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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Doçuras, travessuras, bons humores, irritações. Aqui todo o meu mundo fica guardado. Um pouco do que sou. Ou do que não sou.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Doçuras, travessuras, bons humores, irritações. Aqui todo o meu mundo fica guardado. Um pouco do que sou. Ou do que não sou.

Vem comigo

Vem comigo.

Vamos procurar espaços novos, novos cheiros, novas cores.

Calçamos os sapatos e vamos sem destino - de mão dada ou separados, conforme as larguras de estrada e de humor.

Conhecer velhos amigos, encontrar novos escritos nas paredes que nos façam rir, ou chorar, ou pensar, mas acima de tudo sentir.

 

Por vezes parece-me que estamos tão cheios de hoje, que nos esquecemos de nós. Tão cheios de ontem que nos esquecemos de saborear. Tão cheios de futuro que receamos viver.

Olha, então, vamos dar a volta ao quarteirão, ver os desenhos das sombras no chão, como se não conhecêssemos de sobra os objectos que as projectam.

Vem comigo, vamos redescobrir o prazer de viver cada dia, como se fosse o primeiro, ou o último.

Vamos sentar-nos num muro sem vista e fechar os olhos. Pintar a cores imaginadas tudo o que ainda não existe. Mas que havemos de conhecer.

Até podemos imaginar que somos nós que vamos ali a andar lado a lado, no mesmo caminho.

Vem comigo.

Vens?

Projectos

Há projectos que criamos que são uma verdadeira "carolice".

Não os fazemos por dinheiro, pois dali não tiramos absolutamente nada. 

Dão-nos trabalho. Ocupam tempo.

Mas, já a minha prima Efigénia dizia, quem corre por gosto, não cansa. Ao que corrijo, cansa, mas disfarça o cansaço.

Por vezes é desses pequenos projectos que vêm alguns dos nossos prazeres, alegrias inesperadas. Que alimentamos o ego. E não me venham dizer que projectos voluntários não são para isso. Quem não tira um penso para a alma ou um alento para o ego de projectos criados por carolice, que atire a primeira pedra. 

(E nisto vem o pensamento, prepara-te para a pedrada, que vai na volta és tu que és egocêntrica mesmo. Paciência, pelo menos sou assumida )

Enfim, são dias em que nos sentimos capazes de mudar o mundo. Ou pelo menos o nosso mundo e desviar a localização do nosso umbigo...

Abril

"Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo"

Sophia de Mello Breyner

 

Digam o que disserem, Abril é sempre Abril.

Refiro-me ao 25 de Abril.

Este ano, como no anterior, a pandemia condiciona festejos, impossibilita tradições iniciadas em pequena com os meus pais.

Mas não festejar o dia da Liberdade é algo para mim impensável. É só usar a imaginação.

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Como não festejar?

Não fosse o 25 de Abril de 1974 e, provavelmente, não estaria aqui a escrever um blog.

Na minha família ninguém teria chegado a estudar na universidade, era algo economicamente inviável. 

Provavelmente, meus irmãos teriam acabado numa guerra incompreensível e impossível de ganhar. Como todas as guerras.

Nenhum de nós poderia maldizer o sistema, com ou sem razão.

Eram tempos em que uma denúncia, mesmo que infundada, podia ser o fim. De uma carreira, de uma família, de uma vida.

 

Em tempos de regresso às pequenas denúncias, às intolerâncias e às perdas de liberdades (justificadas ou não) Abril quer-se vivo. 

Mas acima de tudo a liberdade de Abril quer-se na cabeça, no coração, no pensamento e nas acções.

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Tenham um bom dia da liberdade.

Janela

Quando me sento à mesa, seja para almoçar ou jantar, costumo ficar de costas para a televisão, de frente para a janela ampla sobre o bairro.

Nesta altura do ano, ao almoço, admiro o contraste dos verdes das árvores que se cruzam; o escuro do pinheiro, a folhagem da azinheira, os verdes mais claros das acácias e dos choupos, entrecortados, em certas alturas pelo rosa das olaias.

O melro que se instalou na árvore mais próxima embala-me o sonho acordada entre o verde e o azul do céu.

À noite, quando há vento, a dança das árvores faz tremeluzir as luzes vizinhas, lembrando-me histórias - umas reais outras nem tanto. Pequenos pirilampos de memória. 

Há lá televisão que me dê melhor entretém que a vista da minha janela!

São momentos de paz, frequentemente vivenciados sozinha, num embalo que muito me anima e recupera para cada dia. 

Procuras

Sabes, durante anos procurei por alguém como tu.

Que dissesse todas as palavras certas, no momento em que as precisava.

Que me estendesse a mão ou me segurasse quando tropeço.

