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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Paladina de mim

Ontem, por ti, fui crente de um mundo distante prometido.

Hoje mais não sou que paladina de causas perdidas. 

Requebro-me em sonhos acordados, na ausência de sonos sonhados ou de incólume fantasia.

Mundos prometidos mais não são, agora, que mundos perdidos, e, ora desesperada, ora desencantada, procuro reencontrar-me nestes caminhos aparentemente sem saída.

Não busco cavaleiro andante, nem milagre que termine a minha busca; apenas peço tempo, força, inteligência e graça para encontrar o que ainda procuro. 

O essencial, sei que o encontro dentro de mim. Mas, por vezes, parece insuficiente. 

Não quero escolta, nem batedores, apenas companheiros de armas, como outrora fomos.

Até lá, não antevejo futuros, apenas reconheço presente, passado e busca. 

 

Maresia

O dia esteve quente, terrivelmente quente para quem passou as horas a trabalhar.

Com os afazeres do final do último dia da semana nem me dei conta da noite a chegar. 

Perdi um pôr-do-sol que adivinho belo, prometendo um bom dia para amanhã.

A minha mãe contava que quando era pequena tinha o ritual de me despedir do sol e desejar-lhe um bom sono. Já então o fascínio pelo fim do dia. 

Entretanto, a noite apanhou-me desprevenida e num ápice anunciou a entrada num novo dia.

Cansada, a casa quente a recusar um frescor ao corpo, tudo me parece acusar a necessidade de me deitar.

A janela do quarto, esquecida aberta, oferece o melhor presente. 

Frescura, plena de cheiro a mar. Esse velho amigo que pouco vejo actualmente, resolveu enviar o seu aroma para me confortar.

Lá fora, hoje não se ouve a rebentação. O mar está tranquilo. Apenas os breves risos de dois ou três amigos que se reencontraram após meses de separação. 

Cinco, dez minutos de gargalhadas e maresia a invadir-me o quarto. 

Sorrio perante a ideia dos reencontros que anseio - com o mar, com os amigos, quem sabe se contigo. 

Será este o tempo dos recomeços? É esse o recado dos aromas de fim de Maio?

Nada será como antes, parece-me ouvir sussurrar. Nem precisa ser, respondo. Não é o mais importante agora. 

Para já, basta-me o aconchego da maresia a embalar o meu sono.

 

Sonho

Fechar os olhos e sonhar. 

Ir para um qualquer lugar que me acolha, me recolha, e me dispa de defesas.

Sentir o vento no rosto, no corpo, no pensamento, a arrastar tristezas, inseguranças, ausências. 

Ser de novo pequena, em corpo de mulher, e encontrar abrigo onde já nada parece ser. 

Sentir. Ser. Respirar. Não me limitar a existir.

E no final, abrir os olhos, esticar os braços e acolher a vida num sorriso, que tanto pode ser teu como meu.

Haverá melhor sonho para ter? 

Borboleta

 

IMG_20200526_135638.jpg

Entrou-me, assim decidida, pela janela, a meio do almoço. 

Ali andou, feliz, por entre as flores que me trazem a primavera para dentro de casa.

Já ontem havia sido a vez de uma abelha. Mas a abelha tal como entrou, saiu.

A borboleta não. Feliz de início, passeando entre as orquídeas e os brincos de princesa, de repente apercebeu-se presa num interior desconhecido. 

A sua aflição, que a faz atirar-se contra os vidros, numa dança desesperada, aflige-me a ponto de desistir do almoço.

Perturba-me a sua fragilidade, a dificuldade de sair de uma situação em que entrou livre e alegremente. 

Peguei num pequeno guardanapo branco e estendi a mão junto dela.

Primeiro assustou-se, esvoaçou mas acabou por pousar na ponta do guardanapo. Deixei-a sentir-se segura e ela respondeu subindo para o meu dedo. 

Quando a senti bem, devolvi-a à sua liberdade. 

Suspirei entre o feliz e o curiosa, enquanto a vi voar para longe. 

Farias tu o mesmo por mim?

Abano a cabeça dos pensamentos tolos e sigo em frente. Afinal de contas, eu de borboleta tenho pouco. 

Mares de silêncio

IMG_20200525_014124.jpg

Mais uma noite e o sono hesita. 

Lá fora o vento parou, trazendo sossego à rua. 

Cá dentro, o silêncio também se instalou. 

