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Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Doçuras, travessuras, bons humores, irritações. Aqui todo o meu mundo fica guardado. Um pouco do que sou. Ou do que não sou.

Entre ser e estar

Medos, sonhos, sentimentos e sentidos alerta. Doçuras, travessuras, bons humores, irritações. Aqui todo o meu mundo fica guardado. Um pouco do que sou. Ou do que não sou.

Periodicidades

"Uma onda periódica é uma onda persistente que se repete no tempo e no espaço."

 

Vens em revoadas, em momentos inesperados, ou em locais dispares,

normalmente em momentos em que já não te espero.

Enches-me o peito, numa espécie de emoção que tudo contém,

alegria, tristeza, raiva, esperança;

a frequência dos meus batimentos alteram-se ao ritmo da tua recordação,

umas vezes pulsante, outras em longa duração

e segundo a segundo bato-me para me desviar do teu efeito que me altera o ser.

A matéria que me rodeia não te pára, pelo contrário,

propaga-te em repetições alucinadas dos sentidos.

Dizem-me que isto é sério. Não concordo.

Visto daqui, ou sentido, és apenas uma perturbação no meu espaço.

Não, não és amor.

És persistente, repetitivo, previsível.

És apenas uma onda periódica, por definição.

 

 

chuva de domingo

O despertador chamou, imperturbável como se fosse um dia de semana.

"Concede-te uma manhã de preguiça" clamei para mim.

A chuva forte, lá fora, trazia para o quarto o cheiro da terra molhada de um início de verão.

Aninhei-me melhor entre os lençóis, a pouca vontade de enfrentar uma manhã de domingo (mais uma) sem planos, nem perspectivas.

Foi, nesse momento em que nos encontramos entre o sono e o despertar, que regressaste.

Sentaste-te na beira da cama, levemente e, enquanto ajeitaste melhor o lençol sobre os meus ombros, lembraste-me que as manhãs de domingo são perfeitas para sonhar.

Embalada pelo timbre (des)conhecido da tua voz (ou seria a chuva?) deixei-me levar.

Não vou mentir, dizendo que acordei mais descansada. 

Nem me recordo dos sonhos que sonhei.

Mas o céu tornara-se azul, o sol rodeado de nuvens rasgadas por um vento feito brisa.

E com renovado ânimo regressei ao meu domingo de afazeres quotidianos, semelhantes uns aos outros, desde o início da pandemia.

Paladares e aromas

Há dias assim, em que me deleito em tontices, perdida no tempo.

Para ser sincera, adoro vaguear nesses momentos. Esqueço o dia. Ou melhor, esqueço as chatices do dia.

Por exemplo, por vezes olho para as pessoas e penso em animais que lhes associo - existe o pardalito, o periquito (sim, tenho uma queda por aves). Normalmente a escolha do animal não surge do físico da pessoa, mas de pequenos traços que lhes capto e o animal para que me remete. Outra curiosidade é só fazer isto com pessoas a quem estimo.

Mais recentemente, dei comigo entretida num exercício diferente. Foi algo impensado, que me apanhou de surpresa quando pensei que uma amiga era "baunilha".

Logo a seguir veio a lavanda, o cravinho, numa mistura de sabores e aromas.

Diverti-me com este exercício uns bons tempos - nos semáforos, enquanto cozinhava, na hora de dormir...

E foi precisamente numa noite que me chegou a constatação, o choque:

Então e a canela? O sabor doce picante, daquele pedaço de casca rugosa que tanto me agrada?

Sentei-me na cama e percorri toda uma galeria de memórias.

"Não é possível" pensei.

Levantei-me e fui à cozinha, sentei-me à mesa com a caixa da canela na mão.

Abri, cheire, provei, relembrei.

Não, já não há canela aqui dentro.

Desconsolada, deitei-me e preparei-me para sonhar.

Desde então, sob a almofada nocturna, um pedaço de canela guia-me os sonhos.

