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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Dias de uma vida

Tenho dias em que penso que não vale a pena.

Em que toda a luta, esforço, princípios parecem inglórios.

Venho de uma família repleta de gente batalhadora, fiel ao que acredita. E que curiosamente não sai da cepa torta.

Como se na defesa da liberdade, dos direitos e deveres de uma sociedade humana e digna nos esquecessemos de lutar por nós.

O esforço está lá, procuramos atingir os nossos objectivos, mas há sempre uma volta da vida (do destino?) que nos faz voltar à estaca zero, nos interrompe o que parecia, finalmente, bem encaminhado.

E aí, paramos e pensamos em todas as escolhas que fizemos, para chegar à conclusão que, provavelmente, devíamos ter ido por outro lado.

São dias, meses, de sofrimento entre a dúvida de tentar continuar o caminho em frente ou mudar, mais uma vez, o rumo. Procuramos sinais, pequenas respostas que nos dêem alento para continuar caminho.

Até ao dia em que nos convencemos que o melhor é simplesmente parar.

E aceitar que provavelmente o limbo onde estamos é o lugar onde pertencemos e onde devemos permanecer.

Mesmo que não nos agrade.

Nesse momento abandonamos a luta, com  o coração partido de quem abandona a sua essência.

Creio que esse dia está já perto.

 

Crescer

Quando pequenos ansiamos por crescer. Ser independentes, viver a nossa vida ao nosso jeito. Sermos adultos, seja isso o que for.

Ingénuos, idealizamos uma série de situações. Algumas quase que alcançamos, outras nem ficamos perto.

Há medida que os anos passam, vem a aceitação de que ser adulto é, em vários aspectos, muito diferentes do que imaginávamos.

As obrigações, as preocupações, a necessidade de abandonar alguns sonhos. Mas também uma imensidão de vantagens a contrabalançar as desvantagens.

Mas, para mim, há uma desvantagem de crescer que tenho muita dificuldade em balancear. As despedidas impostas pelo tempo; aqueles que nos partem, deixando um vazio, que vai crescendo a cada despedida.

Inevitavelmente, até ao dia em que terminam as despedidas.

Proposta

Todos os dias chegam reclamações,

Petições, pedidos de referendo.

Uns justos e sérios, outros nem tanto.

Pois hoje é a minha vez:

Proponho que cada pessoa tivesse direito, além do dia de aniversário, Natal e ano novo, o

Dia de não ser nem estar.

Um dia à escolha de cada um, de acordo com as suas experiências, vivências ou crenças.

Dia de não ser.

E nesse dia ficava-se quieto a não fazer o que não se quer.

Por mim podia ser o 23 de novembro.

Ficava debaixo dos lençóis, escondida a sonhar com este céu e à espera do dia seguinte.

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Ama

Ama quem tu queres, como queres, enquanto queres.

Não te prendas com convenções ou inseguranças.

Deixa que os sentimentos fluam e te encham,

sem restrições pueris ou censuras sociais.

Recebe em ti a emoção, como quem recebe uma oferta:

grata pela humanidade que te toca o coração.

Assume o que sentes perante ti mesmo,

de modo a compreenderes ainda melhor quem tu és.

Ama-te o bastante para amares o outro ainda mais,

sem violências ou violações de espaço,

com respeito, carinho e liberdade.

Ama, 

quem tu queres, como queres, 

sem pisar ninguém, sem ofender os teus valores. Os teus e os do outro.

Ama,

sinceramente, eloquentemente, com todo a paixão que te couber em cada momento.

Com urgência.

Ama hoje, pois amanhã poderemos não estar aqui.

Fim de semana

IMG_20181117_174511.jpg

Sábado à tarde.

Final de tarde, fim da semana de trabalho.

Entro no carro e, em vez de iniciar regresso a casa, deixo-me ficar, a ver a chuva a cair.

Desligo o som do rádio e enquanto olho distraída o trajecto errático das gotas de água sobre o vidro, deixo o pensamento correr livre. 

A sensação de estar numa bolha, longe do mundo, só com o som da chuva e a iluminação da rua, surge como um bálsamo para o cansaço.

Esqueço-me do medo, das tristezas, da eterna ansiedade.

Respiro cada vez mais tranquila.

Numa inspiração mais profunda esqueço-me de mim.

E na seguinte esqueço-me de ti. 

 

Sono

quando até o sonhar nos cansa

e se traduz em noites mal dormidas,

horas nocturnas de insónia,

lentas, negras, silenciosas,

a reflectir os nossos próprios pensamentos

despertos pelos tais sonhos

sempre os mesmos

sempre desejos da nossa mente

que nunca se realizam,

que nunca serão

e as horas não passam

e deixamo-nos ficar no escuro

à espera de algo,

de uma notícia,

do regresso do sono,

do desenvolver do sonho,

de algo que não vem,

e que já não espero.

declaração

Para que nem tudo sejam tristezas numa noite de inverno, recordo o que gosto:

gosto do sol da primavera a lembrar o renascer da natureza;

gosto da chuva a bater nos vidros, do som da trovoada;

gosto do canto dos pássaros;

gosto de ler, de ouvir música, dos tempos suaves passados a fazer o que gosto;

gosto de escrever sem pressa e sem pretensões a fazer algo sério;

gosto de desafios;

gosto de gargalhadas partilhadas;

gosto de um copo de vinho tinto partilhado com amigos;

gosto de ti.

 

Saudades

Quando tiveres saudades minhas, por favor, não me procures.

Não conseguirei tolerar um retorno ao passado.

Não é que já não te queira, ou que nada mais possa existir, mas sinto o cansaço, o desgaste da desesperança.

O colorido do cabelo vai desaparecendo, dando lugar a tonalidades negro/cinza, na mesma proporção que a crença em melhores tempos para nós se mescla de desistência no que houve de nós.

Não me arrependo do que foi, nem, repito, estou desiludida ou zangada. Mas o cansaço de remar contra tempestades leva-me a pousar os remos e a declarar basta!

Também já não peço tréguas às intempéries. Aceito-as como inevitáveis a uma vida que nunca se fez rosa.

Ao contrário do que proclamam, o que não nos mata nem sempre nos faz mais fortes. Por vezes, mata-nos em parcelas. Lentamente. Roubando-nos até as incertezas.

Por agora, resta-me a saudade dum tempo que se quis longo mas se fez breve. 

E, sinceramente, para já, é o bastante.

Indecisão

Não sei o que prefira:

Se as dores das ausências

Se a leve e inevitável adaptação aos novos quotidianos.

Se a indiferença para comigo,

Se a minha indiferença perante o mundo.

Se me incomoda sentir-me acomodar,

Se lutar contra a maré.

Se estar sozinha, ou isolada.

Não saber o que quero,

Ou saber o que não quero.

Quedas

Caímos, levantamo-nos.

Voltamos a cair e a levantar.

Voltas da vida, numa espiral infinita

Que cria a ilusão de estarmos 

Sempre no mesmo lugar.

Ao fim de muitas quedas,

de falsas partidas,

de espirais descendentes,

a desilusão começa  a dar lugar

à habituação

e da dor surge o desinteresse 

Não um acreditar que é o nosso destino,

mas apenas um deixar de acreditar.

Até que uma nova curva de espiral

desemboca numa nova paisagem

que nos corta o fôlego 

e nos devolve a vontade de sonhar.

Até lá, é esperar, cair e levantar.

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