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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Doçuras, travessuras, bons humores, irritações. Aqui todo o meu mundo fica guardado. Um pouco do que sou. Ou do que não sou.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Doçuras, travessuras, bons humores, irritações. Aqui todo o meu mundo fica guardado. Um pouco do que sou. Ou do que não sou.

O mantra

Sábado à noite. Mais uma vez o sono resiste ao sonho de uma noite descansada. 

Pego no mantra que me foi entregue, esta semana.

Dizem que foi tirado de uma carta ética de samurais japoneses do século XIV. Não sei se é verdade. 

Resolvo tentar. 

"Não tenho poder divino; faço da honestidade o meu poder divino"

Conseguirás? 

"Não faço milagres; faço da minha conduta o meu milagre" 

Respiro fundo. A dúvida continua a assaltar-me. 

"Não tenho inimigo; negligencio o meu inimigo" 

Respiro fundo.

"Não tenho nenhum segredo mágico; faço do meu personagem o meu segredo mágico" 

Mais uma vez penso que estas frases não são as certas para mim. Têm algo de inatingível.

"Não tenho armadura; faço a minha armadura da minha benevolência e rectidão" 

E aqui termina. Onde também eu me sinto terminar. 

O sono não chegou, mas dum mantra de 6 frases, vejo crescer a dúvida e a óbvia pergunta: o que tens andado a fazer nestes longos anos que já passaram?

Não é de um mantra que preciso.

É de acções.

É de coração e cérebro unidos numa só frente. 

É, em suma, de acreditar que as palavras daquele mantra talvez não estejam tão longe quanto isso do caminho a percorrer. 

Carta

IMG_20210225_013549.jpg

Escrevo-te para te dizer que o teu silêncio não me incomoda.

Cansam muito mais as palavras de circunstância. 

Saudades? Sim. 

Do teu corpo na noite, ao lado do meu. De beber no teu hálito matinal a coragem para o quotidiano.

Não. Não estou zangada pelo teu silêncio. 

Talvez esteja - sim, certamente que estou - zangada com a abundância de palavras que me sobram, agora, tão inúteis! Prenhes de redundâncias e vazios. Os "amo-te", os "vem". 

 

Olha, guardo-te ainda nas evocações do meu caderninho, enquanto aguardo o final do tempo das memórias. 

 

Poderia terminar dizendo que te quero bem, mas seriam mais palavras vãs. 

Recebe apenas o meu "quero-te". 

Quem sabe? Talvez um dia deixes de ser desejo. 

Adeus. 

Leva-me

Leva-me embora.

Abre os teus braços, manto protector do meu frio eterno,

e recolhe-me dentro dos teus sonhos.

Apaga-me deste ser.

 

Apago-me das memórias

e já não sei se quero recordar, sequer.

 

Eleva-me,

nos ares com as tuas garras de falcão,

e se a meio caminho perderes a força,

deixa-me cair.

Não importa.

 

Sublima-me,

no ser que já fui e não voltarei a ser.

Deixa-me ser de novo vento,

percorrer os cabelos dos incautos

e neles embaraçar novos pensamentos.

Pairar sobre o mar,

embalar o voo das gaivotas,

por sobre os outros sons, assobiar.

 

Leva-me silencioso.

 

Revela-me o infinito,

para que possa, de novo, nascer.

 

 

Escritas, ditas e desditas

Ontem, enquanto dissertava disparatadamente em torno de uma maçã, foram surgindo outros pensamentos, que se foram enrolando e desenrolando, em jeito de novelo de lã.

O que me leva a escrever? Não sei. É algo que me acompanha desde sempre. Talvez a necessidade de pôr tinta em papel. Forma alternativa do dizer. 

No entanto, nem sempre escrevo o que sou ou sinto. São por vezes textos sonhados, libertos no limbo que separa o sono do sonho.

Outras vezes, não tão pouco frequentes quanto isso, são simples exercícios de imaginação. E se agora eu sentisse isto, como expressaria? Como o expressei da última vez que senti tal. Se é que o cheguei a exprimir. E se eu fosse outro que não eu?

Palavras escritas, partilhadas ou privadas. 

Palavras trocadas a dois, lidas por dez, sentidas por alguém.

Gosto de regressar de vez em quando a palavras passadas, guardadas ou trocadas com outros. passear por diários, reler cartas (ainda as escrevo), emails recebidos e enviados, recuperando sentires e conhecimentos, ou fazendo novas leituras. Até chegar o dia da despedida, em que tais rastos são apagados, rasgados, essências guardadas na memória. Tempos terminados.

Já a publicação de textos nasceu, no meu caso, de um desafio. Um colega de curso. Ele desenhava durante as aulas, eu escrevia, e no processo integrávamos, cada um à sua maneira, a informação recebida. Um dia foi-lhe proposto uma exposição, e em resposta ele desafiou-me à exposição dos meus textos.

E o que começou como um desafio passou a ser um processo terapêutico. Um modo de enfrentar, de forma mais ou menos recatada, o meu medo de estar à vista, de me mostrar. Que me levou, depois, a aceitar outros desafios.

