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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Tango

O que farias comigo? perguntaste-me um dia.

É simples:

Um copo de vinho,

Duas almas que se encontram,

Uma noite de tango.

Dois corpos que se movem,

numa dança onde domínio e submissão são aparentes.

Comunhão de paixão, de ritmo, de entrega,

a minha mão no teu ombro suficiente para entenderes

como e quanto te quero.

E assim, entre um Piazzolla e um Arolas,

Deixar espaço para um beijo,

para o cumprir de um desejo,

Para uma outra dança.

Mas o tango fez-se apenas promessa

e neste compasso de espera em que me encontro, 

enquanto procuro novo par de dança, 

Treino os passos aprendidos,

Desenhando sombras sob a lua,

em torno da minha esperança.

 

Caminhos

Toda a vida é um mar de possibilidades.

De escolhas e caminhos.

Por vezes dois caminhos aparentemente divergentes, convergem num mesmo destino.

Outras caminhos comuns revelam-se do mais incomum possível.

Mas mais que os caminhos, ou as possibilidades são as pessoas que encontramos.

Umas do lado de fora do caminho, apenas a observar. Outras que partilham parte do caminho connosco. Todas essenciais. Todas essência.

Por elas, agradeço os caminhos que tomei. Até aqueles que se findaram em becos sombrios.

Grata por ter chegado aqui. 

Grata por te ter tido aqui, mesmo que por um breve instante. 

Universos

Entre dois pontos do universo, existe tudo ou existe o nada.

Conforme o que cada um é, ou assume, o espaço entre ambos estreita-se ou alarga-se. 

Por vezes oscila, duvidando do melhor meio para um fim comum.

Como em tudo, existe o que é e o que não é.

O senso e o contra-senso.

Existe o Eu e o Tu.

Entre o meu corpo e o teu, existem milhas em tempos de separação.

Dia sem a noite, despegados pelo universo, como uma história que não chegou a ser, mas não deixou de ser.

Entre quem eu sou e quem tu foste, existe o espaço, existe tudo, existe nada. 

Num aguardar de reencontro, dois pontos do universo, que, em caminhos paralelos, irão convergir no infinito. 

 

Vida

Hoje acordei com a noção dos anos.Desprovida de juventude.

Como se o corpo e a mente acusassem os cinquenta que se aproximam.

O cansaço, a ausência de férias, a falta dos amigos, de ti, potenciam o desânimo.

Pensei que com o trabalho, a actividade do dia, a sensação se esbatesse.

Nem por isso. O aperto das saudades faziam-me olhar para o telemóvel à procura de uma chamada que nunca poderá vir.

Saí, fui tratar de mim por um instante, uma massagem para me esquecer que com o tempo ficamos crocantes. A idade torna-nos naturalmente musicais.

O relaxamento semi-conseguido facilitaram o final do dia.

Sol de pouca dura, foi nublado por uma daquelas notícias que nos lembra que a idade realmente está cá, e que, a partir de certo ponto, se começa a contar pelas perdas que acumulamos. As passadas, as presentes e as iminentes.

Mas a vida segue. Respira-se fundo, pega-se nas pontas e tenta-se ligar vidas com nós e laços, quando possível. As linhas desconectadas, deixamos ir, sem solução a aplicar.

Chama-se a isto Vida, suponho.

 

Silêncio

O silêncio foi o meu último reduto. 

Os dias fizeram-se lentos,

A consciência alinhou com a intuição

A mente com o coração.

Palavras são essenciais, desde que ditas com verdade.

Calo as minhas, no momento de encerrar o verão, 

Pois nada mais há a dizer.

Dou lugar à tranquilidade de um Outono incipiente.

Reservo para mim o conhecimento do que breve irá ser,

Enquanto preparo caminho, sem hora de partida ou destino de chegada. 

Paralelismos

Quando era pequena, por vezes, ficava acordada à noite, na cama, a imaginar que o nosso mundo e a minha vida poderia ser um sonho de alguém que estaria num outro mundo real. Devem vir desse tempo as insónias.

Mais tarde encontrei-me com a física quântica e as teorias de Schroedinger, que num acesso de loucura (segundo ele próprio) concebe a ideia do multiverso - uma infinidade de universos paralelos, que cobririam todas as possibilidades simultâneas.

