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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

O céu é o limite

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O céu é o limite, nesta viagem com fim certo.

Esta é a noção que guardo dentro de mim, desde sempre.

O voo, planado umas vezes, picado outras,

Pode ser só ou acompanhado.

De ambas as formas, é possível.

O corpo sujeito às pressões do vento,

A mente ora fixa nas alturas, ora no horizonte,

As nuvens ou o azul de fundo,

Mas a viagem é inevitável.

Não se pode estar em terra para sempre,

Ou perdemos o cerne da nossa existência.

Abre as asas e voa, sem medo,

A cada queda, retoma viagem.

As perdas e desilusões também podem ser progresso.

Acredita.

Fecha os olhos e sonha,

Abre os olhos e concretiza.

E no que for preciso, lembra-te.

Eu voo contigo.

Artes

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Esta semana, passei pela exposição dedicada a Van Gogh.

É um dos meus pintores preferidos, não pela sua história trágica, mas pela beleza das suas telas, pela forma única como via e retratava o mundo. Uma arte que me toca. Profundamente.
Acompanhar a exposição, é acompanhar Van Gogh pela vida. As suas dores, as suas dúvidas, as suas lutas internas. O carinho e apoio do irmão.

Ao longo da história que nos contam, surgiram as inseguranças do pintor. Lembrar que foi por incentivo do irmão que se dedicou à pintura, pois achava que o seu caminho era a igreja, que, se Theo não o convence a tentar a pintura, não teríamos as noites estreladas que ele nos deu. Ou os girassóis.

E é aí que paro.

Sempre admirei, e de certa forma invejei, aqueles que conseguem, através da arte, transmitir o que sentem do mundo – seja a música, a pintura, a escrita, …

Não tenho talentos, nem consigo, frequentemente, dizer de forma clara o que sinto. Daí não poder deixar de admirar quem detém a arte nas suas mãos.

Pensar que a alguém com um talento daqueles, não lhe passa sequer pela cabeça que é por ali o seu caminho, faz-me pensar. Quantas pessoas deixarão cair os seus talentos, os seus amores, a sua felicidade, por acharem que não é ali que devem estar?

Quantas vezes teremos tido a oportunidade de um caminho mais pleno, quantas vezes estivemos já no sítio certo, no momento certo, e não percebemos que era ali? Ninguém nos disse, ou não acreditámos.

E, por vezes, ficamos na vida, à espera da tal circunstância, do talento adequado, do amor verdadeiro. A vida segue, sem percebermos que a nossa arte pessoal está ali, em nós mesmos, com medos, mas sem desalento. Em acreditarmos e arriscarmos.

Em pintar o nosso quadro, em cantar a nossa música, em sermos nós.

Perceber que não é preciso ser um grande artista, para descrever algo tão simples como o amor que despertaste em mim, ou que continuo à tua espera, numa mesa de café, como a de Van Gogh.

Nem, Nem

Aqui há uns tempos tive um amigo, digamos, especial.

Não chegava a ser uma relação íntima, mas também não deixava de ser.

Digamos que era uma relação assim... "nem, nem"

Os tempos corriam bem, eu achava que o "nem, nem" era apenas uma fase nossa.

Até que comecei a sentir "o" frenesim. 

O bom do meu amigo, era sempre delicado, respondia sem falhar às minhas mensagens, aos meus mails, aos meus telefonemas. Sempre paciente com as minhas impaciências, com os meus humores por vezes instáveis.

Aguentava os sarcasmos com a mesma bonomia que recebia os meus elogios sinceros.

Nem se chateava com uns, nem respondia aos outros. Nem, nem.

Um dia numa volta e revolta de troca de mensagens, resolvi mudar a regra do jogo.

Telefonei: "Olha, por mim chega. Não tens de responder sempre, se não te apetece. A sério. Não tens de aturar todas as minhas coisas. Eu não o faço por ti". E a resposta lá veio - politicamente correcta. Não dizia que sim, nem dizia que não.

E fui percebendo que aquilo não era simpatia, ou táctica de conquista. Era apenas nem, nem...

O tempo foi passando, tentei agitar as águas várias vezes, até que um dia lá se levantou um pouco o véu da indefinição.

"O que esperas de mim?" foi o grito que me foi atirado. "Nada de especial. Apenas que sejas sincero, que andes a meu lado, sejas o meu apoio, o meu motor de avanço, o meu travão nos excessos. E eu serei o mesmo para ti. Amantes, amigos, inspiração e conspiração".

A resposta foi, finalmente, sincera: "Isso é bonito, mas muito difícil. Mesmo impossível. Pedes demais". E naquele dia terminou-se o nem, nem.

Desde então, fujo a sete pés de reencontros nem, nem.

Hoje sentei-me na praia, e não sei se foi do vento, se da água fria, juntei no meu pensamento o hoje e o ontem com nem nem.

Fiquei abismada! Não é que fui cair de novo numa situação nem nem?! E que o papel nem nem, agora, parece também ser meu!??

Desconcertada, vim para casa e pus o assunto de lado por umas horas.

Jantei, arrumei a cozinha, e sentei-me frente a um livro. Não li nada.

