parece um filme sem guião, sem orçamento, sem paixão...

Fico ali, deitada sobre a cama, dedo no interruptor a acender e apagar a luz, ao ritmo das ansiedades.

Por falta de explicação, concluo: sendo tudo tão estranho, tem que ser um sonho!

Então aquieto-me, no escuro, à espera de acordar. 

E finalmente adormeço.

Credo para um dia

Só por hoje prometo: 

Admirar-me mais: com os outros, com o mundo, comigo.

Procurar ganhar coragem para seguir o meu caminho e, acima de tudo, deixar os outros seguirem o seu.

Continuar a ajudar quem de mim precise, mas sem esquecer de pedir ajuda também.

Acreditar, cuidar e amar a mim mesma, tanto quanto o faço pelos outros.

Viver, mais do que sobreviver.

Ser, mais do que estar ou parecer.

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