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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

A noite que desejo

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Disseste-me para ter a noite que desejava. Crueldade absoluta!

Como se tal fosse possível!

Para que acontecesse, o nosso tempo teria que deixar de ser contado em minutos ou horas, e sim em meses ou anos. 

Os sonhos seriam o retrato dos meus dias, e esses seriam iguais aos sonhos que já não tenho.

A distância... essa não existiria, ultrapassada por uma qualquer manobra dum desses deuses em que não acredito.

Deuses esses que em alternativa me poderiam dar o bom senso de esquecer, de partir, de deixar o que não tenho.

Talvez num desses casos conseguisse a noite definitiva dos meus desejos.

E a lua deixasse de espreitar por entre as árvores, a desafiar novos sonhos e desejos.

Carta Para Ti

O dia de hoje foi cansativo... 

Aliás, de ontem, que a madrugada já entra pelo quarto, dizendo que sobram poucas horas para dormir. 

Foram muitas horas de trabalho. Acabei o dia com o nariz vincado pela mascara, como seria de esperar. 

À medida que me aproximava de casa, sentia todo o cansaço pesar-me nos ombros, fruto do dia e de uma noite, mais uma, pouco dormida. 

Arrependi-me de ter ficado de ir sair à noite. 

Peguei num casaco, ignorei o jantar na cozinha, peguei na chave do carro e saí de novo. 

Na rua veio a pouca vontade de conduzir, chamei um carro. Valeu-me uma viagem tranquila, boa música de fundo, olhos virados para o Tejo que acompanhava a minha viagem marginal. 

Chegada ao meu destino deparo com a entrada do parque iluminada a velas. Aliás, a lâmpadas que imitam velas. Nenhuma vela resistiria ao vento frio que se fazia sentir. 

Já na minha cadeira, embrulhei-me na écharpe, e perdi-me na serenidade do parque iluminado daquela forma difusa, perdido num recanto da cidade. 

A música começou e o mundo real desapareceu. Tudo foi ficando perfeito. 

Quase tudo. As mãos frias pediam as tuas, não para aquecerem, mas para evitar que me desvanecesse num qualquer sonho daquela noite de Outono. 

Juro-te. Se estivesses ali, entregava-te o pouco que tenho: o meu corpo, o meu pensamento, o meu amor.

Sem regateios, nem condições. 

Guardaria no meu peito impaciente a serenidade do ambiente, e entregar-te-ia, confiante, o meu coração. 

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O casal

Saída do trabalho, hoje, depois de horas a falar através de uma máscara, entro no carro cansada e desanimada.

Depois de uma breve pausa, sentada a respirar livremente, sem filtros, encho-me de vontade para a breve viagem de 12 minutos até casa.

Sou uma privilegiada. Não tenho que fazer percursos de hora e meia entre casa e trabalho.

Música ligada (eterna companhia) ia entregue aos meus pensamentos, às alegrias e problemas próprios de um dia de trabalho, a recordações de outros anos, quando um cruzamento entupido me obriga a ficar parada.

Não stresso, sei não é nada de mais, apenas pessoas que deixam e apanham os seus, junto da estação de comboios.

Enquanto me deixo levar pela música suave, vou deambulando com o olhar pela rua até que os vejo.

Entre dois carros estacionados, na berma da estrada, um jovem casal dança ao som de uma qualquer valsa silenciosa. Mão na mão, mão dele na cintura dela, a dela no seu ombro, numa postura de outros tempos, vão dançando lentamente, embalados pelos olhares entrelaçados, ausentes do resto do mundo, até que terminam num longo e apertado abraço no preciso momento em que o trânsito retoma o seu caminho.

Não sei o que foi mais forte em mim. Se o prazer de assistir tal dança, se inveja e saudade.

Mas a imagem ficou e sei que, nos próximos dias, voltarei a olhar para aquele ponto da estrada e os verei, mesmo sem lembrar as suas feições, nesse misto de sensações e exaltar de recordações.

