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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Meditação

Inspiração profunda, conto até três lentamente, e expiro.

Repito o procedimento mais umas vezes, enquanto a voz suavemente desconhecida me conduz.

A mente, cansada do trabalho do dia, embalada pela voz tranquila que sai da aplicação, vai vogando ao sabor do sentir ameno da minha respiração.

Gosto de terminar assim os meus dias.

Tornou-se uma boa panaceia para as minhas insónias.

A voz sussurra palavras banais de quem não sabe a quem se dirige, mas que, mesmo assim, ajudam a pôr ordem nos pensamentos, em alguns sentires.

Inspiro profundamente, de novo.

Em adolescente, quando precisava de paz, ia até à beira mar. Ouvir o seu som, sentir a sua força, ajudava-me a esvaziar de tudo o que me afogava por dentro.

Ficava com uma sensação de vazio interior, uma paz imensa e encontrava-me pronta para retomar a vida nas minhas mãos.

Agora, o mar já não me chega.

Perdi o vazio que me é necessário para voltar a ter espaço para sentir.

Mas não desisto.

Recomeço:  Inspiração profunda, conto até três lentamente, e expiro lentamente.

Subitamente, sussurra-me a paz que procuro.

Redescubro os meus silêncios, os meus espaços de escuro e luz.

Reencontro-me.

E recupero-me de mim.

Carta a matar saudades

Fez hoje 14 anos. 14 anos!

Como é possível que tanto tempo tenha passado?

Nestes 14 anos fui ganhando horror a este dia. Há anos em que me apetece apaga-lo do calendário. Ou ficar quieta na cama.

Hoje foi um desses dias. 

14 anos a lembrar-me de ti diariamente. 

A recordar os planos para a nossa velhice - tu dedicada à tua pintura e eu nas minhas mil e umas tarefas ao mesmo tempo.

Sabes, ultimamente descobri o prazer de reduzir o ritmo, mas parece-me que vai ser coisa temporária.

Tens-me feito tanta falta! As gargalhadas partilhadas, a imaginação que nos era capaz de levar a inventar partidas aos outros e a criar histórias magníficas.

A mãe a fingir que reclamava "mas vocês as duas têm sempre coisas para conversar?", orgulhosa da nossa ligação.

Por vezes parece-me ainda sentir o teu corpo frágil entre os meus braços (sempre fui mais "larga de ossos" como dizia a mãe). O que eu não daria por mais um abraço!

Nunca mais senti o prazer do teu Channel - parece que aquele perfume não liga com mais ninguém.

Nas dores que senti recentemente, faltaram-me os teus silêncios, os teus olhos tristes, a tua voz doce com que me chamavas. A tua mão a brincar com os meus cabelos.

A forma como sabias como estava, só de te atender o telefone.

As tuas crises de mau feitio - acho que foi aí que ganhei o jeito para lidar com maus feitios. E neste momento revejo o teu ar zangado quando te provocava, dizendo que tinhas mau feitio. 

14 anos... 

Continuo a não acreditar em Deus nem em paraísos, mas quando estou a ceder à dor das perdas que a vida me tem trazido imagino-me num universo paralelo, num sítio agradável, uma praia como tanto gostavas!, e converso contigo.  Às vezes juntam-se a nós outros que já partiram. Uns que terias gostado de conhecer, outros que conheceste - o nosso pai, também hoje, faz 4 anos. Curiosamente, há 4 anos como há 14 anos fazia uma tempestade medonha!

Mas neste dia, em cada ano é  este universo que me toma, e me deixa assim. Esforço-me por manter o sorriso, mas hoje foi difícil.

Como dirias: deixa lá, choro hoje e amanhã já volto a rir.

Abraço-te, na minha imaginação, mais uma última vez.

Até um dia.

 

Os desafios da abelha - um texto sem uma única letra "a"

“Difícil, difícil”, diz Jerónimo. Os olhos pequenos, pouco serenos.

Com todo o entendimento, consome minutos no imprescindível e forçoso discernimento.

O bigode pomposo, trémulo com os movimentos, conivente com o seu rebuliço interior, é reflexo óbvio do momento decisivo.

Entrementes, o tempo correu, sem que surgisse o desenredo.

Corroído, Jerónimo, socorre-se do seu último recurso:

“Edite”, diz em voz doce, “luz do meu ser, que me dizes?”

Edite reflecte um breve momento. Com um brilho nos olhos escuros, depõe um ósculo doce no rosto de Jerónimo e firme responde:

“Veste o cinzento. Só Deus entende esse teu gosto por verde!”

 

Resposta a Um desafio da abelha, bem desafiante

Sábado

Durante anos trabalhei ao sábado.

Trabalhava durante a semana, e sábado lá ia eu outra vez.

Era necessário.

Anos houve, como o ano passado, em que terminava o trabalho de sábado já na hora de jantar.

Habituei-me a ter apenas o domingo para aproveitar.

No final do ano passado achei que era tempo de mudar. Era um plano viável, de certa forma fácil de implementar e assim, em Janeiro deste ano, passei a dispor dos fins de semana completos.

