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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Dor(mência)

Há dias em que meto, voluntariamente, o dedo pela ferida adentro.

De modo a sentir a dor a fundo, a atingir-me o estômago, o coração. 

As vias nervosas sensoriais, sensitivas, reactivas, a acordarem violentamente, obrigando os músculos a contraírem-se até chegar ao âmago do meu ser, da minha alma, do meu todo. 

Tudo para me certificar que ainda sinto. Que ainda respiro. Que ainda vivo. 

Que quebro a dormência em que me tornei. 

Uma árvore

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Uma árvore - adulta, robusta, viva e resistente. Iluminada sobre o fundo escuro da noite, deixando entrever a sua folhagem, as suas marcas no tronco, as cicatrizes dos anos.

Ao longe pressente-se a sua presença / beleza, intuitivamente através do sussurrar do vento nas folhas, do canto dos grilos aos seus pés, no discreto aroma da sua seiva. 

Não lhe conhecemos o nome, nem a real idade. A noite apenas ilumina a imaginação.

E no entanto lá está ela, levemente iluminada, a lutar para se manter no mundo visível, materializado nos sentidos. 

Quase perfeita imagem da luta de um coração contra o negrume da noite instalada na razão. 

Rebeldias

Há algo de verdadeiramente prazeroso em se alinhar numa rebeldia tardia.

Esqueçam a rebeldia da adolescência, atempada ou tardia! Absolutamente essencial, é, no entanto, vivida sofregamente, num desafio aos limites dos outros. São saboreadas a cru. Retirámos prazer, lições, mas faltou o tempero da surpresa.

Não a nossa surpresa. A surpresa dos outros.

Falo da rebeldia dos 'entas. Tão comum nos homens como nas mulheres, quem está de fora chama-lhe a crise dos cinquenta.

Tudo isto traz-me à memória a frase "quando lá chegares, entendes".

Mas é absolutamente delicioso ver os olhos do outro, colados aos nossos, enquanto puxamos de um cigarro, pedimos uma imperial, em vez do costumeiro café, e contamos o que aconteceu na véspera, ao quebramos uma qualquer regra básica. 

É aí que hesitam se hão de perguntar "mas tu agora bebes cerveja" ou "desde quando fumas". Qualquer delas seguida de um "tu nunca..."

E é nesse "tu nunca" que, de uma forma levemente infantil, vamos buscar parte do prazer da rebeldia dos 'entas.

O resto do prazer vem da redescoberta dos nossos limites autoimpostos e da beleza de nos sabermos capazes de os quebrar.

A possibilidade (e capacidade) de fazer aquilo que nos tínhamos proibido de fazer.

A derradeira liberdade. 

Puzzle

Numa espécie de tradição, ou rotina, de férias, surge a resolução de um puzzle.

Peça a peça, a imagem vai sendo construída.

Normalmente, em cada peça / troço de construção iria aliado um sonho, ou uma encenação imaginada para um evento sonhado.

Este ano, os sonhos evadiram-se de mim e, talvez por influência da magna carta em construção, foram substituídos por uma teia de pensamentos realistas quanto ao futuro.

Seria a necessidade de tomar decisões a enraizar os pés em terra firme?

Peça puxa peça, e ligação a ligação foi-se delineando o o mapa e a sua moldura. Daí a passar à construção de um plano futuro, foi uma peça de puzzle encaixada.

Mesa de trabalho de um lado; pc do outro, e eis-me lançada na construção de um plano imenso, desenhado à laia de apresentação pública esquematizada em powerpoint, com cada diapositivo a definir uma área da vida a ser remexida.

Esquemas e fluxogramas a indicar caminhos, possibilidades, alternativas, desistências.

Tudo numa construção ébria de quem se sabe com mais passado que futuro, a centrar objectivos num ponto: Eu.

De repente, surge a tontura.

Não a tonteria de saber que não se muda toda uma vida aos 50, a consciência não chegou a tanto.

