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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Aqui ficam as doçuras, no outro as travessuras.

Nuvens

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Segunda semana de férias. Como resultado, sinto o meu ser mais apaziguado. 

Numa pausa dos afazeres diários, estendo-me no sofá, de frente para a janela. Desta perspectiva pouco mais vejo, além da copa despida das árvores e do céu.

Se as árvores, despidas de folhas, me evocam o frio da realidade dos dias, o céu pontuado por nuvens traz algum calor.

Parecem algodão, espalhado com mais ou menos primor. Umas mais esfarrapadas, outras mais compostas, vogando lentas pelo meu horizonte. Ilusoriamente parecem ao alcance da mão.

Lembram-me sonhos. Lentos, passam por nós, quase alcançáveis, mas que se desmancham, esfarrapam ou seguem o seu caminho independente das nossas vontades. 

Deixo-me por elas embalar, a compensar uma noite muito mal dormida, de sonhos difíceis. 

Quem sabe, talvez uma delas sirva de transporte e desembarque num outro lado, onde dois braços me esperam, a aportar as minhas inquietações.

Muros

Vivo de sonhos,

Alimentada a irrealidades que me rodeiam

feitas muros contra o quotidiano,

que me dói.

Mas os muros com o tempo criam brechas,

e em vez do sol a trespassá-los,

passa um vento miúdinho,

frio,

persistente,

moente,

a desencantar.

A acordar.

Natal 2020

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Chego à conclusão que este ano pretende ser antipático mesmo até ao fim.

Pessoas que não poderei abraçar, por estarem longe e não poderem vir cá; pessoas que estando perto não poderão partilhar os belos momentos da nossa tradicional véspera de Natal.

No entanto, resolvi que vou dar luta a este ano até ao fim.

Assim, amanhã a manhã será passada na cozinha; hoje recolhi os pedidos dos doces de eleição para à tarde ir entregar onde me for possível chegar.

E fica combinado: seja em Janeiro, Fevereiro, primavera ou verão, faremos de novo as azevias, os sonhos de abóbora, as fatias douradas, refrescaremos o espumante e festejaremos de novo o Natal de 2020.

Com tudo o que temos direito - abraços, gargalhadas e jogos de tabuleiro.

 

A todos os que me acompanham aqui e que me deram o prazer de conhecer os seus textos ao longo deste no louco, votos de um muito bom Natal!

Abraço

Manuela A.

Viver

"Todos elogiam o sonho, que é o compensar da vida. Mas é o contrário, Doutor. 

A gente precisa do viver para descansar dos sonhos."

Mia Couto in "Venenos de Deus, Remédios do Diabo"

A frase foi-me oferecida assim, sem comentário, nem esclarecimento.

Estaquei a turbulência dos meus pensamentos esvoaçantes, e, enquanto os versos das Águas de Março acompanhavam as nossas chuvas de Dezembro, apercebi-me que nada me poderia ter feito mais sentido nestes dias que têm corrido.

Estou cansada de sonhar. 

Sob a minha capa de racionalidade, o sonho é permanente.

Cansativamente presente.

Reflectindo-se na luta de cada dia para que passe a ser realidade.

Mas, creio, agora é tempo de viver; de dar descanso ao sonho, enfrentar a sucessão dia / noite e encontrar nos pequenos movimentos que me rodeiam a beleza e a poesia da vida ausente, embora sonhada.

Um dia de cada vez, despedindo-me dos sonhos já não atempados, nem esperados, e viver entre o ser e o estar de cada dia.

 

 

Cozimentos

Final de dia, mais um dia de cansaço.

Fui para a cozinha preparar o jantar, liguei a música, como de costume, mas numa repentina mudança de ideias, deixei ficar tudo calado.

Apenas o som próprio dos movimentos da cozinha. O tilintar dos pratos, o som seco da colher de madeira na panela.

Os pensamentos a deixarem-se levar pelos movimentos quotidianos, desligando das preocupações do dia, aligeirando o cansaço.

Uma espécie de ritual, que me fez crescer o sossego. Ou seria crescer no sossego?

Os movimentos foram-se aligeirando, lentificando, a fazer render o momento, a aproveitar o silêncio.

A preparar a noite.

A cozinhar um bom descanso.

Espera por mim

Espera por mim.

Eu regressarei.

Neste momento, parto numa viagem necessária, que se quer longa.

Descobri em mim um  espaço escondido. É um espaço que parece negro, sem contornos e cujo conteúdo não conheço totalmente.

Creio que por sob o negro existe todo um espaço luminoso e colorido à espera de ser reconhecido.

É em sua busca que devo partir.

Não prometo voltar a mesma.

Bem sei, neste tempo já tudo deveria estar descoberto.

Também te conheço o argumento de que, se há espaços negros, devem ser deixados no escuro.

Mas há um sonho em mim, que me faz acreditar que, tal como da noite surge o dia, dos espaços negros pode surgir a cor.

Por isso parto.

Se não encontrar o meu caminho de volta, ou sentires a minha falta, chama pelo meu nome.

Eu voltarei.

Também compreendo se não quiseres esperar, ou se a demora for demasiado longa.

Ou se receares o regresso de uma desconhecida.

Mas espera por mim.

Depois vemos o que ainda sobre de nós.

 

 

Rosa

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Rosa... Nunca foi das minhas cores favoritas.

Excepto o rosa final de dia, reflectido no mar, a seduzir-me os sentidos.

Uma espécie de canto encantado, que me desliga do dia e me recolhe na promessa de uma noite serena.

Por vezes, nesses passeios à beira mar, deparo-me com caras há muito perdidas. Reencontros com amigos que, distantes em espaço e tempo, não o estão em sentimento.

O retempero de um sorriso, de um olhar que nos lê, sem necessidade de palavras vãs.

O cheiro do mar, o pato residente a voar em contra-luz.

Pequenas peças de uma vida passada junto a este mar.

Recordados com carinho em dias assim.

Dias que me pacificam, banhados a rosa ou laranja final de dia.

Onde me deixo repousar.

 

 

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