Quem sabe? Talvez um dia destes, seremos nós quem valsa em silêncio.

Fazes-me falta.

 

Protestos

Não sei como o pudeste fazer.

Cobrar uma promessa não cumprida, quando tu próprio não cumpriste as tuas.

Tola fui eu!

Quando dos teus olhos brilhantes veio um pedido.

Que era importante para ti! E eu acedi.

 

E agora?

Agora já não há mais caminho.

O mundo virou-se do avesso.

Como podes perguntar se já fiz tudo o que me pediste?!

 

 

Mas...

Na verdade, nada disto é assim.

Zango-me da tua ausência, quando sou eu que me ausento de mim.

Uma fuga para o esquecimento ou a busca de um novo caminho. 

A procura de um novo olhar brilhante que faça brilhar o meu.

 

 

Reclamas que não cumpri todas as minhas promessas.

É verdade. 

Nem sequer as que fiz a mim mesma,

Como comprova este breve regresso a ti.

"A Lancheira" ou o perigo dos sonhos alimentados

Hoje, foi uma tarde de domingo como há muitos anos não se proporcionava.

Sem almoço familiar, nem visitas, resolvi fazer algo que me é muito atípico: sentar-me defronte da televisão e começar a fazer zapping até que algo me chamasse a atenção.

Esse efeito surgiu quando vi o título de um filme que começava naquele momento: "A Lancheira".

Trata-se de um filme indiano, ou melhor uma coprodução entre India, França, Alemanha e Estados Unidos. Nada de Bollywood, mas uma bela história, bem contada.

O que me susteve o dedo na passagem para o canal seguinte foi a recordação de um bom amigo e da sua voz num dado jantar "Já viste "A Lancheira"? Tenta ver. Acho que vais gostar."

Os anos passaram (o filme é de 2013), o meu amigo partiu e só hoje me surgiu a oportunidade de ver o filme. E compreender o que o fez aconselhar-me aquele filme (já agora, mais uma vez, tinhas razão).

Não venho aqui contar todo o filme, mas apenas partilhar alguns pensamentos que me suscitou. Que valem pelo que valem.

A história gira à volta de duas pessoas que não se conhecem, mas que, devido a um acaso, começam a trocar cartas. A certa altura começam a alimentar-se sonhos e esperanças numa vida, se não melhor, pelo menos diferente.

E é daí que vem o meu pensar. E o recado do meu amigo para ver o filme.

Não sei se já vos aconteceu trocar mails com alguém que não conhecem pessoalmente. A mim já aconteceu algumas vezes. Nalguns casos as correspondências morreram logo à nascença, noutros houve partilhas mais sinceras, mais profundas, prolongadas no tempo. É nestas que se alimenta o sonho, que se sente um prazer na comunicação que queremos para sempre, ou levar para outro nível, mesmo sabendo não ser possível. 

Também é nessas que existe o perigo: de um dos lados estar a alimentar um sonho que sabe ser apenas isso - um sonho, quando a outra sente o sonho como uma possibilidade. Não se pode culpar nenhuma das partes. É frequente estas dinâmicas simplesmente surgirem, sem que ninguém as queira implementar. Como que uma relação que se vai estabelecendo.

Mas, como acontece em "A Lancheira" estes sonhos alimentados, incautamente, podem dar ganhos a um e perdas duras a outros.

Tal como disse, já alimentei sonhos à distância, como já os cortei, como já vi os meus serem alimentados e cortados. São situações que acontecem.E que nem são de agora. Antigamente, as linhas cruzadas dos telefones também levavam a situações semelhantes.

Em "A Lancheira" revi-me nos dois lados - o que acorda dolorosamente para a vida normal, e o que acorda mais rico, dependendo das situações recordadas.

Ficou-me a esperança de ter maturidade suficiente para não voltar a cair no erro de alimentar sonhos que não devem ser alimentados. Porque sei o quanto pode doer acordar depois.

Retiro

Retirei-me.

Cansada das repetições, das suposições, resolvi ausentar-me por breves instantes.