Mas entretanto, entrou uma pandemia que me trocou as voltas de novo, e, embora mantivesse os sábados livres, não os conseguia aproveitar como deve ser.

Quem trabalha, ou trabalhou, a partir de casa sabe que se pode tornar infinitamente mais cansativo, fazer reuniões e afins pelo dia fora, frente a um computador.

Junto com o stress da situação anómala, dei comigo a não aproveitar os sábados como queria.

Com o tempo o ser humano tem tendência a procurar ajustar-se às situações e, para ajudar, voltei ao trabalho presencial (as pessoas faziam-me falta. Fazem falta!).

 

Hoje, sábado, lembrando que haveria recolher obrigatório a travar a tarde, resolvi ir ver o "meu" mar de manhã. Soube-me pela vida!

De tarde, foi o prazer de me estender numa chaise longue, na varanda, a apanhar sol e a pensar na semana que termina.

Foi uma semana de novidades de amigos. Amigos que cumpriram sonhos e objectivos: um estágio, um emprego, uma gravidez há tanto desejada, uma relação assumida... Outros que passam por momentos difíceis, com perdas, más notícias, medos e tristezas.

Foi uma semana de auto-revelações também, que me levaram a lágrimas e sorrisos internos. 

Contas feitas, no final: foi uma semana no mínimo interessante. 

E o melhor de isto tudo? 

Ainda tenho um domingo inteiro para aproveitar!

IMG_20201121_122903[6347].jpg

Bom domingo!

 

Sente

Sentes?

 

Sou eu, viva, cheia de fulgor, cheia de amor, cheia de vida.

Sinto em mim todo o sangue que me corre nas veias, que acelera e me aquece, esbraseando o meu rosto frio do vento que nos fustiga. 

 

Sentes?

 

O tempo que por nós passa, não deixa marcas, não dá sentido. Apenas o vento se faz sentir.

O vento e o pulsar da vida dentro de cada canto, de cada célula do meu corpo.

 

Sentes?

 

Sou eu que aqui me encontro. Totalmente entregue, totalmente despida de tudo o que me rodeia. Totalmente cá. Pronta a entregar o que tenho de mais precioso - o meu ser. Minha posse única na vida, no mundo.

 

Sentes?

 

E isto é tão pouco para o muito que sei que podemos criar. Que podemos descobrir. Que nos podemos ensinar.

Temos tudo e não temos nada. A não ser um mundo inteiro e a vida dentro de nós.

 

Sentes?

Interlúdio silencioso

I'll water the flowers, / Keep an eye on the rain / Breathe, and remember to swallow / Take time out to games / Live like there's no tomorrow / Happiness is a long discipline.*

 

O céu está pesadamente rosa, como se preparasse uma noite de chuva.

O silêncio da casa espelha o silêncio da rua. Nem os vizinhos se ouvem.

Sentada no pequeno escritório caseiro, aproveitei a tarde para adiantar trabalho para  a próxima semana, mas também para preparar o meu regresso a outras paragens.

O trabalho fluiu bem, ao som da música, cujas palavras foram reverberando na fímbria do meu ser e transverberando no silêncio do meu estar.

A sensação de este ano me ter sido roubado, vai-se acentuando. 

A ausência dos longos jantares com amigos, das noites de teatro ou de cinema; a conversa e o riso pela noite fora.

O regresso a casa, com o sabor da noite ainda nos lábios, a alma satisfeita, o corpo cansado.

 

My friends will come over / I'll bake bread and drink wine / No need to beg or borrow / Just enjoy what's mine / Make love like there's no tomorrow.*

 

Este fim de semana era suposto estar em congresso. Algo mais adiado.

Sinto-me como se tudo isto fosse uma longa interrupção, que nunca mais acaba.

Apetece-me dizer que não quero mais, e, tresloucada, percorrer todos os interditos antes de terminar o meu dia final.

Respondes-me que tudo é temporário, que também isto será passageiro. Para ter calma e esperar.

Mas o tempo escasseia, e cada minuto perdido não será recuperado. 

Respiro fundo.

Nos momentos de maior impaciência, parece-me ver o tempo a derreter como os relógios de Dali, enquanto procuro sair deste torpor surreal.

 

Happiness is a long discipline.*

 

A tranquilidade também.

Ao menos estivesses tu aqui. 

Quebraríamos o silêncio num abraço partilhado;

Uma espécie de prelúdio ao que ainda há de ser.

 

* Ana Laan, "Happiness is a long discipline" in "Chocolate and Roses" (2008)

 

 

Cinzentismo

A noite está tranquila.

O silêncio só é cortado pelo som das ondas a rebentar na praia, ao longe.

Deitei-me e fiquei a olhar o silêncio, para lá das janelas; as cortinas abertas para deixar entrar um pouco do mundo lá fora.

No prédio em frente, numa casa alugada a estudantes, luzes ainda acesas permitem-me ver um rapaz que se debruça sobre o computador. 

