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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Marés

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Apanhou-me desatenta, algures entre o ser e o estar, sem expectativas, sem guardas de proteccção.

Num movimento contínuo, estudado, ocupou todo o meu espaço, espraiando-se por entre as sombras da minha imaginação.

Como se de um mar se tratasse, vinha por marés;

ora ruidoso e violento, ora suave e silencioso, foi tornando sua a minha existência, enquanto impregnava a minha pele de cheiros, ventos, sensações, tumultuosas emoções.

A tudo nos entregámos, sem poesia nem pudor. 

Completos, inconscientes, cúmplices, amantes nas maresias.

Até nos estendermos pela praia; fartos, satisfeitos, diluídos um no outro.

Almas siamesas, separadas e reencontradas.

Promessas

Detesto que me peçam promessas.

Criam em mim uma ansiedade, principalmente quando não as cobram. Porque me deixa uma sensação de estar em falta e nem poder fazer a tradicional birra ("estás sempre a falar nisso, por isso não faço").

Mas depois de muito lutar contra algumas promessas, a consciência, esse maldito grilo falante, diz que está na hora e lá me contrario e cumpro o prometido.

Estranhamente, a seguir, em vez de me sentir esfusiante, por ter mostrado a minha "raça", força, integridade, seja lá o qque quiserem chamar, tudo o que sinto é uma espécie de náusea. Como se fosse uma forma do corpo se revoltar contra aquilo que não sou ou não quero.

A cadeira

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Uma cadeira, presa a uma árvore.

Um espaço vazio, guardado por uma árvore (ou será que é a árvore a guardada?).

Inquietações são despertas, numa tentativa de ocupar o espaço vazio deixado no assento de palha, numa tentativa de ocupar outros vazios também.

Onde estará o seu dono? Será que descansa noutro ponto, abandonando à sua sorte a cadeira prisioneira, despida da sua função, exposta, criando a ilusão de não conseguir cumprir o seu destino.

Mas a cadeira está lá. E funciona também como convite a quem passa.

A hesitação de ocupar o espaço de outro, à sombra.

A tentação de encostar a cabeça à árvore e sonhar sonhos alheios.

A cadeira como simbólico de alguma vida, deixada por alguém/deus que a deixa ali com uma intenção desconhecida, em que a cadeira abandonada não percebe que ainda tem a sua função intacta;

quem se senta, não entende que é apenas um utente temporário e não é dono de nada;

quem não se senta, declina a oferta evidente e recusa participar no jogo.

Ou de quem, como eu, observa e se limita a imaginar histórias / vivências, evitando o papel activo na dança da cadeira.

Resposta

Perguntaste-me esta noite quando é que eu o ia dizer. Disseste-me claramente "a mulher que escreve tudo o que lhe passa pela cabeça; quando o vais dizer?" 

Respondo-te agora: nunca.

E não me venhas com a história de que ainda há tempo, que ainda é possível. Não é. 

Não na minha realidade. Portanto, agradeço que não insistas.

Porque há coisas que não dependem só de nós. Que vão magoar outros. Ou que simplesmente já não podem ser. 

E não há nenhum sinal que me envies, seja por voz, seja por sinais de fumo, que me convença do contrário.

E ficamos assim.

Ausências

Quase 2h da manhã.

O corpo cansado pede repouso, mas a cabeça hesita em descansar.

Medo de dormir, de sonhar com os mesmos sonhos recorrentes, os personagens de sempre.

A estranha sensação de desperdiçar tempo ao dormir, mas a razão e o cansaço a desbravar terreno para o sono.

Apetece-me escrever, mas não encontro tema para além da própria ausência de temática.

E no entanto, dentro das palavras soltas, todo um universo de possibilidades se apresenta. Palavras como Tempo. Razão. Ausência.

Mas nada surge. Aliás, surgem memórias soltas, pequenas partes de episódios guardados na mente que eu, apaixonada das memórias, ironicamente não consigo entender a razão da sua evocação. Um espécie de autoironia, que recorda o pouco que se sabe.

Depois a voz interior que agita uma bandeira de alarme, a lembrar que devo estar atenta. Que estes textos se vão tornando cada vez mais pessoais, mais explícitos, desnudando o meu eu. Abrindo brechas no meu muro do resguardo.