E incrivelmente, lá estavas tu, um dia, na beira do passeio quando atravessava a estrada.

Sorriste como se nos conhecessemos a vida toda, e quando efectivamente nos conhecemos parecia ser assim.

Falávamos em silêncio, sabiamos o que cada olhar do outro queria dizer. Uma amizade perfeita.

Um dia os silêncios ficaram para sempre. Não há mais a tua mão, o teu olhar.

Seguiste viagem.

E eu? Ainda pensei que um dia te ia substituir, mas há coisas que só acontecem uma vez na vida, quando chegam a acontecer. Olha que bem procurei, tentei, mas nada.

Hoje limito-me a procurar por mim, bem no fundo do meu ser. Que mais posso fazer?

Idades

Há vantagens no envelhecimento.

Principalmente para quem foi insegura na adolescência e juventude.

Passamos a vida com medo do que os outros vão pensar, se vamos perder aqueles que amamos, se as coisas não vão correr bem, se não conseguimos um trabalho que pague o suficiente para se viver para além da sobrevivência, se... se... se...

Lutamos contra os medos, as inseguranças e vamos construindo uma vida.

Remamos, frequentemente, contra a maré até chegarmos a um porto mais ou menos seguro. Uma espécie de pouso a meio caminho para recuperarmos forças.

Um dia vem uma onda maior, um evento que nos apanha completamente desprevenidos e deita tudo abaixo. 

E nós recomeçamos. Cuspimos toda a água que nos engasga, guardamos a memória do sabor amargo que sentimos, tapamos as feridas, os arranhões. E recomeçamos.

Um dia encontramos novo porto. Ou nova onda. Ou ambos.

Uma espécie de dança de conquista entre nós e a vida. Nós almejamos quebrar amarras e barreiras. Ela, por vezes, parece querer quebrar-nos.

Umas vezes caímos e levantamo-nos. Outras alguém nos levanta.

Alguns de nós perdem as forças e ficam caídos. Não são desistentes, são resistentes sem força nem escoras.

E nisto os anos passam. Oferecem-nos cicatrizes como prendas, que disfarçamos como podemos. Trazem amigos e levam alguns, também. 

Trazem dores. E amores. Levam os segundos e deixam-nos ficar com as primeiras.

 

Um dia percebemos que o tempo passou.

Levantamo-nos de manhã, vestimo-nos e pensamos "Estou aqui. Independentemente do que consegui, cheguei aqui".

Nesse dia deixamos o disfarce de lado e exibimos, não orgulhosamente, apenas com naturalidade, as nossas cicatrizes. Se ainda tivermos coragem, acariciamos cada uma delas a lembrar as batalhas.

 

Foi num desses dias que entendi as mulheres que, ao chegarem a certas idades, começaram a vestir aquilo que lhes apetecia sem pensar nas convenções, a pintar o cabelo de tons menos naturais, a dançar sozinhas...

Porque não?

Ontem marquei o cabeleireiro. Hoje mudei o visual e saí orgulhosa da nova cor do meu cabelo.

Condiz com as minhas cicatrizes.

Em casa, sorri perante o espelho. 

E, como a Alice, passei para o outro lado.

Um dia destes vemo-nos por lá?

Mergulho

Apetece-me mergulhar em ti;

Nadar nos teus pensamentos.

As tuas mãos nos meus cabelos,

ou seriam as minhas nos teus?

De tanto sermos, confundimos os espaços,

trocamos os passos,

duvidamos de nós.

Fecho os olhos e sinto o teu cheiro,

vejo o meu sorriso espelhado no teu.

Serão sonhos?

foi realidade?

Serás futuro?

Não sei. 

Por ora, mergulho em ti.

Aroma a rosas

Hoje recomecei a fazer o meu trabalho presencialmente, em tempo parcial.

Sinto-me cansada, não só do trabalho mas destes tempos, que me têm exigido mais energia do que às vezes sinto ter.

Mas pronto, como diz o outro, o tempo não está para mariquices e leva-se o barco, umas vezes a favor, outras contra a maré. Faz parte! 

Relatórios de trabalho por terminar, raptei o computador do escritório da casa e fugimos juntos para a sala.

Comecei a martelar as teclas, concentrada na rotina periódica de escrever relatórios, quando fui sentindo em mim uma espécie de torpor agradável. 

Uma sensação de conforto, trazida por um aroma calmante. O aroma das rosas ao meu lado.

Tão belas, tão perfeitas nas espirais das suas pétalas que abrem, que fazem esquecer os espinhos. 

Os delas, os meus e os da vida.

Tolamente sorrio, enquanto os olhos se humedecem e me encosto na cadeira. 

 

Acho que os relatórios podem esperar até amanhã.

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