Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Entre ser e estar

Entre ser e estar

Única. Nem mais, nem menos

Tu és única. 

Nem mais, nem menos que qualquer outro.

Com todos os teus defeitos e qualidades.

Com o direito inato a errar, a falhar, até a ter as tuas irritações de estimação.

Desde que não te deixes dominar por elas.

São todas essas características que, misturadas, fazem de ti a pessoa única que és.

E é essa unicidade que te torna humana. 

Que te permite caminhar ombro a ombro, com os outros que te rodeiam.

Não à frente, nem atrás. Lado a lado, num passo desigual.

Essa tua colecção de características são fruto do teu passado; é no futuro que elas se vão projectar. Sem certezas, mas com sonhos.

Das experiências de que vais guardando memória, surgiu quem és.

A tua história, que outros podem comentar, mas só tu viveste. Só tu a poderias ter vivido.

Esse é o bem mais valioso que tens: seres tu.

Não te esqueças de te partilhar.

Fantasmas

Detesto dias parados.

Aqueles, em que o ruído quotidiano é insuficiente para calar os pensamentos.

São dias (e noites) em que apetece mergulhar nos vícios privados para apagar memórias, presentes ou sonhos inexistentes.

Ceder o norte ao terceiro copo de gin.

Por vezes, no meio das minhas deambulações pouco quiméricas, recordo os fantasmas com que me cruzo em cada dia.

Fantasmas reais, de carne e osso, que divagam pelas ruas da cidade, vazios. 

Cheios de passado incerto, mas vazios de futuro.

Fantasmas cujas linhas do rosto ignoramos.

Que nos contam histórias em que já não se revêem, nem acreditam.

Fantasmas da vida, vazios de tudo; sem futuro e com um passado semi-inventado.

Por vezes, ao ouvi-los, a ansiedade toma-me de assalto. Imagino-me entre eles, numa irmandade incorpórea. Mãos vazias, bolsos vazios, esquecida dum futuro ausente. Fantasma.

Até que me acalmo com a resignada compreensão de que parte de mim já lá está. 

Sou fantasma de uma vida sonhada, de futuro incerto. Sem garantias. Sem nada. Apenas com um passado para contar.

E ruas para palmear. 

Procuro

Procura-se alguém que me conte uma história feliz.

Não de contos de fadas. Uma bem real.

Os dias estão cheios de histórias tristes, feias. Por vezes verdadeiramente horrendas.

E eu hoje preciso de uma história feliz. 

Nem preciso de ser protagonista. Basta que exista por aí alguma, com gente de carne e osso a vivê-la.

Que me faça esquecer realidades presentes.

Cegueiras

Dizem que o pior cego é o que não quer ver, ou que o pior surdo é o que não quer ouvir.

Ou seja, somos nós.

Tantas foram as ocasiões em que foi mais fácil ignorar, o que estava bem visível. 

Não me parece que o tenhamos feito por facilitismo. N

quando o custo é esta insatisfação, esta dor interna, intensa. Acredito que foi o medo do que vem a seguir. De assumir em pleno o que somos. Ou não somos.

E fomos de cegueira, em cegueira, a desperdiçar momentos, até nos apercebermos que o tal, o especial, aquele momento que tanto desejámos, já passou.

E ficamos então cegos de lágrimas a criar desculpas para o que não se viveu.

Sono induzido

Deitada na cama, no escuro do quarto. O corpo a estranhar este calor súbito que se instalou. 

Penso no dia, nos vivos que me acompanham, nos mortos que me visitam em sonhos.

Deixo a dormência espalhar-se lentamente, enquanto espero que o comprimido para dormir faça efeito e me transporte para outras realidades.

Numa luta entre esquecimento e vontade de recordar, imagino mundos paralelos onde todos nos cruzamos, onde o tempo e o espaço não importa. 

Aguardo que o sonho tome mais as rédeas, cale os pensamentos e desperte a ilusão dum sono induzido.

Em silêncio, até amanhã, tudo será  real de novo. Por uma vez serei mais do que estarei. Pelo menos até ao toque do despertador.

Sem pressa

 

IMG_20190506_201427.jpg

Fui andando sem pressa, pela vida, resistindo à pressão do tempo, na estranha ilusão de que havia muito.

Hoje vejo o erro e reconheço que o tempo, ao invés da distância, é curto, e apercebo-me, com inusitada clareza do muito que foi perdido.

Do muito que já não é. Do imenso que já não vou ser.

 E de como o infinito, que alguns tomam por eterno, se mede em saudades, em desejos por cumprir e em relógios desencontrados.

Monólogos

Sabes aquela sensação de tudo parecer estar fora do lugar?

É assim que me sinto.

E no entanto, os outros estão no seu lugar certo.

O erro, aqui, é meu.

O deslocamento é meu. E parece-me ser essencialmente de mim.

Acho que já te disse isto antes, mas a vida cansa-me.

Não que me apeteça deixá-la, mas há dias em que me pesa muito.

Já sei o que vais dizer, que devemos encontrar os pequenos prazeres e torná-los grandes.

Mas que queres? Neste momento é muito difícil.

Sei lá,  talvez me tenha dado para a megalomania, mas a verdade é que isso dos pequenos prazeres não me convence nada.

Não sei.

Só sei e reconheço esta espécie de vazio, cheio dos nadas que tudo me traz.

É assim. 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D