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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Doçuras, travessuras, bons humores, irritações. Aqui todo o meu mundo fica guardado. Um pouco do que sou. Ou do que não sou.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Doçuras, travessuras, bons humores, irritações. Aqui todo o meu mundo fica guardado. Um pouco do que sou. Ou do que não sou.

Final de dia

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Adoro o final de dia.

Aquele momento em que o céu vai perdendo a sua luz, matizado de azuis gradualmente menos claros.

Em dias bons, há em mim uma paz interior nessa hora. Uma espécie de esperança no dia que vem. Ou de esquecimento momentâneo.

É algo que me acompanha desde pequena. Adorava, no verão, ficar na varanda, as mãos na parede a sentir o calor acumulado, o bairro a aquietar-se. E eu com ele. 

Isto enquanto as anda rainhas voavam perto de mim. 

 

Um final de dia, um instante pleno de nada, um espaço aberto para o dia que há de vir. Sem esperanças ou expectativas. 

Um dia de cada vez. 

 

Lua

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Lá está ela, de novo sobre os telhados, espreitando vidas alheias, como que a assegurar-se que a vida prossegue o seu rumo. 

Vê-la assim cheia, lembra-me um trecho de um dos meus livros favoritos, "O livro de San Michelle" , em que a lua visita o autor, espreitando pela sua janela, arrancando-o dos seus sonhos.

A mim, que ainda não sonho quando ela me espreita, traz o prazer da companhia, a luz reflectida, emprestada por outrem, encerrando segredos partilhados, confissões mudas e finalmente, alimentando fantasias que me induzem o sono.

Melhor que um qualquer soporífero, embala-me em esquecimentos, trazendo a beleza e serenidade que me falta durante o dia.

 

Distância

Por vezes sinto-me distante de todo o mundo.

A realidade nada me diz, o sonho nada me traz.

Entrego-me ao quotidiano, corpo presente, cabeça ausente.

Insatisfeita com tudo, desiludida com o que fiz.

Deixo-me vogar na vontade dos dias, hora após hora, dia sim, dia sim.

 

Os meus sentires aumentam mais a minha distância; os outros não procuro.

Desculpo-me com a pandemia, o cansaço, a vida.

Este ser que é estar. Que não ama. Que não amo.

Distante do mundo, distante de mim.

 

 

Desvarios

Ah, o prazer de ser, de estar, mas não de ficar.

Correr ao encontro das minhas muralhas, pela fresta espreitar o mundo que não sou.

Sentir o arrepio das oportunidades perdidas, a ansiedades das verdades encobertas e beber mentiras simpáticas como se de licores doces se tratasse.

Fechar os olhos e com esse gesto apagar a alma, o mundo, o tempo e o espaço.

Deixar o passado no caminho trancado.

Fechar os sonhos, desiludindo a promessa de uma nova ilusão.

Partir, de malas vazias, para as encher, no caminho, de memórias de outros que não eu.

Deixar tudo para me encontrar numa qualquer esquina da cidade.

Deixar-me. 

Meio-destino

Hoje acredito que temos sempre um destino em qualquer parte, e que o importante é localizá-lo, ainda que submersos num rio de meios-destinos. E dizer destino é um pouco, antes, é também dizer solução.

(José Bação Leal in Poesias e Cartas)

 

Só na inércia de um sábado à tarde, estendida numa chaise-longue, perdida na penumbra da sala e dos pensamentos vazios, é possível reconhecer uma frase que me complementa os pensamentos.

Quando a vida nos faz de uma teia de escolhas, de respostas - a necessidades umas vezes, a desejos menos frequentemente - a dado passo, dá-se a perda do pé, ou caminho cai de vista.

Como que ficamos parados a pensar no agora, no ontem, porque o futuro parece ter deixado de existir. De ser vislumbrado. De ser desejado.

Nem sempre são momentos de desespero, mas de decrescente esperança. 

 

Tirado da prateleira, as "cartas" de José Bação Leal fizeram-me mergulhar na zanga de um jovem, em plena guerra colonial, adivinhando em cada página o seu destino errado. Bação Leal seguiu para um "meio-destino" pantanoso, rogando pelo seu direito a um outro destino.