Foi um update dos meus pensamentos: o meu mundo é real, mas outros também! Em que neste eu era eu, e noutros era uma outra eu. Tudo era possível! Na teoria...

Com o tempo dediquei-me em exclusivo a este universo único que temos.

Mas, recentemente, voltou à minha memória o multiuniverso.

Vontade de evasão? Falta de ideias?

Simplesmente fruto das minhas saudades tuas.

Pensar que nos reencontramos, neste momento, num qualquer universo paralelo.

O céu estará rosado em pôr-de-sol.

À nossa frente, o mar.

Tu serás tu - quem mais poderias ser?

E eu, quem serei?

Final de praia

IMG_20200821_190909.jpg

A praia hoje era maioritariamente mar.

Na estreita língua de areia, arranjámos um espaço seguro para depor as nossas coisas e fomos passear para a beira-mar.
A violência do mar mostrava um perfeito contraponto à tranquilidade em que hoje mergulhei.
Comigo, levemente adiantada, J caminha de mão dada com o marido; o filho corre à volta de ambos.
Olho para aquela mulher que vi, e ajudei, a crescer e uma onda invade-me.
A compreensão do tempo presente. A noção de que é tempo de fechar ciclos, de encerrar contos que me parecem tão antigos quanto os tempos.
É tempo de respirar e aceitar os tempos que ainda vêm. 

Nostalgia, de novo

Lá fora uma modorrinha cai, libertando os cheiros das árvores.

Num canto da casa a nova inquilina dorme tranquila, enquanto as crianças que vieram de visita anseiam que acorde.

É todo um ambiente que me faz lembrar a minha infância. Mas agora sentida de um ponto de vista mais próximo dos meus pais.

É estranho. Passamos a ser a geração que toma as decisões. Somos os mais velhos. Mas cá dentro nem tudo é assim tão adulto.

Continuo a sentir inseguranças tontas, que levam a duvidar de palavras que me dirigem. Continuo a ter a capacidade de me apaixonar como uma adolescente - sempre pensei que aos 40  isso já tivesse sido ultrapassado.

E no entanto, eis-me aqui. Adulta a sorrir perante as tolices das crianças, adolescente a sorrir perante os meus sentires.

Mas, hoje especificamente, as paixões não me fazem sorrir. 

Há uma nostalgia no ar, que me lembra que nada foi realmente conquistado.

Que o sonho arrefece como o tempo. Um sonho de verão a entrar no outono.

Como o tempo.

Como eu.

Leituras

Releio frases que em tempos me foram ditas. 

Nelas procuro entender o que foi, o que nunca foi, o que talvez ainda será.

Leio momentos passados, numa tentativa de me ler claramente. 

Leituras directas que me levam a um mundo inexistente.

Sonhos indirectos, de uma presença tornada ausente. 

De uma ausência inevitável, previsível, resultante de leituras prematuras. 

Letras feitas emoções ou emoções feitas letras?

Uma troca de palavras é suficiente para trocar significâncias. 

Na mesa de cabeceira, descansa a promessa de uma noite sem sonhos, mas o coração diz que não sonhar não é solução. 

... 

Leio e releio palavras antigas que me foram dirigidas, numa última tentativa de te ler.

Talvez a noite me devolva a realidade, numa leitura incómoda do sonho que não sou. 

Apetece

Hoje o dia foi tranquilo, sem trabalho. 

Depois do dia louco de ontem, soube bem o tempo de hoje. 

Assuntos colocados em ordem, seguiu-se a praia, em sossego.

Agora, no silêncio da noite, sento-me defronte da televisão desligada. 

Apetece dormir, mas se adormeço cedo, a meio da noite ando a passear pela casa. 

Pego no telefone, enquanto penso a quem posso telefonar para passar o tempo. Desisto. 

O que realmente apetecia era uma esplanada, uma boa companhia e uma boa conversa. Mas não é possível. 

Fico parada a pensar o que me apetece. Ler, no sofá. Um pouco de música. 

Não me sinto triste ou melancólica. Apenas mole. 

Até que surge a real vontade: O que ia bem agora, era mesmo um abraço. Um ombro para pousar a cabeça. Palavras meio ditas, sono adiado. Olho de novo o telefone. Também não é possível. 

Talvez amanhã. Para um abraço nunca é tarde. 

 

 

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