Será uma forma de complementar as ausências, tornando-me una com as frestas do muro?.

Hesito em publicar mais esta nota, mas deixá-la perdida no fundo de uma qualquer gaveta só a vai tornar mais vívida dentro de mim. A publicaçãode angústias como moeda de troca pela libertação de angústias.

Salva-me o sorriso de saber que também não vão longe. 

opostos

O céu e o chão;

Este e oeste, norte e sul, frio e quente, escuro e claro.

Todos os opostos do mundo que não vivem em separado.

Assim eramos, assim somos ainda.

No riso e na tristeza, na irritação e no riso.

Dois num ser só, nunca a caminho do trio; um dividido em dois, umbilicalmente ligados.

Intensos nas oposições, complementares nas iniciações, integros, integrados, 

inteirados, inteiros.

Assim eramos, assim somos ainda, assim seremos no futuro.

Opostos mas semelhantes, nas teimosias como nas paixões.

Semelhantes mas opostos, nos minutos que antecedem a hora, o êxtase, ou a morte.

Ratos

Estava hoje a trabalhar, abstraída na vida fora do trabalho, quando pelo reflexo no carro vejo um homem a aproximar-se agachado.

Com as mãos postas em jeito de espingarda imaginada olhou-me, sério: "Tem por aí ratos?"

Também séria respondi que não. Na nossa carrinha não existiam ratos.

"Tem a certeza?" reforçou com olhar atento na minha expressão.

"Garantidamente aqui não há ratos".

"OK. Desculpe lá, mas então vou continuar a caçar ratos". E lá foi meio agachado, com a sua espingarda feita de mãos, em busca de ratos da cidade.

Juro.

Juro que naquele momento me apeteceu largar tudo, pegar na minha espingarda imaginária e ir com ele, agachar-me por esta vida fora a caçar ratos disfarçados.

Cansaços

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Há dias em que o corpo nos resiste e diz que é dia de parar, mas o tempo não pára,  as obrigações não esquecem e ignoramos os sinais.

Entre a vontade do corpo e a necessidade do quotidiano ergue-se um muro, barreira de travagem de conflitos internos que só desgastam mais.

Controlamos o corpo, que nos deixa pequenos avisos e impomos um sorriso como forma de batalha.

Entretanto marcamos num temporizador imaterializado o tempo que está por acabar. 

Acordares

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Acordo de um sonho que não queria ter e para o qual não quero voltar.

Deambulo pela casa, bebo o ja tradicional copo de água enquanto tento descrutinar mensagens no que ainda está fresco na memória.

Porquê sonhar com mortos? O que significa sonhar com a própria morte? Onde está a vida ausente do sonho?

Os passos sonâmbulos levam à janela e vou acordando para os sons que vêm de fora.

As andorinhas. As crias de pássaros que não identifico a pedir alimento às mães.

Mais longe, cada uma no seu extremo do bairro, duas corujas envolvem-se num diálogo, quem sabe a combinar a caçada da próxima noite antes de irem dormir o dia.

As gaivotas que se mudaram para terra, e nidificam agora sobre os telhados. 

Os sons despertam os outros sentidos, a visão liberta-se do onírico e descobre tons suaves de rosa que, minuto a minuto, vão ganhando novo fulgor.

É o sol que se prepara para fazer a sua entrada majestosa em nascer de dia semi nublado.

Então era aqui que estava, a vida ausente do meu sonho! Num nascer de dia pujante.

O fresco chega finamente à pele, devolvendo o sorriso à minha alma e reconfortada retorno aos lençóis em busca de sonhos mais coloridos, que me devolvam a vida. 

De novo eu

Eu sou a que não mais alberga a esperança.

Que voga sem destino, sem caminho traçado.

Sem medos, nem expectativas,

Que continua um caminho indeterminado, 

Sem alegres companhias.

Para mim não quero penas ou prédicas,

De crentes amoralizados,

Em cujas palavras procuram a sua própria salvação.

Dos outros nada mais quero que a observação compadecida das minhas paixões desmedidas e abandonadas.

Enquanto sigo indecisa por caminhos, provavelmente enganados,

Em busca de algo que sei já não existir.

Descrente na minha estrada,

Duvidosa mesmo do meu próprio existir. 

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