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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Tempo

Esta noite, ainda estava longe a madrugada, acordei agitada.

Estava sentada na cama, a tirar o relógio do pulso e a atirá-lo à parede no preciso momento em que retomei consciência.

A zanga interna era enorme!

Que sonho a causou, o que provocou todo aquele reboliço, não faço ideia.

Fiquei uma hora a tentar recuperar o descanso, e lá acabei por adormecer quando os pássaros começavam a dar os primeiros sinais de alvorada.

Durante o dia a zanga esbateu-se, dando lugar a um humor que eu diria normal. Nem muito à alegria, nem muito à tristeza.

Mas, agora que a noite se revela nos silencios, nas horas em que o ritmo abranda, parece que a zanga espreita, trazendo consigo a tristeza. E percebo o porquê da ira contra o relógio.

É a ira contra o tempo, que não chega.

O regresso da sensação aumentada de que já vou tarde.

Chá das cinco

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Sento-me defronte do meu chá quente, para combater o frio da rua. 

Atrás de mim sentam-se um grupo de senhoras que entraram num ruído quase adolescente, risonhas e a brincar umas com as outras. Debatem o lanche. Observo disfarçadamente, como se buscasse algo. Uma delas ajeita o cabelo imaculadamente branco enquanto diz, divertida "eu, em nova, a comer um babá?! Nunca! Agora nem quero saber". 

Sorrio perante os prazeres pemitidos da adulticie. 

Na minha frente, um homem sózinho. A dada altura resmunga para o telemóvel, enquanto bebe o seu café.

Volto para o meu caderno.

Alguns minutos depois sou despertada do meu mundo interior, pelo som de um beijo. É a amiga que chegou.

"Não esperava que o teu processo fosse tão célere";

"O que é que isso quer dizer?";

"Não esperava que chegasses tão cedo". O diálogo torna-se inaudível. Desconfio que para eles também. De repente regressam.

"Estás bem, estás"

"Como assim? Não gostas?"

"Se digo que estás bem é porque está bom"

Ela deve ter ficado desconfiada, porque ele acrescenta:

"Devias comprar um difusor"

"Um quê?"

"Dizem que é bom para quem tem caracóis".

Não resisto e levanto os olhos. Como esperava, ele não olha para ela.

Deixo de os ouvir de novo até que um mais elevado "Das duas uma: ou dás a mão à palmatória ou dás o braço a torcer". Novo silêncio. Absorvo os meus pensamentos nesta imagem violenta para dizer a alguém que tem de ceder ou ceder. 

Ma sinfelizmente o tempo real chama por mim. Pago o chá e dou uma vista de olhos à volta.

Ela deve ter dado o braço a torcer, pois ri animadamente enquanto ele fala.

Lá atrás discute-se a educação dos jovens entre garfadas de babá. Netos talvez, pelo tom sério.

Sorrio enquanto arrumo as minhas coisas. As saudades que eu tinha de ter tempo para ser apenas a observadora!

Saio, com pena acrescida, pois na mesa ao lado começava uma conversa animada sobre comandos de garagem. 

 

Até amanhã(s)

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Em cada final de dia, a promessa do dia seguinte.

Embala-me a esperança de ultrapassar a noite, de lhe sobreviver, de resistir.

Para que no próximo final de dia, consiga assistir a mais um pôr-de-sol.

Será essa a minha motivação? Receber os nasceres, para assistir aos finais. Uns espectaculares, outros nem tantos. Tantos que nem damos por eles!

Cada final de ciclo a promessa de um novo ciclo. Também estes frequentemente seguidos por um período de sombras.

Dia após dia. Ano após ano. Experiência após experiência.

Sem outra alternativa que receber a dádiva de momentos.

Despedimo-nos com até breves, até amanhãs, até sempres.

Cada dia, uma benção, que sempre temos a sabedoria de aproveitar. Mesmo quando não aproveitamos, calando palavras que deveriam ter sido ditas. Mas dias.

Dia a dia. Nascer de sol em nascer de sol. De pôr de sol a pôr de sol.

Até que.

 

Jogos lunares

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Espreitas por um tubo onde, do negro, surge uma imagem difusa.

De repente tudo se clarifica e espantas-te a ver a lua, cada vez mais próxima do outro lado do escuro. Meio escondida pelos ramos que se interpõem.

Ficas um tempo a espreitar. De vez em quando olhas sem o tubo intermediário e percebes a realidade da distância.

Aumentas a distância, diminuis; aumentas a nitidez, reduzes. Brincas com a imagem ilusória de uma realidade distante.

O tempo perde-se neste jogo de escondidas. Adaptas o ângulo ao seu movimento.

De repente, a dúvida.

Será que és tu que a espreitas ou é ela que te espreita a ti? Os teus pensamentos serão teus, ou num passo de magia é ela que tos transmite?

Surge um arrepio. Não percebes se é emoção, ou mesmo frio.

Decides que a lua distante, permanece indiferente ao que fazes ou pensas. 

Melhor assim, que há pensamentos e acções que não se partilham.

Assim deve ser. Mesmo nas noites em que ela espreita por entre os cortinados, anunciando mais uma insónia.

História desencantada

Era uma vez uma rapariga que cresceu mulher num mundo de pouca cor.