Quem sabe ainda recupero o tal aroma que me falta. 

No carro

Por vezes chego a casa, estaciono o carro na rua em frente à porta, desligo tudo menos o rádio e deixo-me ficar.

Apenas a olhar.

Vejo as pessoas que vêm e vão; a forma como andam, a sua postura. De vez em quando alguém com um sorriso nos lábios, impresso por um qualquer pensamento.

Observo e penso, imagino, o que as fará rir; o que já as fez chorar.

Interrogo-me sobre o que as moverá. O que as empurra para a frente.

Magico sonhos, esperanças. Amores.

Vejo-me sem me ver. Isto é, imagino-me no outro que não sou.

Até que o rádio se desliga sozinho, saio do carro e retorno à realidade. 

Passagem de nível

Bem sei que é um lugar comum, mas a vida é como um trilho de comboios. 

Não digo que seja a viagem no comboio, mas sim a ferrovia e os seus espaços contíguos. 

Sim, creio que é isso mesmo.

Aquilo que cada um tem, um tempo contado entre a estação inicial e o apeadeiro final, é todo um entrar e sair de carruagens, com mudanças de linha, com variados companheiros de viagem, cafezinho nas estações, cheiro a óleo, a gente, a vida.

Com itinerários feitos a pé. Com tempos de espera, apeados numa qualquer estação a ver passar comboios.

De vez em quando, um momento "passagem de nível". Sabem? como aquelas passagens antigas com o seu aviso "pare, escute e olhe"?

Paramos um pouco: escutamos o coração, os outros, o silêncio. Olhamos a obra. E decidimos o que seguir.

No entanto, às vezes, essas paragens fazem-nos questionar. Quer dizer, não sei se a vocês faz, mas a mim certamente que sim.

Paro e penso em todos aqueles que já partiram e questiono: "o que é que ainda aqui  estou a fazer?"

Não me leiam de forma errada, não é um grito de desistência. Tenho muito em mãos.

Tenho trabalho; amigos; família. 

Amo, desamo e, quando me lembro, volto a amar;

Já mudei tantas vezes o caminho, que um curriculum completo gastaria muito papel;

Rio, choro, sinto, de vez em quando anestesio-me...

Mas não posso deixar de pensar" porque é que continuo aqui? "

 

 

Na ausência de resposta, deixo passar o alarme de proximidade de comboio, e terminado o risco, atravesso para o outro lado da linha, onde tenho outra perspectiva da história.

Até que, sem resposta, regresso à linha do costume e ao trabalho quotidiano.

Pelo menos até à próxima passagem de nível. Até à próxima inquietação. 

Sonhos

Há quem diga que com a idade nos tornamos mais sóbrios, mais ponderados, mais serenos.

Que a juventude é o tempo dos sonhos - e de correr atrás dos mesmos.

Depois é tempo de trabalha-los e, seguidamente, usufruir. Ou esquecer.

Mas quando os sonhos chegam tardiamente (ou regressam) isso quer dizer o quê? Que não crescemos? Que não nos cumprimos? Ou apenas que ainda estamos vivos por dentro?

Pouco sonhadora que sou, inclino-me mais para a ultima possibilidade, curiosamente.

A vida não me deu muito azo a sonhos, na época deles. Suponho que me tenha desabituado de sonhar.

Mas delicio-me com quem me conta sonhos, dos mais ingénuos aos mais ambiciosos, tenha o sonhador a idade que tiver.

Talvez seja uma forma de sonhar também.

É que uma vida sem sonhos é dura, triste, desalentada. Uma espécie de morte antecipada, enterrada em quotidianos sabores.

Talvez nunca seja tarde. 

Talvez um dia aprenda a sonhar sonhos meus também.

Quem sabe um dia me junte a um bando de sonhadores, ou crie um bando de sonhos meus, e saia por aí, a descobrir o mundo através desse sexto sentido que pode ser o sonho. 

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