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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Calor de Verão

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Há algo no verão que me solta. Aliás, creio que é um fenómeno muito comum. 

Não sei se é a cor dos céus, a nortada ao fim do dia, as andorinhas a rasar as janelas, as árvores no seu apogeu, mas em alguns dias aligeira-se-me o coração. 

Hoje é um desses dias de Verão. Dia de vir para a cozinha, ligar a música no telemóvel e dançar pela cozinha durante os preparativos de jantar.

Algo me diz que os temperos podem ficar mais apurados e que se vai jantar um pouco mais tarde, mas o meu humor compensa a demora e o sorriso maior revela-se um bom acompanhamento para o final de dia. 

 

 

Prazeres

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Não sou dada a grandes luxos. Mesmo que fosse, não iria longe!

Mas há coisas que, não sendo bens essenciais me dão um grande prazer.

Entrar numa livraria, por exemplo. Por vezes faço treino de resistencia: entro com a decisão de ver o que me apetecer e sair sem trazer nada. Raramente ganho o desafio. Tenho dificuldades em resistir a uma boa história.

Como uma boa conversa, as histórias alimentam-me a alma e dão cor aos meus sonhos.

Ou um bom concerto: libertar-me de mim e deixar fluir as emoções. Sorrir, chorar, acelerar o coração ou acalmar. Já passei por concertos que foram um verdadeiro carrossel de emoções.

E flores. Vivo numa zona de muitas árvores e algumas flores.

Mas, de 15 em 15 dias, vou buscar o meu cabaz de legumes e lá está: o mini mercado de flores. O prazer da escolha, a decisão das cores. Lembra-me a primeira vez que entrei no mercado das flores do mercado da Ribeira. Era miúda e ia com a minha mãe que sorriu perante o meu olhar esbugalhados. Perdeu horas comigo a perguntar às vendedeiras o nome das flores. Aliás a minha mãe incentivava muito essa minha curiosidade pelas coisas.

Isto tudo porque hoje lá fui buscar o cabaz. E lá estavam elas. As flores à minha espera. O senhor que as vende já sorri (dá para ver nos olhos para lá da máscara) quando chego. Tornei-me cliente habitual.

A escolha nem sempre é fácil, embora sem grande tempo perdido em indecisões.

Depois, é chegar a casa, dorida dos picos das rosas mas feliz. E passo à fase seguinte: a disposição nas jarras e a escolha de uma para o solitário do meu quarto. 

Hoje a escolha recaiu numa rosa. Uma rosa num solitário de um quarto... 

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Lua cheia

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Por um momento fecho os olhos e logo a mente me devolve a lua cheia de há umas noites atrás.

Resisto e abro os olhos. Receio voltar ao sonho de então. 

Alguém uma vez me disse, há muitos anos, que não se deve voltar a sonhos perdidos recentes, pois são os que magoam mais. 

Mas os olhos cansados fecham-se de novo e a lua volta. 

Imagem luminosa da minha razão diz que é altura de enfrentar o medo.

Deixo-me levar pela lua que, acompanhada de Vénus, me traz de volta o sonho.

Com ele traço em linhas ténues de imaginação o retrato ausente.

Deixo de resistir. Afinal, é apenas um sonho. Que mal pode trazer? A perda da esperança pode ter doces aromas quando iluminada pela amante dos poetas nocturnos. 

Quando o sonho se cansa abro os olhos. Por dentro, uma espécie de ardor, como quando nos aproximamos demasiado do calor. A sensibilidade de quem enfrenta o fim de mais um sonho. 

Regresso ao trabalho, mais cansada do que antes. Mas pode ser que, assim, o sonho me abandone e só regresse na próxima lua cheia. 

Confissão

O dia esteve quente.

No canto da minha sala de trabalho, mal se vê o sol, mas dá-se pelo calor.

Há uma sensação desagradável de estar longe do mundo, desde o início do teletrabalho.

Um ou outro episódio, uma ou outra conversa, relembraram que ainda estava viva.

Que o sangue ainda me corre nas veias.

Esses momentos vieram e partiram; trouxeram um pouco de luz aos dias para me devolverem depois ao quotidiano.