Não era tudo cinzento, mas como a luz surgia filtrada pelo pó do quotidiano, as cores surgiam esbatidas.

Um dia, a rapariga/mulher viu um buraco. Uma espécie de abertura, para um espaço onde a poeira parecia mais fina. Respirava-se melhor, as cores eram mais vibrantes.

A rapariga /mulher observou por um tempo e discretamente começou a esgueirar-se para o outro lado do buraco, para o outro lado do mundo.

Quando estava quase lá, sentiu uma pressão e percebeu que o buraco se fechava em torno das suas pernas, puxando-a de volta ao seu lugar.

A mulher (pois ali deixara de ser rapariga) lutou para se manter do lado que descobrira, mas nada resultou. Aos poucos foi regressando, despedindo-se de olhos secos do que descobrira, do que sentira ser parte de si. Guardando memórias para quebrar o cinza para onde voltava. 

Diz quem a viu que voltou aos seus passos antigos com menos sonhos, menos expectativas, sem azedume desnecessários. 

A tentar guardar a cor dentro de si. 

Lista de compras

 

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"Querida amiga,

Espero que não te importes, mas acabei por dar uma vista de olhos às tuas reservas.

Reparei que há múltiplas ausências na tua despensa e tomei a liberdade de te fazer uma pequena lista de compras para te abasteceres no próximo fim de semana.

Considero todas elas indispensáveis.

Águas variadas - simples, com gás, com sabores... Nunca se sabe quando surge mais algum sapo a engolir.

Café - deixa de dormir na forma, que o tempo é irrecuperável! 

Mel, para te adoçar. Caso não tenhas reparado essa dieta de doçura que andas a seguir está a dar cabo de ti e de quem convive contigo.

Massa - da comestível, que a outra só a traz do mercado quem lá trabalha. E mesmo às vezes...

Fósforos e velas, para alumiar essa noite em que pareces mergulhada.

Ternura em saquetas, para saborear em dias suaves e noites tranquilas.

Molho agridoce, para temperar a carne. Mais doce que agri, que de agruras já tu andas cheia.

Antinodoas, para as tirares da tua vida.

Sal. Marinho de preferência. Que já chega de momentos insossos. E já agora, um pouco de picante. Faz bem à circulação e ajuda a eliminar toxinas. 

Letrinhas para a sopa, e para construires as palavras que não consegues deitar cá para fora.

Antinodoas, para as tirares da tua vida.

Uma fita métrica, para medires as distâncias e assim perceberes quando as deves encurtar.

Embora as festas já tenham terminado, traz sonhos. São bons em qualquer momento ou lugar. 

Amor e carinho, de preferência aos kilos. Distribui metade por aqueles que os pedem e te merecem e com a outra metade enche a banheira e mergulha-te lá dentro. Porque, sem dúvida, os mereces. Não os guardes. Não são para conservar em prateleira.

E já agora um bom vinho. Tinto, como tu gostas. Para brindar a belas memórias. Alegres ou tristes. Todas fazem parte de quem és. 

Para já acho que chega. Daqui por uns tempos voltaremos a fazer o inventário.

Com um abraço de carinho para a viagem, que se prevê longa

Assino:

Tu mesma"

"até ao infinito e mais além"

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Hoje, estava eu numa aula de hidroginástica, quando após um faux-pas, seguido de uma irrigação nasal com água da piscina, tive uma epifania (sempre quis ter uma ocasião para usar esta palavra).

Eu. Numa piscina. A fazer exercício (tudo coisas pouco naturais em mim). Quase me afogo. Penso que não consigo levar os exercícios até ao fim. Penso é desta que perco um braço ou me salta um abdominal pela boca. E no entanto, para além do cansaço natural e do crónico cheiro a cloro, sigo em frente.

Não desisto a meio. Faço tudo o melhor possível. Ultrapasso os meus limites. 

Então porque raios não é assim na vida fora de água? 

Após considerar a primeira hipótese de daqui em diante ficar a viver dentro de agua, e a ter percebido impraticável, cheguei à conclusão que afinal o céu pode ser mesmo o meu limite.

Daqui para a frente também eu adopto o lema "até ao infinito e mais além".

Pelo menos até que a próxima cabeçada numa parede me devolva à realidade ou passar o efeito do cloro nas narinas.

2020, vamos a isso?

 

 

2020

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Ah, fosse assim verdade! Mas há coisas para as quais o tempo se tornou improvável, para não dizer impossível.

Mas deixemos, por um breve momento, a imaginação acreditar.

Sonhar que ainda é possível. 

E então, perder timidez, inseguranças e avançar.

Tomar nas minhas mãos o coração, a inteligência e a vontade, e ser. Ousar ser. Tudo o que não foi ainda. 

Um riso surge de dentro de mim em uníssono com um grito (de ipiranga, talvez). 

Pois assim seja. 

Que 2020 seja o início, ou o fim, como à vida aprouver. A vi(r)agem que se inicie. 

Destino? Os céus sem limites ou os confins do inferno, tanto me faz o que lhe chamem. Só não quero continuar parada a meio caminho.

Se alguém por aí for crente, que reze por mim, que eu há muito deixei de crer. 

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