Escritas. Palavras ditas e desditas. Resmas de papel guardadas no fundo de um armário para que, um dia, quando já cá não estiver, alguém os ler ou rasgar.

Maçãs, príncipes, venenos e outras coisas sem nexo

IMG_20210220_195110.jpg

Pousei-a na bancada da cozinha.

O seu tom vermelho lembrava o conto infantil de que menos gostei.

Peguei-lhe para a comer, mas hesitei. Uma maçã envenenada. Depois ficar a dormir até que um príncipe me acorde. Não consegui reprimir a gargalhada.

Estava bem tramada, se ficasse a depender de um príncipe. 

Mirei-a de novo, agora colocada na palma da minha mão.

Nunca fui dada a príncipes. A minha história sempre foi mais de Monstros, embora pouco tenha de Bela. Em comum, apenas o gosto pela leitura.

Olha o devaneio a que me leva uma mera maçã!

Volto a olhar. Mas porquê a hesitação? Já provei tanto veneno que o de uma maçã não me afectaria. 

Aliás, se bem me lembro, a última vez que um príncipe, tentado pelo meu sono sem sonhos, me tentou beijar a alma, acabou a provar um pouco do meu próprio veneno. Não foi intencional...

Olhei para a chuva, que continua a cair, e deixei-me de pensamentos sem nexo. O que me faz uma casa vazia!

Mordi a maçã e deleitei-me com o seu sabor, enquanto seguia as gotas de água na janela.

Já perto do final, olhei para o seu interior e vi fios vermelhos, como se sangrasse.

Olha, afinal a maçã era cá das nossas! Singular por fora, por dentro era apenas mais um coração sangrante.

Ora balelas! Acabei de a comer.

Para o que a chuva, o silêncio e uma maçã me haveriam de dar, pensei, enquanto deitava fora o caroço.

Primavera procura-se

São dias assim, em que parece que se caminha com os pés descalços pela vida, 

e os caminhos, pejados de pequenos vidros e pedras que nos cortam os pés,

adormecem-nos os sentidos, até que nem da dor memória sobre.

Os passos tornam-se lentos, pelo cansaço do trajecto,

pela desistência da meta ou pela ausência de embalo.

É nesses momentos que se torna essencial a primavera

e que uma flor se nos atravesse no caminho, inebriando-nos com o seu aroma.

De outra forma instala-se a noite escura, pesada e fria, 

que nos impede de ver mais longe, para lá do caminho presente.

Manhã de domingo

IMG_20210212_011303.jpg

O tempo tornou-se difuso, 

à primeira vista, confuso

de cores misturadas, 

e ilusões manobradas.

O meu corpo junto do teu,

discreto no desejo que irrompeu,

oferece crente, carente,

numa solitude incoerente,

o eu que sou mas nunca se deu.

A manhã fez-se tarde,

tu partiste, sem grande alarde,

levando no teu corpo leve

a solidão que me fez breve.

 

 

 

Por dentro

As horas passam no trabalho. Ouço, falo, por vezes gargalho (curioso o verbo gargalhar?).

A mente concentrada no que faço, calma, compassada. Entregue.

Depois... Depois é outra história.

Sorrio, como se tudo fosse tranquilidade, tomo-te a mão, seguro-te os olhos enquanto te digo:

- Não te preocupes, breve, breve tudo isto irá passar. Depois será só mais uma memória, mais um marco na tua história.

E até te posso explicar como estas memórias podem funcionar.

Mas por dentro, uma outra voz soa, duvida. E se não passar? E se se arrastar a um tempo infinito. E se...

E sorrio, enquanto guardo no meu silêncio ausências que não se preenchem

 

Nocturno

Um dia que finda, uma noite que começa.

Deitada na cama, o sono teima em não se afastar. 

Relembro as palavras do dia: "É só mais uma prova, tu aguentas, já passaste por outras". Suspirei de alívio pela ausência do costumeiro "tu aguentas", tão inapropriados como insensíveis, mas já típicos nestas ocasiões. 

Levanto-me, dou mais uma volta pela casa, na secreta esperança de encontrar algo que não devia ser, para poder acreditar que tudo não passa de um sonho. Mas nada. Confirma-se: ainda não adormeci. 

Passo num espelho e enfrento um reflexo sem brilho. Olhos no presente, coração de menina ausente. 

Onde é que fiquei? Onde é que sou?

O olhar, fixo no presente, já não corre o passado nem foge para o futuro.

Enquanto volto para a cama lembro a frase publicitária "o futuro é agora". Bolas, se isto é o futuro, então o que é que ando aqui a fazer? 

Deito-me de lado, cansada de mim mesma. Ligo a aplicação de meditação e finjo que acompanho a voz que me tenta guiar. 

Na verdade, quero apenas o som de algo, uma voz que me embale para mergulhar na escuridão a sério. 

Talvez mergulhando na noite profunda, consiga voltar a ser dia. 

 

 

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