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Entre ser e estar

Entre ser e estar

Sobe

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A visão nublada não ajuda a esclarecer se o que faço é subir ou descer. 

O corpo impele para cima, as pernas fazem o esforço da subida, mas a alma diz que desço.

Fundo, fundo, às profundezas dos meus infernos pessoais. 

Sobe, dizem-me, sobe. O teu caminho é sempre a subir.  

No entanto, vou acompanhada da gargalhada dos meus demónios, a ironizar "sobe sobe, que lá em baixo vais te sentir bem".

Sinto que vendi a alma ao diabo, compactuei com o que não fazia sentido, sem glória nem proveito.

Convencida de ir no caminho certo.

E agora?

Atrás de mim, portas fechadas por dentro. 

Pela frente a subida, a venda da alma aos infernos. 

Ficar aqui, é a espera da morte. 

Onde foi que desemboquei?

Procuro discutir com os demónios que me atormentam. 

"Eu fiz o que estava certo" é o meu grito interno. 

"Então como vieste aqui parar? Sobe, sobe. Ou fica à espera. Assim como assim, ninguém vai reparar".

Sobe, sobe. E prepara-te para descer. 

 

de olhos fechados

De olhos fechados, pelo caminho, deixo que me conduzas.

O corpo, que responde às leis da física, vai-me desenhando um caminho que adivinho.

Por vezes um cheiro, um aroma suavemente conhecido.

Encosto a cabeça, sorrio e peço-te que abras as janelas.

O vento varre-me as ideias, enquanto me emaranha os cabelos,

mas o sorriso instala-se, no corpo como na alma,

perante  o desconhecimento do caminho,

mas o reconhecimento de mim e de ti.

De olhos fechados, sou capaz de te desenhar a carvão,

ou mesmo a aguarela, 

na minha memória, ponto a ponto, centímetro a centímetro,

defeito a qualidade, calor a calor.

Os sentidos alerta dizem-me que olhas para mim.

"Presta atenção à estrada. Não os quero fechar de vez".

Mas também não os quero abrir.

Ainda não.

A caminho

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Imagem alterada pela velocidade, a cabeça longe, longe, cada vez mais longe.

Perdida de mim, não faço um esforço para a recuperar.

A velocidade, deixo de a medir em quilómetros por hora.

Passa a pensamentos por segundo.

De tão rápido sinto o enjoo a tomar conta de mim.

A culpa é das pintinhas sobre a janela que não me deixam ver a paisagem.

Que a adultera. Que a desmancha. Que me desmancha.

Desta vez, não são as lágrimas que me toldam a vista.

É tão só a ausência de paisagem nítida.

Desta vez, não é a tua ausência.

É a minha permanência.

Sou eu que estou em questão.

Sou eu que estou no centro.

Sou eu que não estou.

Mas sou.

Retrato do autor sem ninguém lá dentro

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Se me perguntarem quem sou, a resposta será rápida. Apenas eu. 

Sem minimizações, nem pretensões. Mas simplesmente eu.

Quem me conhece sabe que não sou dada a filosofias, muito menos das baratas. 

Mas, perguntarem-me quem eu sou, para lá das questões funcionais ou semânticas, não sei responder. 

Sei, desde há uns tempos, que raramente me revejo naquilo que dizem de mim. Não é por menosprezo, nem por altivez, mas como vivo dentro de mim, mais do que o que sinto, conheço o que penso, e desconfio que há quem esteja a ver mal a questão.

A vida, suponho, deve ser isto. Uma espécie de balanço entre o que somos e pensamos, e o que os outros pensam que somos e que pensamos.

Isto nem é desconforto, ou hipocrisia. Apenas espanto pelo que outros por vezes vêem em mim. Coisas que nunca vi. Talvez seja preciso estar do lado de fora. 

Da mesma forma, vejo a minha vida. 

Se estou hoje onde esperava estar? Nem perto. Se acho que ainda vou lá chegar? Nem em sonhos. 

Mas não é um drama. É a vida a decorrer. A dar forma às nossas decisões, aos caminhos possíveis. 

De mim, apenas posso dizer que ainda acredito. Que ainda idealizo, e por isso refilo, luto, esperneio. Por mim e pelos outros. 

Numa tentativa de assegurar um outro futuro para alguém. 