 

Fechado o livro sobrou-me a frase, repetindo-se dentro de mim numa espécie de ressonância, ecoada pelas paredes do meu estranhamente ausente pensamento, vibrando-me as entranhas, lembrando-me ainda viva.

 

O importante é localizar o destino, mesmo que submersos em vários meios-destinos. Mas, esse destino-solução, como distingui-lo dos meios-destinos da vida? 

Serei eu apenas um meio-destino?

Sobra a dúvida da utilidade de tais pensamentos.

De um modo ou outro, mesmo que inerte, algum destino me encontrará. Seja como for.

Ou onde for.

A caneta

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A caneta, pousada sobre a mesa, chama. 

Brilhante, sedutora, pede que deixe tudo o que faço por um momento de escrita.

Olho-a de soslaio, evito-a, para que não perceba que não posso, nem lhe devo explicações.

Deito a mão ao lápis e escrevo palavras temporárias, fácil de apagar. Despidas de sentidos, de intenções.

Como explicar que não consigo mais que isto?

Que só tenho palavras fugazes, insensíveis, invisíveis.

Que os meus olhos se encontram cansados de tanto se enublarem?

Que algo secou e preciso esperar as chuvas da próxima primavera?

Até lá, as palavras permanecerão indizíveis.

Vem

Aguardo-te tranquila.

A expressão é serena, de quem sabe que a hora é certa.

Vem.

Espero-te sem ansiedade, segura do quente/frio do abraço que me prometes,

Do beijo que me dará o tempo que se sabe diferente.

 

Creio na certeza do nosso encontro, na irregularidade do tempo que se vai delinear em contínuo. 

 

Vem, que há muito te aguardo, sem pressa, sem medo, sem pudor. 

 

Nada mais tenho a esperar, nada mais tenho a dizer, a não ser Vem. 

Agora é o momento. 

 

Inclinações

A encosta inclinada marca a velocidade da subida, como as horas do dia marcam a velocidade do bater do coração.

Não há tempo que não esmoreça perante o olhar de quem sente a emoção, excepto o meu. Constante, mecânico, tenso, o tempo corre em direcção ao vento, ao cimento, à inclinação do que não sou.

Os músculos retesam-se, cansam-se numa espera curiosa do que vem. Fujo? Luto? Discuto comigo o que não faço.

Desejo, esperança, deseperança, tudo intenso, tudo extenso. Em todos me adenso.

Despeço-me de mim, despeço-me do meu ego, e mergulho na multidão, numa última tentativa de me dissolver.

Que de mim sobre apenas a memória do sabor a sal, o cheiro a alfazema e o sorriso de uma criança que um dia teimou em me sonhar.

Serei forma informe, inclinação de poeta, alma sem sonho, matéria solvente do meu querer por não querer.

Exercícios

Uma vez disseste-me que consideravas este meu exercício mórbido.

Não sei. Talvez tenhas razão.

Mas o certo é que continuo a lá voltar.

Estava ao sol, de olhos fechados, e a mente divagou para a vida. O que foi, o que é. O futuro.

Devagarinho, lá fui, deslizando para o tal exercício que detestaste descobrir.

O que teria sido se, em vez de mim, fosse outra pessoa a fazer tudo o que fiz. Tudo.

Imagino o que teria saído diferente, o que teria sido semelhante.

E de olhos fechados sorrio.

Chego sempre à mesma conclusão. 

Sim, aquela que te aterra: que sem mim tudo teria sido e acontecido. E tudo estaria igualmente bem.

É que aquilo que te assusta, a mim traz todo um mar de tranquilidade. 

O saber.

Que sem mim, o mundo giraria na mesma e tudo correria bem, na mesma. 

que as coisas teriam acontecido na mesma; mesmo que diferentes, teriam sido.

A primavera continuaria a suceder ao inverno, sem mim.

Os eventos aconteceriam diferentes, mas aconteceriam.

As borboletas e os pássaros continuariam a voar, sem mim.

E isso reconforta-me.

Talvez um dia percebas.

 

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