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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Lamento

Nunca lamentei tanto a minha falta de jeito para a escrita, como agora.

Queria ser capaz de pegar em palavras e transferir para papel tudo o que não consigo dizer de viva voz.

Desperdicei tantos momentos com conversas fúteis sobre o(s) tempo(s),

engolindo outras tantas palavras que agora me sufocam.

Nalguns casos as palavras ainda podem alcançar o seu destino, escritas a negro em fundo branco, noutros já nem isso.

Julgamos ter todo o tempo do mundo. Encenamos mentalmente as circunstâncias em que as palavras vão ser ditas. 

Para de repente percebermos que o tempo foi lá atrás.

É quando todo o peso das palavras se abate sobre nós, inexoravelmente. Que é como quem diz, todo o peso da nossa cobardia.

De nada me vale pensar que da próxima farei diferente, porque também para mim o tempo passa, e as palavras vão perdendo o eco cá dentro. Perdem a validade.

Com elas perco também a minha legitimidade.

 

De que serve viver, sem sentir? De que serve sentir e não dizer?

Agora, sento-me defronte de uma página branca e só me sai isto.

Todo um lamento, com palavras perdidas.

E nada das palavras que me sufocam.

 

 

 

Domingo em fuga

Hoje resolvi parar de fingir que sou corajosa.

Antes de abrir qualquer mensagem, de atender qualquer telefonema, fiz uma pré-avaliação.

Não queria notícias más. Nem sei se queria boas.

Talvez fingir que não estava cá.

Sinto-me, de novo, a herdeira do que não é meu. Do que não pedi. Do que não tenho talento para cuidar.

Se o dia tivesse sido de chuva, tinha-me deitado sob uma manta a contar gotas caídas do céu.

Mas limitei-me a fazer uma espécie de censura ao telemóvel. Da próxima terei que ser corajosa o suficiente para o desligar. 

Berma de estrada

Tempos houve em que, nas encruzilhadas da vida,

( Perdoem o lugar comum)

me sentava na beira da estrada para pensar.

Os anos trouxeram

(assim o gosto de pensar)

alguma maturidade e comecei a decidir mais com o coração / instinto / memórias do meu sentir. 

(Quem disse que a idade nos torna mais sábios?)

Hoje, tempo de escolhas e decisões, dou comigo de novo sentada na berma da estrada a pensar. Não a ponderar o próximo passo, ou a avaliar o caminho percorrido. Apenas a pensar.

Tento voltar ao tempo dos filtros emocionais activos ou dos sentimentos na gaveta.

Concluo-me cansada de sentir e procuro

(sem grande sucesso)

a antiga dormência do racional.

Sem energia, vejo-me de novo na berma da estrada

(será que alguma vez de lá saí?)

numa luta pelo pensamento que não consigo formular, pela objectividade que perdi.

Num sentimento indefinido, irracional, de não ser ali que era suposto estar.

 

Nadas

Se me perguntassem o que espero de ti, responderia num tom sincero: nada.

Nada, apenas pelo tanto que cabe em coisa nenhuma.

E até porque do muito que te pedisse pouco ou nada darias.

Assim, numa tentativa vã de evitar uma viagem ao mundo do "devias fazer", optaria pelo nada a esperar.

E nesse nada caberia de tudo um pouco: o carinho de um toque; a palavra chave que me devolvesse à Vida - assim com letra maiúscula; um sorriso cúmplice de uma piada privada; uma noite de cinema no sofá lá de casa; uma brisa marítima a afagar os nossos cabelos durante um passeio tranquilo à beira-mar.

Tudo pequenos nadas que nos preencheriam este todo que teimas em deixar vazio.

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