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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Nevoeiros

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Adoro o nevoeiro. 

A ampliação de sons e cheiros.

A incerteza do que se segue.

Se nos dermos ao trabalho e à imaginação, quase que reinventamos o mundo nesta ausência de distância.

A única dificuldade é reinventar-me a mim mesma.

Para isso não há nevoeiro suficientemente cerrado que me inspire. 

Lisboa à noite

Estamos na noite de Lisboa, mas podia ser outra cidade qualquer. Percorremos as ruas, mais ou menos iluminadas, e vamos de encontro a quem a outros procura oferecer prazer. 

Podemos, conversar, fingir acreditar que um dia faremos a diferença, que algo irá mudar; quem sabe um dia. 

Em cada esquina, em tantas esquinas, corpos que esperam, algo que se entrega, numa troca mais antiga que o próprio tempo.

Observamos o declínio que se vai instalando. Declínio da cidade, declínio dos corpos, numa valsa que parece nunca terminar. 

Um acordo tácito entre quem pode e quem não pode, divide a cidade entre os que têm, os que não têm e os muitos que se tentam equilibrar a meio. 

Em tantas esquinas, gente que é feita carne, tenta sair de desesperos para cair em desesperos maiores.

A cada passo ignoradas por quem as não procura, vão esperando por um futuro que se pressente cada vez mais longe, menos real.

Numa espécie de rebeldia forçada aos tempos de positivismo que diz que a tristeza não é o essencial.

E, no entanto, em cada uma daquelas ruas da noite de Lisboa, não é riso que se ouve. Apenas silêncios murmurantes daquilo que a boca cala e o corpo sente. Daquilo que o corpo diz e a mente ignora. Daquilo que tantos não ignoram e consentem. 

Da mais velha profissão do mundo, na cidade velha que as acolhe. 

 

Domingo de manhã

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Domingo. 7h da manhã.

Há algo, indefinido, antipático, irreconhecível, que me acorda. 

Acabo por me levantar e, atraída por um som desconhecido, vou para a varanda. 

O céu, impecável no seu azul, abriga os primeiros voos dos pássaros que nos habitam.

Os cantos são afinados alguns, dissonantes outros, encantadores todos.

Sigo-lhes o voo. Infelizmente apenas com o olhar, que as asas ultimamente me andam um pouco encolhidas. 

Recolecto os cantos, e em recantos da memória vou atribuindo nomes ao que os sentidos me trazem. 

Ali na ponta do ramo está um pardal. Este canto ao desafio é dos melros. O piriquito do 3º direito. O voo pesado dos pombos. Um gaio que me olha com a mesma curiosidade com que eu me encontro aqui.

Penso no delicioso que é este momento do dia em que o sol se levanta, madrugador, lentamente, e o mundo parece só pertencer às aves do bairro.

Reconheço-lhes o canto, como reconheço os meus próprios cantos internos. 

Nisto algo me desperta os sentidos, numa espécie de alerta. Um som novo. Um pássaro que não vejo, e cujo cantar não reconheço. Não identifico. Sinto um pouco de ansiedade dentro de mim. O receio dos cantos desconhecidos. Que coincidência! Um canto novo numa altura em que descubro cantos internos que não sabia lá estarem. Território interno por desbravar. Respiro. Será esta, então, a banda sonora dos meus descobrimentos particulares? 

O sol, entretanto transformado numa imponente bola laranja, recorda-me que é domingo. 7h30 da manhã.

Ah, o prazer da preguiça domingueira arrasta-me de volta à cama, num sorriso cúmplice com os lençóis. Deixo as rotas marítimas da descoberta dos novos cantos do meu Eu para o doce regresso ao momento onírico em que me desbravo sem temor ou pudor. Numa esperança que a memória dos sonhos guarde mensagem.

Afinal, descubro, é para isto que os domingos de manhã servem. 

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