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Entre ser e estar

Entre ser e estar

São dias

Queria encostar a cabeça, fechar os olhos e descansar.

Esquecer os dias que passam iguais, desde o fim do tempo das novidades.

Queria, por momentos, não ser nem estar, ficar numa espécie de limbo, dormente de corpo, de alma, de coração.

Estes são os dias da incerteza do que vem a seguir. Da dúvida da permanência ou da espera pelo regresso do embalo da aventura.

São dias que não terminam, numa sucessão cansativa de ausência: de eventos, de emoção, de ti, de mim.

São dias essenciais, mas que me desgastam na repetição do pouco mais que nada.

São dias de pré-tempestade.

Relógio

Por vezes, a meio do dia, num momento de paragem, parece-me ouvir nitidamente o tic-tac de um qualquer relógio, a lembrar o inexorável passar do tempo.

Não é tanto um relógio biológico, mas sim um relógio relacional.

Quer dizer, dou comigo a contar o tempo que passou desde a última vez que falei com A, B ou C.

Para uns são dias, outros meses. Para alguns parece que foi ontem, para outros que já passou demasiado tempo. Mesmo que tenha sido ontem.

É nesses momentos que apetece esquecer as convenções e ligar. 

Com algumas pessoas passo da vontade à acção. Com outras foge a coragem. Nesses casos, fico parada a desenhar diálogos no ar, à espera do dia em que os materialize.

Até chegar à conclusão que o tempo certo para o fazer já passou. 

Poderíamos pensar que esta é uma lição aprendida. Mas não. 

O erro é continuamente repetido até à exaustão. Dolorosamente à exaustão.

Regresso a casa

Voltar a casa, 2 da manhã.

Final de um longo dia de trabalho.

Viagem num carro que me é estranho,

Com música tranquila,

No prazer de uma solidão noturna.

Não conhecer quem nos transporta

E num egoísmo mudo não querer conhecer.

Em viagem pelo meu silêncio interior.

Amenizando-me comigo enquanto a rádio anuncia as horas.

A preparar o descanso para um novo dia.

Amanhã estarei de volta.

 

 

Começos

Gosto de começar o dia assim.

Primeiro uma aceleração para apanhar o comboio, cheio de gente e telemóveis.

Depois o metro, mais sossegado.

Por fim o café, com vista para a avenida. Um olho nos transeuntes que passam, outro no movimento dos automóveis.

Uma espécie de aquietar da mente no meio do reboliço da cidade.

Um reset para mais um dia.

Como um novo começo de qualquer recanto meu.

Nem sim, nem não

Sabem aqueles dias em que não sabemos bem o que sentimos?

Em que pequenas borboletas nos fazem cócegas por dentro, como a dizer "presta atenção, algo está por acontecer"?

São dias em que nem sim, nem não, antes pelo contrário.

São dias que chegam ao fim e no escuro do meu quarto ligo a música baixinho e danço, sem ritmo, sem pensar no que faço, de olhos fechados, apenas entregue ao movimento.

A libertar as borboletas. E a voar com elas.

destinos

Cada passo só me afasta,

em vez de me aproximar.

Compreendo que o caminho tem que seguir,

mas cada passo crava uma garra no meu peito,

fazendo-me chorar por dentro.

Penso se serei a única a sentir este efeito colateral,

se em ti fará algum abalo estas minhas decisões,

e dou comigo a rezar que não, eu que nem crente sou!

E dentro de mim, ressoa o estilhaçar de um caminho sonhado,

de um sonho por mim traído,

numa decisão que neste momento se impõe.

Compreende, isto não é um abandono.

Ou se o é, não é de livre vontade.

Faço-o porque o destino assim o traçou,

no momento em que nos disse que tudo iria ser diferente.

Pelo menos até descobrirmos o final

deste capítulo, que não podemos ou conseguimos saltar.

Desculpa-me, que eu vou tentar desculpar a vida

por mais esta partida sem graça.

decisões

Existem decisões que tomamos internamente,

mas que depois vamos adiando a sua efectivação.

Hoje não nos apetece, ontem era um mau dia,

anteontem não houve tempo.

Até que um dia pensamos, que tolice isto é algo que tem que ser feito.

Faz sentido. Não é o fim de nada, é apenas um passo mais.

E nesse dia avançamos.

Quando olhamos e vimos a decisão assinada, 

oficializada, descobrimos o porquê dos imensos adiamentos.

Hoje foi esse dia.

Dou comigo com o coração pequenino,

por ter tomado este passo necessário e que era o lógico.

Apercebo-me que, na verdade,

me estou a despedir de um pedaço de mim

e a largar uma parte tão cheia de significados do meu passado recente.

E que não sei se será alguma vez retomado.

Segue

Esquece o que os outros pensam, fazem ou dizem.

O teu caminho és tu que o trilhas. Os teus erros são tua responsabilidade, mas o mesmo se passa com os teus sucessos.

O tempo que perdes a ver quem comentou o quê, é tempo de sonho e concretização perdido para sempre.

Foca-te em ti e nos que amas, leva-os contigo enquanto forem teus companheiros na viagem.

Cumpre o teu papel e deixa que os outros cumpram o seu, seja ele qual for.

Quando finalmente te libertares descobrirás o verdadeiro som e tom que faz vibrar o teu coração.

Segue o teu caminho, guiado pela tua bússola interior, ao compasso da sinfonia que a vida te permite tocar.

Acima de tudo, sente e sê o que tu quiseres em cada momento.

episódios I

Estava sentado à minha frente pela segunda vez.

Mas desta vez, os olhos claros pareciam olhar para lá de mim,

perdidos.

Achei melhor repetir apenas parte do meu discurso,

omitindo a notícia que o deixara sem chão:

Não é o fim do mundo; tudo se vai resolver

(enquanto me mordia por dentro pela fealdade do lugar comum).

Os olhos por momentos pareceram reparar de novo que estava ali.

"Eu ia mudar de vida. Como ela me pediu".

E eu que conhecia já aquele pedido, respondi em silêncio,

devolvendo o olhar aos olhos claros que se volviam vazios.

"Mas mude, por si. Ainda há muito caminho pela frente".

No assentimento mudo daquele olhos claros obscurecidos, li perfeitamente

a dúvida se fazia sentido continuar a andar.

Dentro de mim, cresceu o medo.

Medo que lesse nos meus olhos escuros, a clara dúvida que por vezes surge

se realmente vale a pena continuar.

Embalo

Há dias em que gosto de ir nos transportes de olhos fechados,

embalada pelos sons e o balanço,

deixando-me levar,

sem pensar,

sem sentir,

a ser.

A ser,

sem sentir,

sem pensar,

deixando-me levar,

embalada pelos sons e o balanço,

de olhos fechados nos transportes até chegar aos dias de que gosto.

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