Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Entre ser e estar

Entre ser e estar

Mãos nos meus ombros.

Sonhei contigo esta noite. 

Falavas comigo, olhos nos olhos como era habitual. 

As tuas mãos pousadas nos meus ombros, apertavam, talvez para impedir a minha fuga, talvez para evitar que voasses com uma qualquer corrente de ar.

Como é hábito da minha infiel atenção, não ouvi nada do que disseste. Fixei-me no pormenor das mãos sobre os meus ombros.

Nada de novo. Perco o essencial fixando um qualquer pormenor significativo apenas para mim.

Acordei com a sensação de algo estar fora do quotidiano, de deslocamento. 

Sacudi os ombros sob a água do chuveiro. Mas as mãos continuam lá, sobre os ombros.

Foi quando olhei para a data que percebi. Instintivamente pus a minha mão no ombro, em busca da tua. 

Por favor, não tires as mãos dos meus ombros hoje. Põe sobre eles todo o peso que puderes.

Desconfio que sou eu que o vento leva hoje se não me agarrares. 

Sonhos

Voltou esta noite um dos meus sonhos mais recorrentes - o das viagens. 

É algo que surge de forma frequente e variada. Já parti de carro, de autocarro, de barco e de avião.

Fui para paragens paradisíacamente tropicais e incrivelmente geladas. Para o campo e para a cidade.

Sozinha ou acompanhada. Por vezes a acompanhada por pessoas que só no sonho conheço. 

Numa tentativa de fuga, não interessa para onde, que a realidade não permite.

A aventura que quebra desventuras do quotidiano. 

Repouso

Repouso.

Estranha palavra que remete para a ideia de um pousar repetido.

Um pousar de corpo que leva a cabeça a múltiplos e súbitos pousios, à maneira precisa de pardal irrequieto. 

Descobrimos cantos que julgávamos resolvidos e revemos os por resolver. 

Em momentos de sorte a revisão leva a concluir que sim, aquele é um assunto arrumado. 

E assim vamos de pouso em repouso até o cansaço tomar conta de nós e fecharmos de novo o acesso aos recantos com uma qualquer chave, natural ou química. 

 

Velhices

A quem tem mais de 50 chamamos cotas. Pré-velhos. Como a esperança de vida aumentou muito, já não são velhos. Mas...

Têm indubitavelmente conhecimentos, mas desactualizados. 

O andar mais lento, de quem percebe que as corridas só servem para cansar, é entendido como perda de força e energia. 

Desinveste-se. 

Não se pensa neles como potencial para o trabalho, para papéis activos e inovadores, para relações, de qualquer género, fora de padrões preestabelecidos para cinquentões. 

E isto choca, melhor, zanga-me mais quando sei que esta atitude parte de quem já está nessa idade, alimentando assim a sua própria desvalorização. Como se achassem que estarem rodeados de jovem fosse uma espécie de vacina.

Dando desta forma o exemplo prático indicações para a forma que eles próprios devem ser tratados. Com a deferência devida aos velhos  a quem não se reconhece o valor actual. 

 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D