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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Silêncios

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Numa caminhada inesperadamente solitária, resolvi deambular por ruas há muito por percorrer.

O frio e o vento deixaram-nas vazias. De vez em quando um carro. Muito raramente alguém.

O silêncio reina, e com ele deixo-me levar pelas palavras interiores até que, também eu, deixo o silêncio invadir os meus espaços.

O vento traz o cheiro dos pinheiros, dos eucaliptos, da alfazema. Traz até mim o restolhar das folhas no topo das árvores.

Sigo por caminhos que há muitos anos pertenciam ao meu quotidiano.

E gradualmente reparo que o silêncio trouxe consigo a tranquilidade.

Deixo os jardins para trás. Observo a ribeira que segue na direcção do rio e resolvo acompanhá-la até à praia.

Engraçado como uma quebra emocional recente me permitiu redescobrir alguma paz.

Sento-me na areia. Em frente de mim estendem-se o rio e a sua margem sul. Num namoro permanente entre o céu e o mar.

Por companhia apenas um pombo e o som das ondas.

Respiro e deixo-me ficar.

Regresso a casa

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Existem dias em que o regresso a casa parece ter algo de mágico.

Como se nos proporcionasse o reencontro tão desejado connosco próprios,

com um momento sublime de paz, de conforto, de serenidade.

Como se de um raio de sol se tratasse, no meio de nuvens tempestuosas,

permitindo-nos reencontrar a beleza do dia-a-dia, a harmonia do silêncio

ou do canto das aves.

Seja qual for a forma deste regresso, a própria viagem vai-nos impregnando,

minuto a minuto, kilometro a kilometro, de sensações familiares à nossa memória.

O cheiro da chuva, da maresia, da relva acabada de cortar.

O toque suave da brisa no corpo, num dia de verão,

de uma mão que toca muito mais que apenas o nosso corpo.

Um beijo, um olhar, um momento.

E gradualmente, por um final de dia, despimos essas memórias de qualquer valência

negativa, para nos deixarmos levar nos suaves braços da nostalgia.

Sem dor, sem tristeza, só pelo prazer recordado.

Melancolicamente, um sorriso instala-se dentro de nós,

e num momento recuperamos toda uma vivência julgada esquecida,

desperdiçada, abandonada.

É então que fechamos os olhos enfim,

e abrimos de novo o coração.

 

Sonhos (2)

Não quero dormir.

Sei que no momento em que fechar os meus olhos, surgirás mudo a olhar para mim.

Nos sonhos mais inesperados, mais inocentes, mesmo, vejo-te nalgum canto, calado a observar o que provavelmente não verias acordado.

De início procurava-te, mas a resposta era sempre um virar de costas calado.

Agora que procuro ignorar-te pareces satisfeito, surgindo por entre as acções dos meus devaneios nocturnos. Ficas ali, a olhar, sem interferir. Sem me dares a tua voz. Numa atenção de cinema de quem assiste um filme porque nada mais há para fazer.

Não quero dormir.

Agora que te foste dos meus dias,  saldas as minhas dividas assumindo um papel voyeurista nos meus sonhos.

Não vou dormir.

Se foi o fim dos nossos dias, que seja das noites também.

Tempo

Passamos horas a olhar pelo relógio,

a contar os minutos,

à espera do momento seguinte.

No trabalho contamos o tempo para a saída;

na saída o tempo para dormir;

de noite o tempo para acordar;

e quando acordamos recomeçamos o ciclo.

Em cada momento desperdiçamos minutos preciosos,

oscilando entre os que já foram e os que hão-de ser.

Quando um dia, por qualquer acontecimento inesperado,

reparamos que aquilos que tanto esperávamos ou não veio ou já passou,

percebemos que foram vários os minutos desperdiçados.

E tomamos noção das urgências:

É urgente usufruir.

É urgente amar.

É urgente sentir o tempo fluir, mas connosco a aproveitar.

É urgente ser todo em cada momento,

e cada tempo ser presente.

Distorções

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Distorções.

Imagens, palavras, sentimentos que não são devidamente compreendidos, ou talvez expressos.

Como numa imagem filtrada por um vidro adulterado, ainda não estilhaçado, não nos deixa compreender os matizados que se espalham lá fora.

As cores misturam-se, as formas distorcem-se, as palavras perdem-se em significados imprecisos.

