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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Perda

Mais do que a ausência da pessoa, são as perdas que me tormentas e entristecem.

As palavras ficam, as recordações dos momentos perduram, as partilhas, mesmo que doravante despartilhadas, também essas permanecem comigo.

Agora, aquelas perdas graduais, após a partida, essas sim, corroem-me por dentro.

Os cheiros da pessoa, a voz, o riso, (Deus meu, o riso!), o brilho dos olhos, o toque particular...

Coisas que a nossa memória apaga, contra todo o nosso querer, alimentando a dor da perda do corpo com a perda dos "pormenores" que faziam esse corpo único.

Mais do que tudo, são estas perdas que (ainda) me fazem chorar.

São as dores que nunca se apagam.

Números

Números.

Cada vez mais somos números.

O número do cartão de cidadão, o número fiscal.

O número que vestimos, o número de zeros na conta bancária.

O número de amigos das redes sociais, o número de vezes que beijámos.

O número da média do estudante, o número de publicações do investigador.

O número de tudo, ou tudo em números, abafando os zeros do vazio numa espécie de infinitos desorientados. 

Loucura

IMG_20190215_000628.jpg

Pois que eu corra sem parar,

Num frenesim sem destino,

Por caminhos para mim desenhados.

E se as pontes sobre o infinito se quebrarem, que eu corra no vazio,

Até no fundo me aquietar.

Deus não existe,

Senão como esperança de quem não encontra mais nada em que crer.

Anjos!

Eu creio na loucura,

Inconsciente das certezas,

Ignorante do caminho,

Até que a morte me engula.

Pois da vida pouco mais espero.

De que outra forma poderia ser,

Quando ela insiste em me roubar o chão que piso, 

o ar que respiro,

a esperança de um novo sol?

Estranhos desejos

Ultimamente, numa clara incoerência interna, surgem-me desejos, estranhos e inesperados.

Nada de exótico, apenas algo como pegar num cigarro e fumar.

O estranho disto é que nunca fumei. E dou comigo a enumerar silenciosamente todas as razões para não ceder. Coisas como a saúde ou o dinheiro.

Mas dentro de mim fica o bichinho.

Uma vontade de me perder por trás de uma nuvem de tabaco, os sonhos perdidos em torno das formas imaginadas no fumo que se liberta de um cigarro.

Uma espécie de sair de mim, através de algo que nunca foi meu.

Desejos destrutivos? Vontade de escapar?

Não sei.

Talvez seja mesmo apenas a vontade de fumar um cigarro.

Ou de fazer algo (a)naturalmente diferente.

Talvez deixar de ser quem sou.

Regressa

Quando voltas para mim?

Desapareceste-me num dia de sol, (ou era chuva?) sem que, na verdade, tenha sido totalmente inesperado.

Fazes-me falta. O teu riso, a tua voz, as nossas conversas, entre tantas outras coisas que me faltam.

Já fez um ano. Ou seriam três ou doze?

Não consigo precisar.

Porque nos espaços ocupados pela minha memória, os que me partiram, passaram a ser um só, numa mistura de tudo que já não tenho.

Há dias em que soas feminino, outros tens olhos azuis.

Há dias em que me entendes, outros em que desconversamos em alegre confusão.

Sinto a falta de um abraço, da continuidade de todos os que já não tenho.

Sinto vontade de me tornar, também eu, um pedaço da amálgama das minhas memórias.

Regressa, por favor.

Um de cada vez, ou todos juntos, falando à vez.

 

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