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Entre ser e estar

Entre ser e estar

25 de Abril, sempre.

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Amanhã irei para a rua festejar o dia da liberdade, uma vez mais.

Há quem me pergunte porquê insistir nestas andanças. A razão é simples.

Vou em homenagem: Aos que deram a vida para que eu hoje possa escrever o que bem me apetece num blog público; Aos que conheci e me mostraram, pequena ainda, as suas cicatrizes nas costas e me diziam "não tenhas pena, são para que nunca tenhas que ter as tuas"; Aos meus pais, mestres da sobrevivência em tempos difíceis; A todo um povo que procura, ao longo dos anos, o seu lugar na sociedade.

Trago comigo a história que poderia ser de tanta e tanta gente. Venho de um meio em que apenas para a geração nascida em 70, a possibilidade de seguir estudos deixou de ser uma miragem e passou a ser uma possibilidade, mesmo que económicamente muito dificil. Filha de pais que passaram de uma luta feroz pela sobrevivência antes da revolução, para uma luta mais aliviada no pós. Criada num bairro cheio de crianças que cresceram a prolongar a luta dos seus pais pela sobrevivência. Uns sucederam, outros sucumbiram. Uns avançaram, outros ficaram mais para trás. A maioria repete a história dos seus pais.

Recentemente, tenho percorrido bairros infinitamente duros - nada comparado com os locais da minha infância. Dali revejo a história de sempre de um povo, para quem a evolução de situação económica continua dificil. Compreendo, mais uma vez, como continuamos a ter pouca capacidade de escalada social. Para o fazermos de forma ética e justa, é uma luta descomunal.

E esse é mais um motivo para continuar a festejar Abril. Para mantermos viva a luta pela justiça, pelos direitos, pelas liberdades, mas também pelas responsabilidades.

Porque Abril não trouxe tudo, não resolveu tudo. Mas deu-nos a consciência, a liberdade, a possibilidade, de escolher os caminhos, de lutar, de dizer o que queremos. De defendermos os ideais políticos em que acreditamos. Sejam quais forem.

Assim, se me vires amanhã, não questiones onde vou, mas junta-te a nós e vamos continuar Abril.

Sonhar

Dormir, sonhar, acordar para a realidade.

Levantar, comer, trabalhar e recomeçar o ciclo.

A oscilação entre o onírico e o real equilibra, traz respostas, dizem.

Ou aumentam tristezas, quando o dia não é extensão do sonho, ou este mais não é que a continuidade do dia. Sem reparação. Sem recuperação. Sem descanso.

Numa sucessão incansável de horas sem sonhos, quando se prefere os sonhos sem horas.

Morte

Não é de morrer que eu tenho medo, é de morrer do medo:

De nada arriscar, para não perder;

De não amar para não sofrer.

Receio que a aproximação da morte me encolha e me faça desistir.

De perder o tempo, numa tentativa vã de me resguardar do inevitável.

De chegar ao fim e pensar que nunca cheguei a iniciar.

O medo de ser colhida, encolhida, esvaziada pelo medo de errar.

Não fazer, não decidir pois algures dentro de mim, receio a dor de me entregar.

O medo da morte lenta, de quem vive sem viver.

Noite

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Sentada à janela, no meu quarto, observo a noite lá fora.

A lua, imponente, ocupada pela dança de véus com que as nuvens sedutoramente a envolvem, oferece-se à visão dos sonhadores incautos, incitada pelos apelos do mar e aplaudida pela coruja que habita as noites do meu bairro.

Do lado de dentro do quarto, a cama vazia promete o calor que o corpo não encontra, cúmplice com a luz suave do candeeiro de cabeceira.

Entre o dentro e o fora, eu, perdida em pensamentos sonhados.

O piano de Satie embrulha-se no fumo do meu cigarro e leva-me para longe de mim.

Como invejo os artistas! 

Transformar em belo o quotidiano, pelo som, pela cor ou pelas palavras, e com arte exprimir tudo o que há para sonhar!

O fim do cigarro devolve-me ao interior do quarto, primeiro e da cama depois.

Entrego-me nos braços de Morfeu, ou a um qualquer deus dos sonos, e parto para um outro mundo - o dos sonhos - numa busca interminável de mim mesma.

Pode ser que um dia me reencontre.

Carta

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hoje, ao virar de uma página, tropecei nesta frase e automaticamente lembrei-me de ti.

É por isto que me fazes falta. Ou melhor, também é por isto que me fazes falta.

Muitas foram as ocasiões em que me impeliste a ir mais longe, a arriscar. 

Levaste-me a limites que me permitiram voltar a acreditar simplesmente em mim.

Juntamente com as conversas, desde os planos de me mandares para o Tibete estudar ou as discussões científico filosóficas, e os silêncios cheios de diálogos subentendidos, as risadas e as trocas de reclamações, é tanto isto que me lembra a tua ausência.

Mas, olha, sempre te digo que continuo a lutar. Por mim. E sei que terias alguma satisfação nisso. Não tem sido fácil, mas ainda não depus as armas. Achei que gostarias de saber.

Só mais uma coisa: há algo que já disse antes, mas nunca é demais dizer - obrigado por veres aquilo que eu teimava em não ser.

Até um dia destes.

Nevoeiro

Há algo no nevoeiro nocturno que me afecta.

A forma como subtilmente se instala, o frio que traz.

A humidade que se instala nas árvores, que pingam; gotas ruidosas contra o chão.

Os sons parecem ampliados: um ramo que estala, alguém que assobia.

Sons que chegam antes da imagem, como se nos trocassem as leis da física, confundindo os nossos sentidos.

O nevoeiro traz consigo a incerteza da vida, do que se segue, dos enganos dos sentidos.

Numa esperança de fuga, fechamos as janelas, as portadas.

Como que ignorando que, como o nevoeiro, também o medo e o desconforto subtilmente ocupa os sentidos, enquanto, lentamente se fecha um pouco mais a cortina do tempo, sobre o palco das existências. Inevitavelmente.

Mar

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Ah, e de repente ser como o mar!

Despir-me da placidez do meu espaço,

esquecer o azul do céu e criar uma tempestade.

Libertar toda a força da minha ira e destruir,

sem dó nem piedade,

os fios que me prendem a esta falsa tranquilidade.

Num impulso, deixar uma marca na rocha,

e abafar todo o som que me rodeia,

impludindo numa fúria que me atordoe.

Por fim, deixar-me afogar

na contra-maré da minha dor, dos meus medos,

da minha paixão.

E terminar.

 

Ansiedade

Sentar-me aqui, neste sítio, onde tantas vezes me sentei ao longo dos últimos (quase) nove anos.

Ansiosa das próximas horas que definirão continuidades, ou não.

A decoração mudou, as gentes que passam também. Eu infinitamente a mesma, embora tanto outra.

Nuns pontos mais rica, noutros de ferida aberta pelas perdas passadas e as iminentes, a sentir-me pobre.

Ansiosa.

Á espera de enfrentar o medo e as minhas feras interiores.

Vou contando minutos.

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