Pensamos que aquela é a imagem real, criamos crenças desgastadas, mas acima de tudo, perdemos a beleza da imagem real (ou imaginada?) que se estende lá fora.

Procuro significados no impreciso, convencida que posso distorcer a própria distorção.

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Desvios

Por vezes vamos concentrados no nosso caminho, submersos nos nossos pensares, preocupados em chegar ao nosso destino.

De repente alguém nos chama a atenção, necessitando de uma ajuda, uma palavra.

Num instante avaliamos as hipóteses: ignoro o outro, e não me atraso, ou paro, perco tempo a olhar pelo outro e, certamente, vou perder algo dos objectivos que tinha.

Ontem escolhi parar. 

Nesse compasso em que o caminho ficou à espera, houve uma mudança na atenção. E gradualmente fui descobrindo pequenos tesouros: o brilho do rio ao sol da tarde, uma borboleta azul sobre as flores.

Por um momento, um breve e precioso momento, redescobri dentro de mim um recanto escondido da tão procurada paz. De sossego.

Tudo terminado voltei ao caminho, acelerada a tentar recuperar algo do tempo de desvio. 

Com a esperança de ter recuperado essa paz há tanto tempo ansiada.

Pedaços de azul

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De repente, muito ao longe, no meio do cinzento que nos cerca, surge um pouco de azul.

Uma faixa estreita e ténue, um pouco de esperança que se oferece à nossa desesperança.

Ficamos de olhar fixo, na expectativa de a distância que nos separa daquele pedaço de azul

reduzir, pela força de tanto o olharmos.

E ela permanece lá. Longe. Numa ameaça de fuga permanente, como a incitar-nos a seguir-la.

Mas alturas há, em que já nem mesmo esse pedaço de azul nos faz acreditar.

Talvez por já sabermos que se trata de uma ilusão,

de um fenómeno passageiro.

Percebemos que é o cinzento que domina, e o olhar cansa em tanto esperar o azul que tarda.

São os momentos em que nos faltam as forças, em que simplesmente desistimos,

e nos deixamos abraçar pelo cinzento, na nova esperança de a ele nos habituarmos,

e de deixarmos de acreditar numa esperança de azul.

Trocamos a esperança pelo hábito da desesperança, 

tentando não desperdiçar mais a energia que nos falta.

 

Desistências

Como é que se desiste de sonhar?

Como é que se deixa de amar?

Como é que se faz para esquecer o que se planeou e não aconteceu.

Deixar de pensar no que não se pode ter,

Seguir sem amargura nos caminhos da vida,

apesar da perda, da sensação de vazio,

seguir, seguir, seguir.

Sem olhar para trás.

Esvaziarmo-nos de emoções, criar uma capa,

uma máscara, algo que nos torne menos visíveis,

mas que também nos impeça de ver claro.

Deixar de sentir.

Deixar de desejar.

Deixar de ser.

Como se chega aqui?

Como se sai de lá?

Vidas...

Voa, mas a baixa altitude.

Sonha, mas dentro do real.

Planeia cada segundo,

não dês espaço à surpresa.

Trabalha, mas controla a ambição.

Não devemos querer demais.

Não grites.

Não esperneies.

Dança e canta ao ritmo da multidão.

Não te destaques.

Aguenta as contrariedades com calma,

Lembra-te que o que não nos mata torna-nos mais fortes.

Quando estiveres bem adaptado a este credo,

Vais perceber que já não estás a viver.

 

Contas

Todos os dias acordo num mar de vontade.

Agarro o dia, com energia e preparo as lutas diárias inevitáveis.

À medida que desço a rua, ouço os meus passos a ecoar no silêncio.

Repercutindo-se no meu vazio.

Cada passo dado a recordar a solidão do caminho.

Lembra-me a ausência de dez sombras perdidas, de cem sonhos abandonados,

de mil desejos insatisfeitos.

Vou retardando o passo, numa tentativa vã de não chegar a um destino inevitável.

A um fim presumivelmente próximo.

Descubro a incapacidade de sonhar e pondero terminar ali o meu caminho.

Mas, sem capacidade de parar o tempo, o caminho continua a exigir ser percorrido,

sem piedade nem interesse pelas nossas hesitações, ou pelos nossos medos.

À falta de coragem para parar, respondo com a contagem dos passos,

um a um, sempre mais perto do fim.

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