Durante o dia, nos intervalos dos afazeres laborais, a mente divaga em busca de um ponto de luz - o mesmo? outro? Já não sei.

O calor deixa-me o corpo moído; o trabalho frente ao computador, deixa a mente cansada.

Mas hoje houve algo de diferente.

No final do trabalho, enquanto preparava os relatórios do dia, liguei a música. Nada de especial, a escolha foi um pouco automática.

Não era uma música romântica, nem trazia memórias associadas.

No entanto, senti os olhos marejarem e apercebi-me do quanto preciso de chorar. 

Aquele choro que liberta, nos diz "pronto, já acabou. Agora segue". 

Mas o momento não mo permitia, assim, guardei as lágrimas para a privacidade da noite.

Agora, enquanto me preparo para dormir, os pensamentos seguem o seu próprio ritmo indisciplinado.

O duche morno relaxou os músculos cansados da tensão.

Pela janela entram os cheiros e os sons da noite. A coruja, os vizinhos, os gatos na caça.

O fresco invade o quarto e sento-me a rever o dia, para depois me entregar, se tudo correr bem, a uma ou duas lágrimas libertadoras.

Nem me posso declarar triste. Não é o que sinto. Apenas preciso deitar fora este excesso de mar interno.

Mas a noite apresenta-se doce e parece acalmar a tempestade dentro de mim.

Que fazer? 

Escrever um texto confissão. Dizer que nunca deverias ter ido embora. Dizer que nunca te deveria ter deixado ir. Pensar que talvez pudesse ter ido também.

Resta-me a tranquilidade da noite e a certeza que, na imensa improbabilidade de leres estas linhas, não irias entender.

E isso é bom.

Praia

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Lembras-te?

Do som do mar, a brisa no corpo, o sol a queimar a pele.

Deitar de costas na toalha e ver o imenso azul, imenso, imenso azul…

Fechar os olhos e imaginar… O quê? O que o calor nos trouxesse.

Sentir o sabor a sal nos nossos lábios.

Da preguiça do calor, saltar para o mar.

A pele arrepiada pelo frio da água, mas entrar, avançar, enfrentar.

Numa respiração profunda, mergulhar. Agarrar um pouco de areia do fundo do mar. Voltar à superfície e respirar.

Nadar até perder o pé, sentir o medo de estar fora da zona segura.

Controlar a respiração, e deixar-me embalar um pouco pela ondulação.

Sorrir, de novo, entre o azul do mar e o do céu.

Voltar a terra, sentir a areia entre os dedos dos pés, à medida que volto para o meu espaço.

Renovada pelo mar.

E recomeçar.

O calor do sol na pele, o arrepio da brisa suave que nos percorre o corpo…

O retomar de um ciclo, renovada pelo sal.

No mar, como na vida.

Jardim de bairro

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O dia começou mal.

Ou melhor, continuou, pois a noite foi interminávelmente longa e desperta. 

O cansaço aumentou a irritação que há algum tempo ameaçava instalar-se. 

Uma sessão de relaxamento para poupar os outros a respostas menos gentis, que não mereciam. 

E assim, fui-me arrastando pelo dia. 

Sorrindo, calando, respirando. Estando. Pouco ser. 

Noite lançada, tarefas terminadas, silêncio na rua. Pensei que já era tarde para ir caminhar. 

Mas a lua chamava lá fora, quase cheia, tranquila. 

Por vezes, a lua faz o lugar do mar. Olha-me do alto, como uma suave conselheira, e vai-me sossegando. Chama-me à razão. 

Peguei num casaco, para me proteger da brisa nocturna, e saí.

Duas voltas ao bairro, e sentei-me sob as árvores, num pequeno espaço ajardinado. 

Os candeeiros de rua dão tonalidades fantasmagóricas ao espaço; a lua espreita sobre as copas das arvores; o murmurar do vento nas folhas. Tudo parece exercer um efeito tranquilizador sobre a minha impaciência.

Respiro fundo, fecho os olhos e deixo-me estar um pouco.

Está na hora do regresso a casa.

Não renovada, mas pelo menos apta para mais 24 horas.

Hoje já está no fim. Amanhã logo se vê. 

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