Parei, num pesar de tempo, criando tempo para pensar.

As respostas surgiram. Umas tranquilas outras menos claras.

Mas o retiro foi útil.

Para recuperar, reencontrar e reafirmar o meu ser e estar.

O regresso será lento, provavelmente menos esfuziante.

Possivelmente, menos produtivo. Ou pelo menos mais recatado.

A ver se aproveito ventos e marés para me reformular.

E às minhas relações também.

Não

Em nome do que tivemos, peço-te apenas um favor:

Não me fales mais de amor.

Não me dês falsas esperanças,

Não cries sonhos de mudanças

Se nada me pretendes dar.

 

Palavras?

Palavras não chegam!

Não saciam desejos,

Não substituem beijos,

Não são dois corpos a afirmar.

 

Insistes...

Se queres mesmo falar de amor,

Fá-lo em silencio.

Diz-me tudo nos gestos;

Retribui os meus afectos

Devolve o fogo ao nosso olhar.

 

Dizes que ainda há tempo.

que devemos aproveitar o momento,

Levar o nosso barco para alto-mar.

 

Eu prometo que tento, 

que me deixo levar pelo vento,

Se, em vez de falarmos de amor,

Nos pudermos simpesmente amar.

 

A um Desconhecido

Tempos houve em que acreditei. Como tempos houve em que amei.

Mas a vida leva-nos por caminhos nem sempre desejados e a realidade passa a recordação, o amor foge-nos entre os dedos e entramos num estar por estar.

Gradualmente a vida retoma o seu ritmo e, com doçura e cuidado, poderá entrar um novo belo sonho que nos reanima. E voltamos a Ser.

A magia vem pela mão de um qualquer estranho; um desconhecido que nos sorri no caminho, que nos estende a mão, nos inebria com palavras inesperadas e nos devolve à vida.

Para alguns é um novo ciclo. Para outros a promessa da paixão. Outros ainda apenas ilusão temporária.

E se o fim da ilusão pode doer, também acorda e traz o ritmo para nos balançarmos numa dança desacompanhada que nos liberta, deixando o Ser pronto para o caminho, mesmo que sem par de dança ou esperança de entrega a nova ilusão.

E isso até pode ser bom, essa liberdade de esperança. Deixa-nos outro espaço para apreciar o caminho.

Por curioso que pareça, acabamos por agradecer, com algum carinho, pelo estranho desconhecido.

Nada

Não quero nada.

Não mais.

 

Do tempo do sonho, guardo o aroma da esperança.

De ti, guardo a lembrança.

 

Não me perguntes o que pode ser.

Não indagues o que posso querer.

Não quero mais nada.

 

Deixo-te a recordação do meu beijo,

o assombro do meu abraço.

Do tempo do desejo nada sobrou,

ou quase nada.

 

Peço-te apenas uma coisa.

Que guardes com carinho o tempo passado.

 

Eu guardarei a tua voz, 

A sensação do teu toque,

e uma rosa desfolhada.

 

Fora isso não existe mais nada.

Inevitável

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Fui passear à beira-mar.

Inevitavelmente voltei a ti.

Recordei as palavras trocadas e as que ficaram por dizer.

Escondidos pelos óculos escuros os meus olhos procuraram esconder a comoção.

Eu sei que o passado não volta atrás, que a oportunidade perdida não pode ser recuperada,

que os sonhos ou se agarram ou se perdem no tempo.

Mas a vontade nem sempre comanda o sentir, e cansada de apenas ser, 

De perder entre os dedos a oportunidade derradeira, sinto que me agarrei ao sonho,

à esperança vã, de finalmente viver a "tal" paixão.

 

Pressinto, agora, mais uma noite de insónia ou a sonhar contigo, o que vai dar no mesmo.

Mas tenho a certeza, no peso do meu coração, que agora, sim, estou pronta.

Que amanhã de manhã poderei deixar-te partir,

Devolvendo-te, feliz, ao teu sonho

e lançar voo noutra direcção.

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