Fecho os olhos, esperançosa na chegada do sono, mas nada. O comprimido tarda em fazer efeito. 

 

Hoje o dia foi longo de trabalho. Comecei às 8h30 e terminei às 19h. Não totalmente seguidas, houve algumas interrupções pelo meio.

Sou uma privilegiada. Continuo a ter trabalho. Ali trabalhávamos 6 pessoas - 3 com trabalho diário e 3 com trabalho esporádico uma a duas vezes por semana. Restamos agora duas, e uma com horário reduzido. De um espaço cheio de gente, som e movimento, vejo-me agora a trabalhar sozinha na maioria do tempo. Terrível a nostalgia de ver os espaços de colegas vazios!

Observo nos miúdos com quem trabalho os efeitos desta maldita pandemia; um que limpa as mãos compulsivamente; um ataque de ansiedade aqui e ali; uma perda de energia, de resiliência na grande maioria deles. Dou o que posso, por eles. Desvio-me do trabalho, de tempos a tempos, e falo de assuntos que sei que os animam: há o que gosta de discutir o mundo, o que prefere falar do espaço, a que gosta de ouvir histórias e curiosidades...

A dúvida se a ajuda é eficaz, fica comigo. Mas eu sou uma mulher de dúvidas! 

Como ficarão estes miúdos quando isto terminar? Como ficaremos nós?

 

Hoje ao estacionar o carro junto do trabalho reparei num homem que passava. Chamou-me a atenção pelo andar arrastado, os olhos no chão. Ao passar pelos contentores do reciclável parou. Existe ali um outro para doação de roupa, que tinha um saco pendurado - possivelmente de alguém que não tivera força para o empurrar lá para dentro. 

Discretamente o homem retirou o saco, garantindo antes que ninguém o via. De seguida acocorou-se por trás dos contentores, olhando para os lados, e cuidadosamente analisou algumas peças de roupa, retirou duas camisolas, fechou de novo o saco e devolveu-o ao contentor. Dobrou as peças retiradas, guardou-as e lá seguiu caminho. Fiquei a matutar naquilo. 

 

Mais tarde, as palavras de uma miúda "se é para viver assim para sempre, então não quero", funcionou como um choque que me fez reagir de novo.

 

Mas agora é noite, e o comprimido insiste em não fazer efeito.

O mar ruge mais baixo.

E eu resolvi vir até aqui, desabafar um pouco. 

Não sei. Talvez devesse falar de amor ou sonhos em vez disto. Mas estou demasiado cansada para tal. 

Enfim, amanhã será outro dia e pode ser que eu volte a acreditar que vai correr tudo bem. Ou pelo menos que consiga fingir ou me enganar. 

Fiquem bem.

 

Sonho

cansada de mais um dia, 

a noite acolheu-me em seus braços,

qual criança embalada, 

em lençóis quentes envolvida.

os sonhos, vívidos como habitualmente,

trouxeram recordações há muito esquecidas.

a paisagem já não é a mesma,

cheira a verde e a mar.

As flores que compõem o caminho, 

rosas, jasmim, alfazema,

banhadas pelo luar,

completam os sentidos, 

exalam odores que me enchem a alma

e adoçam o coração.

abro os braços e deixo-me levar pelo vento,

em direcção a paragens novas.

De caminho estendo a mão e convido-te:

vem, voa ao meu lado,

partamos neste mesmo sonho.

Até de novo ser dia.

Regresso

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Consegues ver-me por entre o fumo e as chamas?

 

Distinguir, ao longe, o meu perfume?

 

Conheces o meu sabor,

misto agridoce de mulher?

 

Reconheces as curvas do meu corpo,

Os enredos da minha história,

Os limites do meu ser?

 

Recordas o meu toque,

O tom da minha voz,

Os meus recantos,

Os encantos do prazer?

 

A resposta a todas as questões,

Temperada a razão e emoção,

Será, creio, um completo e redondo não.

 

Ateaste o fogo,

Seguiste o teu caminho e

Deixaste o madeiro a arder.

 

Das cinzas renasci,

Não mais bela, nem mais forte,

Sábia ou descrente.

 

Apenas renovada,

A fogo interno alimentada,

pronta para o que aí vem.

 

Mas creio que não estarás por perto para ver.

 

Agora é a minha vez.

Nada

O vento que sopra lá fora, 

A cabeça vazia, 

De madrugada a trovoada, 

chuva fria. 

 

Lá fora o mundo refém, 

De um tempo que não passa, 

Cá dentro, nada mais se detém, 

apenas o nada. 

 

Para quê? porquê? onde? 

Perguntas sem importância, 

O tudo que deu em nada, 

O nada em primeira instância. 

 

Longe, perto, tanto faz. 

Um tempo que fica, 

O sino repica

E é o medo que se desfaz. 

 

Entre saltos e corridas, 

Instantes de paz, 

Sobressaltos e despedidas, 

É o Nada que fica,

 

É Nada que me traz. 

 

Até sempre.

 

 

 

 

 

 

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