Respirei fundo, levantei-me e fui beber um pouco de coragem à cozinha, para obnubilar pensamentos.

E foi então que aconteceu: "olha, pela minha parte, acabou-se o nem, nem. É sim, quando sim, e não, quando não.

E se não responder, não é amuo. Apenas nada tenho a dizer."

E pronto.

Pisquei o olho ao espelho e satisfeita fui dormir. 

 

Fim de dia

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Há algo na quietude de final de dia deste bairro que me embala. 

O som dos arrumares das cozinhas; as crianças que aproveitam a luz tardia do Verão para brincarem mais um pouco... 

Os blocos reflectem as tonalidades de fim de dia do céu. Terá sido pensado pelos engenheiros e arquitectos ou uma feliz coincidência? Não sei. 

No telhado em frente, os novos moradores do bairro mostram à cria como tomar conta dos céus. O que leva uma família de gaivotas a nidificar aqui? Cá estão à meses, cá parece que irão ficar. 

As andorinhas, melros e afins ajeita-se nas árvores indiferentes ao velho morcego que começa a esvoaçar. Também temos uma coruja e suas crias. Sei porque, de vez em quando, à noite, acordo com o seu piar. Mas esconde-se de mim. Um dia havemos de nos encontrar.

Sento-me num banco, deito a cabeça sobre os braços pousados no parapeito e deixo-me ficar de olhos fechados.

Ao longe um comboio, uma gargalhada, um prato que cai.

E eu sorrio e fico.

A arrefecer o corpo, a alimentar a alma, a sentir-me parte.

Do bairro.

Do mundo.

De nós. 

Trovoada

Estava sentada no sofá, a ler apontamentos de trabalho, até me aperceber do ruído de fundo e dos clarões. 

Comecei por pensar que era fogo de artifício, esquecendo que a pandemia proibiu-nos as festas. 

Uma mensagem desperta a atenção: "também estás à janela?" Encanto partilhado entre irmãos, corri para a minha, enquanto trocávamos mensagens uns com os outros. 

Das trovoadas mais belas que já vi! 

Há algo de imponente nas trovoadas de Verão. 

De repente lembrei o medo que tinha das trovoadas. Do dia em que cheguei a casa totalmente amedrontada. Tinha uns 10 anos. A minha mãe, tranquila, foi buscar um dos meus casacos de malha, pôs-mo pelas costas, abraçou-me e levou-me para a varanda onde me ajudou a perder o medo.

Hoje, a trovoada foi-se instalado pelo céu inteiro e resolvi ir para a varanda. O vento a pedir chuva, o cheiro do ar, as árvores, o morcego desnorteado, tudo se combinou num espectáculo imponente. 

Pensei que, se estivesses aqui, desafiava-te a irmos de carro ver a trovoada sobre o mar. Sozinha seria um risco tonto, por isso fiquei pela varanda. 

Comigo, uma pequena gaivota voava tranquila de encontro ao céu que oscilava entre o negro e o branco. 

Depois veio a chuva de pingos grossos, o cheiro a terra molhada e a trovoada foi acalmando. 

Mas ainda assim imponente. 

Cansada e satisfeita, a trovoada acalmou-me a mente, como só a natureza consegue. 

Resolvo dar a noite por terminada e vou dormir de janela aberta para o espectáculo lá fora. 

Sorrio, numa última mirada aos relâmpagos lá fora e digo-te, baixinho: "se estivesses aqui, tínhamos ido ver a trovoada sobre o mar. E agora, de volta a casa, deitar-me-ia aninhada nos teus braços. Nós dois, felizes e cansados. E assim dormiríamos até chegar a manhã" 

 

Esperança

Entro naquela fase do ano em que o trabalho abranda.

Relatórios escritos e enviados, agora é deitar mão ao que estava em espera e me dá imenso gosto fazer.

A manhã, passada em casa, como quase todas desde o início desta maldita pandemia, foi aproveitada para afazeres domésticos. 

Terminados, voltei ao quarto para o arrumar. Num acesso de regresso à adolescência, deitei-me em cima da cama, a olhar o céu nublado.

Dentro de mim há, hoje, algo que não defino. Um misto de zanga, nostalgia, desorientação e, estranhamente, muita calma. Contraditório. Como é contraditório em mim não me apetecer sorrir. 

Penso nas férias que já não vão ser. A recordação da mensagem recebida - "lamentamos, mas afinal a casa já não está disponível. Iremos proceder à devolução do sinal" - quando já não há possibilidade de marcar para outro lado, também não ajuda.

Precisava de mudar de ares. Ver algo novo.

Fecho os olhos e recuso pensar. O vento entra pelo quarto, depositando suavemente o cortinado sobre mim. Deixo-me ficar até que o cortinado foge de novo, levando consigo parte da zanga, da indefinição e trazendo uma ameaça de um sorriso.

Logo se vê. Algo há de surgir que faça com que este verão valha a pena. Vamos esperar e ver. 

Palavras

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A matéria prima de que somos. 

Afinal, não é o que todos fazemos aqui? Esgrimir palavras.