Quanto a companhias, a vida cedo me fez compreender que apenas a minha está assegurada. Os outros com quem me vou cruzando são bónus, uma espécie de outra vida, como nos jogos. E que belos bónus têm sido!

Uma espécie de luas a iluminar a minha frequente noite. A dar perspectiva. A virar a imagem de pernas para o ar. 

Pegadas em grão de areia

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Sentada no caminho, olho as pessoas que passam.

Não há caras conhecidas, não há quem conheça o meu nome. 

Só gente que passa. Que me olha, sem interesse ou curiosidade, enquanto os observo. 

Gente local, que se afadiga, subindo e descendo a rua, vezes sem fim. Em passo acelerado, como se não quisessem perder um minuto do domingo.

Os passos na areia repetem os passos em terra firme.

Passos em todas as direcções. Perdidos? Achados? Certamente encontrados.

Observo-os e procuro decidir por onde ir. Ou talvez me deixe ficar onde estou. 

Apenas a observar.

Um pouco mais. 

Perdas

Tempos houve em que era minha vontade apagar dias do ano, que me recordavam perdas irreparáveis, pessoas que partiram. 

Hoje é um desses dias. Mas, ao contrário do que me era usual, não sei se fruto da maturidade, dei comigo a olhar este dia de frente. 

Hoje faz um ano que perdi um professor, mas acima de tudo um amigo.

E fiz, neste primeiro aniversário, também a análise da perda de outras pessoas que me acompanharam e já não estão. Como a irmã perdida há 13 anos. Estranho como pessoas que nunca se cruzaram, se cruzam tanto, agora, em mim!

Pensei nas promessas que me foram pedidas por ambos. Verbalizadas ou subentendidas na relação.

Umas vou cumprindo, outras estão em suspenso, outras não me parece ser capaz levar a cabo. Outras tenho orgulho em pensar que foram bem feitas. 

Hoje olho as minhas perdas, ainda com lágrimas de saudades nos olhos, mas também com vontade de continuar. De acreditar que ainda consigo ir mais alem. É a isso que me inspiram.

Não me preocupa se sentiriam orgulho em mim. Creio que me conheciam o suficiente para entender o que sou e por onde vou. E isso é-me precioso.

Não é por eles que sigo em frente. É com eles. Porque os levo dentro de mim. Porque ficou um pouco de mim com eles.

Voltas

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Sei que um dia, no regresso a casa, numa dessas voltas e contravoltas da vida, te vou (re)ver a fazer a curva, e a tropeçares em mim.

Será um dia de céu nublado, daqueles mornos sem chuva a prometer inícios de primavera.

O cheiro das árvores confundir-se-à com o cheiro da erva húmida do amanhecer, mesmo que já seja entardecer, e o meu perfume vai-se embrulhar no teu.

Não sei se sorrirei, ou chorarei. Provavelmente ficarei congelada a meio caminho, enquanto por dentro reclamarei que já não tenho idade para estes disparates.

Até lá, vou percorrendo caminhos, às voltas com as voltas que a vida me dá. 

Á espera que voltes, dessa tua viagem.

Até lá, guarda uma foto do caminho, para saberes por onde tens de voltar.

Caminhos

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Sabes que mesmo com a vista enevoada consigo ver as cores do que me rodeia?

O caminho não me parece claro, mas consigo distinguir as tonalidades da paisagem, os cheiros do que me rodeia.

Confesso que não me importa assim tanto, de vez em quando ter a paisagem desfocada. Talvez força do hábito de quem nunca soube muito bem por onde ia.

Mas há dias em que me aborrece. Porque era já tempo de o caminho estar claro e definido.

Nesses dias batalho contra mim mesma, contra o tempo, contra o passado.

Até que algo me chama a atenção - o canto de um pássaro, o zunir de uma abelha, o ondear de uma borboleta.

Os seus voos fazem-me elevar os olhos e redescobrir o firmamento, com um pouco de sorte descortinar o horizonte.

Não vou mentir e dizer-te que nesses dias recupero a esperança ou o optimismo.

Acho que nunca fui verdadeiramente optimista.

Mas recupero a visão mais ampla, mais desligada, que me ajuda a recuperar caminho.

E a ver o belo do que me rodeia.

E isso, sim. Isso faz-me bem.

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