Em contraponto, o burburinho do meu ser não encontra descanso. 

A vela, acesa, feita esperança no encontro comigo mesma, ilumina o caminho de um qualquer deus em que não acredito. Creio apenas no Ser, na sua entrega e na troca. 

Na liberdade e na responsabilidade que acarreta.

Na companhia do outro que me encontra e me acolhe e reflecte no olhar. 

Mas, para já, a ausência do sonho domina. 

E as lágrimas de cansaço que se soltam a cada esforço para dormir, recordam-me os mares internos que hesito em descobrir. 

Talvez seja hora de os navegar e fazer do silêncio tempestade. 

 

Linhas

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Mais um dia, mais um sopro.

Corpos à distância, delineando a paisagem.

Um arrepio de tempo que nos percorre, 

Um sonho que nos arrebata.

O tempo vai marcando a passagem em linhas do meu rosto,

Numa cópia tosca das linhas da minha mão.

O sonho continua presente, por muito que o tempo passe.

Uma esperança, uma ilusão?

Um doce esperar, mas que não se perde na contemplação.

Linhas paralelas, entre o sonho e o que é.

Encontros no infinito, desencontros na finitude dos dias.

Anoitece, o sol perde-se na linha do horizonte.

E eu perco-me nas linhas do que vejo.

Paralelas, perpendiculares?

Infinitas, até ao fim.

 

 

E se...

E se as aves não voassem e apenas pulassem pelo chão?

E se as ondas do mar rebentassem ao contrário, fechando a espuma dentro de si ou lançando peixes pelo ar? 

Todo um mundo ao contrário, sem física ou química que o compreendesse. 

Serias capaz de seguir? 

E se eu não fosse e tudo se resumisse em ti? 

Se nunca tivéssemos sido. Ainda estarias aqui? 

Do futuro nada sobra, apenas o hoje. A não ser... 

E se o futuro fosse ontem e me dessem só mais cinco minutos, o que te diria, o que te daria? 

E se acabarem os ses, e eu seguir caminho? Lembrar-te-ás de mim?

 

 

Cheiro a Alfazema

Existem cheiros que despertam os nossos sentidos, as nossas memórias, e nos aconchegam.

Cheiros que nos recordam momentos: o cheiro a mar e a areia dos risos da infância; o perfume de uma amiga da adolescência, companheira de confidências; o cheiro a cachimbo e café, a alimentar conversas.

Depois os cheiros que aconchegam porque sim: a relva acabada de cortar; o picante doce de especiarias, a canela. 

Por entre todos, o doce cheiro a alfazema. Por vezes, embala-me o sono, acalmando os outros sentidos. 

Um cheiro pronto a despertar histórias. 

O cheiro do meu perfume. 

O cheiro do teu corpo. 

A alfazema dos nossos lençóis. 

 

dia

O céu azul, o verde das árvores em contra-luz, todo um espaço envolvente que me acolhe e me contém.

O dia de hoje, mais um na vida, mas que, como diz a canção "é o primeiro dia do resto da tua vida".

O resto da tua vida...

Algo que se constrói, outro tanto que se destrói.

Um sorriso que se ganha; energia para retomar caminho, mesmo que por vias diferentes.

A noção do tudo que já foi, do que hoje é e sem noção do que virá.

Não consigo fazer planos - normalmente saem furados, por isso vou levando um dia de cada vez.

Cada vez com menos expectativas. Um amigo dizia que as expectativas só serviam para nos sentirmos desapontados. Não concordo totalmente. As expectativas alimentam a esperança. A ausência de expectativas também não é agradável.

Mas passo a passo, o futuro vai surgindo em cada momento presente. 

Mesmo que não o quiséssemos, não existe alternativa. Os dias não param, e os abrigos de hoje ficarão algures no caminho, amanhã.

Tempo

É algo que me falta, o tempo. 

Não o tempo quotidiano! 

O tempo alargado, aquele do "tudo tem o seu tempo" para o muito que não chegou. 

Quando olho em frente, descubro o inexistente, o que não encontrou o meu caminho e que não chegou a ser.

Não era o seu tempo... Não estava destinado...

Justificações vazias de significado, para o que não foi, nem virá a ser. 

Resta-me o tempo das memórias, dos sonhos que teimam em surgir, mesmo quando os reconheço como pura imaginação. 

E assim, vou seguindo, por um tempo que não é meu. 

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