Mas uma tontura de ansiedade. A certeza, baseada na experiência de, sempre que planeio algo, a vida se encarrega de tombar-me os planos. Acontecimentos para lá do meu controlo a dizer "não não vais por aí, como pensaste".

Então que dizer de um plano multi-nível, a mexer em quase todas as áreas do meu ser? em quase todas as minhas fibras emocionalmente racionais?

Entre o nervoso e desafiante, comecei a sorrir "Vá vida, mostra lá o que consegues derrubar daqui. Por onde me vais tentar tombar?"

E, reconhecedora da minha própria finitude, pensei que tudo poderia ser arrasado em simultâneo.

Tremi.

Voltei ao puzzle. "Pelo menos que o mapa fique pronto e as peças retornem à caixa antes de mim"

Nunca se sabe o que a vida nos traz, a atrapalhar os puzzles da existência.

Nevoeiro

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Hoje senti a praia como uma extensão da fase que atravesso.

Um nevoeiro imenso cobria o mar e parte do areal, deixando imprecisões quanto à paisagem circundante.

Larguei as coisas na areia e aproximei-me do mar.

Uma imensa extensão defronte de mim, que ao imediatamente perto se revelava límpido, mas que ao longe era um mistério total. Mar e céu, um único só cinzento.

Senti-o como se da vida se tratasse. O mar na frente convidativo, com uma temperatura agradável, mas sem capacidade de ler os sinais das vagas que se aproximavam. Quando as percebia, já não era tempo de recuar. Não reconhecia riscos. Não havia certezas do que se seguia. Do que estava ou do que podia resultar.

Assim, deixo-me ficar com a água a molhar-me as pernas.

À volta ouço vozes, mas a neblina esconde a sua origem. Sabemos que o outro está lá, mas não o reconhecemos. Não o vemos. Não sabemos quem é, quem vem, quem se afasta. Nem sabemos se lá estão efectivamente, ou se fazem parte dos nossos fantasmas. Se vêm por nós ou contra nós.

O senso comum diz que mergulhar está fora de questão. 

Os sentidos alertam-me para a tolice que seria fazê-lo num mar em que não adivinho o que vem, em que não sei o tamanho das vagas.

Mas o calor do mar e a vontade de quebrar barreiras fazem hesitar.

"Se algo correr mal, há possibilidades de não te verem" insiste o racional. 

Num movimento interior atípico, sinto o riso do desafio a crescer. A vontade de desobedecer. Quase infantil.

"Seja como a vida. Um mar de risco, mas não vás longe demais" é a minha resposta interna.

Olho o mar, a tentar perceber o seu movimento. Continua imperscrutável. Como o futuro.

Sinto a ansiedade a crescer no peito, viro costas ao mar e recuo para a areia.

Ganho folego, mudo de direcção e volto a avançar. 

Contrario as indicações, o racional, o medo e mergulho no desconhecido.

Ao regressar à tona de água reconheço o prazer da água levemente fria no corpo, o sal na pele e no gosto.

Sorrio e penso o quanto soube bem. O quanto valeu a pena. 

À medida que volto para a areia, ainda com os pés dentro de água, tenho um último pensamento.

"Estou pronta. Agora só falta encontrar um novo mar onde mergulhar."

chamuscos

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A vida vai-nos pondo à prova, deixando-nos marcas no corpo.

São balas disparadas à queima-roupa, lumes que nos tocam à flor da pele.

Resistimos, debatemo-nos, esfolamo-nos a dar o máximo, a aguentar o que a vida traz.

Um dia apercebemo-nos que foi demais e que os nossos sentimentos ao invés de clarearem num cristal, enegrecem-se carbonizados, sem esperança de voltar a florescer. 

Rodeia-nos a vida, e até participamos dela.

Mas por dentro fica um vazio; a falta de sangue nas veias; a ausência de um todo que nos alimente a esperança.

E esperamos, sem coragem para decisões. Esperamos uma nova primavera.

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