Com elas, imaginamos mundos, construímos histórias, revoltamo-nos, amamos.

Quando, recorrentemente, as calamos, adoecemos.

Sem a palavra, perderia rumo.

Na palavra construímos o pensamento. Na aquisição da palavra, começámos a construir memórias, e com estas a definir futuros. Quem fui, quem sou, quem vou ser.

Palavras - as que nos tocam, as que nos deixam indiferentes.

Gosto de brincar com palavras. Sorrio quando alguém me lê, para lá da palavra escrita. Porque sinto que as palavras nos são comuns, e porque faço o mesmo com as suas.

Por vezes são o que dizem. Outras o que omitem.

Como alguém me disse uma vez "Por vezes estás a dizer a e sinto todo um abecedário implícito".

Palavras - alimentamo-nos delas, nos blogs uns dos outros, nos diálogos que travamos, nos mails que trocamos.

Palavras de cada dia, que em cada um ressoam conforme as entende, o que torna a palavra mais rica e perfeita.

Escolher uma palavra para o momento, e ser una com ela. 

Tornar a palavra minha e oferecê-la. A palavra que não digo mas que transporto.

Seja ela amor, sonho ou apenas palavra.

 

Parte

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Como que um apelo, algo me impele, mais uma vez, a partir.

Terei coragem, desta vez?

O tempo escasseia, o passado amontoa-se sob a forma de memórias,

As raízes que me prendem a terra continuam fortes,

Mas a vontade de partir volta a assolar-me por dentro.

Parte de mim acredita que poderei levá-las comigo,

Acarinhadas dentro de mim.

Algures, alguém espera por mim em porto incerto,

E a razão grita-me para ficar quieta:

“O que podes ganhar partindo?”

 Só aquilo que perco ficando.

No entanto, dentro de mim é claro:

Ficando ou partindo, já te perdi há muito tempo.

Vagueio.

Desta vez, o mar não é conselheiro,

Embora o seu murmurar suavize o meu semblante.

Em eco, a pergunta que me atormenta regressa.

Será nesse ponto perdido que reencontro os teus abraços?

Reconhecermo-nos-emos no desconhecido?

A brisa traz-me dúvidas, 

salpicadas da certeza do tempo que já passou.

Fique ou vá, o teu sorriso fez-se pó e

do teu aroma só me resta o cheiro a mar.

Parte, disseste-me no sonho de ontem, parte de encontro a mim.

A tua voz

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O dia esteve quente, hoje.

O calor não ajudou a pouca concentração com que estava no trabalho e acabei por aceitar o desafio de ir almoçar a um dos meus lugares preferidos. Inevitavelmente sobre o mar. 

Pensei que seria a forma certa de recuperar a atenção. 

O mar, o indescritível cheiro a maresia, a frescura de um rosé, a boa conversa, tudo isso me ajudou a recuperar tranquilidade. 

Voltei à mesa de trabalho revigorada, pronta a atacar os inevitáveis relatórios desta época do ano. Ao lado destes, um conjunto de cadernos com ideias à espera do tempo para as desenvolver. 

Valeu a pena. 

Mas agora veio a noite. 

E embora o cansaço seja evidente, o calor não me ajuda a adormecer. 

Dou comigo deitada, a aplicação com a sessão de indução do sono ligada, e eu a olhar para a escuridão do quarto. 

Tudo serve para agitar o sonho desperto, que me não deixa adormecer. 

A voz na aplicação vai falando e eu penso em ti. 

Como seria ouvir a tua voz agora? Que me dirias? Embalarias o meu sono?

Mudo de posição e a voz da aplicação.

A noite continua quente. O corpo teima em não arrefecer. 

A mente insiste: e a tua voz? Que me diria? 

Se te pedisse apenas uma palavra, qual terias para me oferecer?

Eu já tenho uma para ti. 

A rua lá fora vai-se aquietando. Não há vento esta noite. Apenas calor e o som do comboio ao longe. 

E a tua voz imaginada a escolher palavras que me fazem adormecer. 

 

Segredo a alfazema

shsh...

Sossega. 

Aproxima-te mais, tenho um segredo para te dizer.

Nada que queira dizer muito alto, para já. Ainda não.

Mas se te aproximares o suficiente, dir-te-ei.

Quão próximo? O suficiente para que ouças o bater do meu coração.

Para que leias os meus olhos, pois esses não sabem mentir - Já mo disseram antes.

Podes vir disfarçadamente, e depois afastares-te como se não fosse nada contigo.

Eu compreendo.

Mas, gostava muito de to dizer:

Sem ti, eu continuo a ser eu. 

Não deprimo, nem entristeço. Continuo.

Tu não me completas, pois eu já sou completa, tal como tu também o és. 

Não definho, não me passo, não desapareço. Não choro mais, nem rio, já agora. Continuo em frente. 

Mas contigo... Contigo, tudo muda. 

Fico mais humana, mais emoção. Menos eu. Mais nós.

E aí também avanço, mas mais em passo de dança. Uma espécie de ritmo marca os dias, enquanto o ar se enche de aromas de alfazema. 

É esse o meu segredo:

Fazes-me falta. Onde quer que estejas. 

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